sexta-feira, 22 de maio de 2026

“LIDERANÇAS DO CONTESTADO”

“Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916)”, por Paulo Pinheiro Machado (Campinas: Unicamp, 2004), originalmente uma tese de doutorado, trata de um tema que nos interessa de perto, a nós paranaenses, por ter como cenário uma região “contestada” do atuais territórios do Paraná e de Santa Catarina, reivindicada por ambos os Estados. As divisas só foram definidas em outubro de 1916, depois da conclusão do conflito, por um acordo assinado pelos governadores das duas unidades da Federação. A assim chamada “Guerra do Contestado” opôs posseiros e pequenos proprietários, despojados de suas terras, a forças militares (do Exército e dos Regimentos de Segurança estaduais), convocadas por políticos da região para defenderem os interesses dos grandes proprietários a quem eram vinculados. Os caboclos se reuniram em certos locais inicialmente apenas por motivação religiosa, atraídos por um monge chamado José Maria, sucessor de dois outros líderes, de nome João Maria, curandeiros que viveram no século XIX. O crescimento do número de fiéis em Irani, nos campos de Palmas, assustou os grandes proprietários e fez com que forças militares do Paraná, comandadas pelo Cel. João Gualberto, se dirigissem ao local para acabar com aquele reduto de crentes. No conflito, ocorrido em outubro de 1912, pereceram tanto o monge José Maria quanto o Cel João Gualberto, fato esse que causou grande impacto na opinião pública paranaense, dada a relevância política do militar, que subestimou o poderio bélico dos crentes. O livro aborda esse fato e o que sucedeu a partir daí, relatando os acontecimentos supervenientes, concentrando-se especialmente nos diversos redutos-mores (vale dizer, os que abrigavam o comando-mor dos caboclos) de Taquaruçu (12/1913 a 1/1914), Caraguatá (2 a 4/1914), Bom Sossego (5 a 7/1914), Caçador Grande (7 a 11/1914), Santa Maria (12/1914 a 4/1915), São Miguel (5 a 7/1915) e São Pedro (7 a 12/1915) (p. 259). Em janeiro de 1916 concluiu-se a guerra sertaneja (p. 323). Um fator que agravou a questão social, e está na origem da mobilização dos posseiros e pequenos proprietários, foi a expulsão das terras ocupadas por eles, há várias gerações, como decorrência da concessão dada pelo Governo Federal às empresas “Brazil Railway Company” e à “Southern Brazil Lumber & Colonization Company”, de Percival Farquhar, para a construção da Estrada de Ferro S. Paulo-Rio Grande e a exploração da madeira na área concedida. A estrada de ferro atravessaria a região de Norte a Sul, e caberia às empresas o direito de propriedade sobre 15 km de um lado e de outro da ferrovia. Após os ocupantes dessa área serem expulsos, a “Lumber”, além de explorar a madeira nela existente, passou também a vender lotes de terra a imigrantes interessados em ali se instalarem. Ao longo do tempo, o movimento teve diversos líderes, o último dos quais, talvez o mais belicoso, foi Adeodato, que acabou preso em agosto de 1916 e condenado a 30 anos de prisão (pp.317- 318). Todavia, foi morto sete anos depois, numa suposta tentativa de fuga.

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