segunda-feira, 6 de abril de 2026

"RAÍZES DO BRASIL"

“Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, juntamente com “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior, compõem a famosa trilogia voltada à interpretação da nossa realidade, de leitura indispensável, para quem quer conhecê-la mais a fundo. Politicamente, “Casa-Grande...”, publicada em 1933, é de orientação liberal, e “Formação...”, de 1942, é de caráter marxista. “Raízes do Brasil”, de 1936, situa-se entre esses extremos políticos, mas não é um livro conservador, e sim progressista, pois refere-se a uma realidade que busca, nas palavras de Antonio Candido, “propiciar a emergência das camadas oprimidas da população” e segue as ideias de um viajante estrangeiro, Herbert Smith, que falava da necessidade de uma “revolução vertical” em vez das “reviravoltas meramente de cúpula” (1). “Raízes do Brasil” não é um livro de história do Brasil, mas sim de interpretação do Brasil, a partir de sua realidade histórica, que envolve os aspectos econômicos, sociológicos, culturais etc. Analisa a nossa evolução histórica, desde o período colonial, destacando a diferença de concepção entre portugueses e espanhóis quanto à colonização. Enquanto aqueles ocupam apenas o litoral e possuem uma mentalidade imediatista, os espanhóis, numa visão de longo prazo, destacam-se pela ocupação de todo o território, procurando estabelecer núcleos urbanos. Como diz Sérgio Buarque, os portugueses foram “semeadores” de cidades, que se desenvolveram irregular e gradativamente, enquanto os espanhóis foram “ladrilhadores”, preocuparam-se com a criação de cidades e o seu planejamento. Outra diferenciação entre os dois povos é a miscigenação fácil do português com o elemento local (inicialmente o indígena, depois o negro). A abolição da escravatura em 1888 é um marco importante na história do Brasil. Juntamente com a proclamação da República no ano seguinte, assinala o fim de um período, com o início da generalização do trabalho assalariado, característico do capitalismo. Como se sabe, o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão. Para vergonha nossa, convivemos com essa instituição execranda durante todo o Império. Por trás da opulência dos notáveis desse período (que em política eram conservadores ou liberais), havia o trabalho duro dos escravos, os castigos a eles infligidos, a separação entre mães e filhos, as mortes precoces etc . A abolição foi mal feita pois lançou no mercado de trabalho, de uma hora para outra, grandes contingentes de mão- de-obra, sem assegurar-lhes o sustento. Por outro lado, a nossa economia atrasada da época não permitiu que homens de visão empresarial moderna como o Barão de Mauá (1813-1889) fossem bem sucedidos em seus empreendimentos. Com o advento da República, a nova política econômica adotada, inspirada no modelo do liberalismo inglês, não era a mais conveniente, uma vez que não levava em conta as peculiaridades da nossa realidade. Na República, os cargos governamentais, não mais nas mãos dos escravocratas, eram agora ocupados pelos bacharéis das classes economicamente dominantes. Dos sete capítulos de “Raízes do Brasil”, o do “homem cordial” deve ser o mais famoso. Por trás da expressão aparentemente elogiosa do caráter do brasileiro, esconde-se uma crítica severa a ele, pois a cordialidade aqui significa o predomínio da emoção sobre a razão, ou seja, a própria negação da justiça. Como diz Sérgio Buarque, a “democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”. Em nosso país, ela não foi, como na Europa, o resultado da luta entre burguesia e aristocracia, mas foi importada por esta, que “tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios” (2). NOTAS (1) Candido, Antonio—“O significado de Raízes do Brasil”, pp. 247-248 in “Raízes do Brasil/ Sérgio Buarque de Holanda”: organização Ricardo Benzaquen de Araújo e Lilia Moritz Schwarcz. Edição comemorativa 70 anos”. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 (2) Holanda, Sérgio Buarque de -- “Raízes do Brasil”. Edição comemorativa 70 anos”, op cit, p. 176.