segunda-feira, 7 de maio de 2018


VIAGEM A CARTAGENA DE ÍNDIAS


Em abril deste ano da graça de 2018 passamos, Rosi e eu, uma semana em Cartagena, na Colômbia, também chamada Cartagena de Índias, para diferenciar da cidade espanhola homônima. As Índias naturalmente são as ocidentais, não aquelas que Colombo pensou ter alcançado, sem imaginar que havia entre a Europa e a Ásia um outro continente... 

Cartagena é muito antiga. O ano de sua fundação é 1533 (mas já em  1501 o local fora visitado). Ao entrar na chamada Cidade Amuralhada, seu centro histórico e o principal atrativo da cidade, o turista logo depara com a estátua de seu fundador, o espanhol D. Pedro de Heredia.

Está situada, como se sabe, no extremo-norte da América do Sul, na costa do mar do Caribe. Era por esse porto que os colonizadores espanhóis exportavam para a Europa o ouro e a prata extraídos do continente.  Daí a cobiça dos piratas que a atacaram muitas vezes, apoiados pelas monarquias inglesa e francesa, cujos reis não concordavam com a exclusividade espanhola quanto à pilhagem da região. Isso explica também o apoio que deram a esses ladrões do mar, mostrando que os princípios morais, sob o capitalismo, são sempre relativos e estão subordinados aos interesses econômicos... Dentre os ataques piratas mais notáveis, destacados na historiografia, são citados os de Francis Drake (1586), Barão de Pointis (1697) e almirante Edward Vernon (1741). 

Os frequentes assaltos dos piratas, assim, determinaram, ao longo do tempo, a construção de muros (e fortes) em torno da cidade. Sua. extensão, segundo os guias turísticos, alcança 11 km. Fora da Cidade Amuralhada, encontra-se o maior forte da América colonial, o de San Felipe de Barajas, que data de 1657. Também está fora dela o Convento Santa Cruz de la Popa, de 1606, situado no ponto mais alto da cidade, de onde se pode ter desta uma boa vista panorâmica. Na entrada do forte de San Felipe foi colocada outra estátua, a de Blas de Lezo (1689-1741), o herói espanhol que perdeu um olho, u’a mão e uma perna lutando contra os piratas (!). Como se vê, é um personagem bem característico do realismo mágico da literatura latino-americana...

Em frente ao forte de San Felipe de Barajas 

O acesso à Cidade Amuralhada se dá pela Torre del Reloj. Entrando por aí o visitante encontrará a plaza de los coches (ou das charretes), um mercado de doces, o pátio da Aduana, a plaza Santo Domingo, a plaza Simón Bolívar, a Igreja de S. Pedro Claver etc  Essa igreja foi fundada pelos jesuítas no século XVII e abriga os restos mortais do santo que lhe dá o nome, chamado “o escravo dos escravos”, falecido em 1654 mas só canonizado em 1888... 

Na plaza de los coches situava-se o antigo mercado de escravos. A importação de negros da África -- importante sempre nas áreas econômicas muito rentáveis, que compensavam tal importação -- deve ter sido expressiva aqui, a julgar pela forte presença de elementos dessa nobre raça na cidade.  A propósito, retive na memória uma caracterização interessante de Cartagena de Índias feita por um dos guias turísticos que li: “É uma eclética mistura de gostos e sons caribenhos, africanos e espanhóis”. O guia faz essa afirmação após informar que se trata da maior atração turística da Colômbia...

A plaza de Santo Domingo é um local muito aprazível para descansar, e tomar uma cerveja, que cai bem nesse calor de mais de 30º e após se andar muito por esse centro histórico, onde os carros, felizmente, não circulam. Ou para tomar um mojito nos cafés cubanos existentes na cidade. Aliás, sente-se a presença de Cuba não só nesse campo mas também na música e até nos vendedores ambulantes, tão numerosos na cidade, que vendem, dentre outras mercadorias, os famosos charutos Cohiba.  Na plaza Santo Domingo encontra-se “La Gorda Gertrudis”, do colombiano Botero, e estão presentes as “palenqueras”, figuras típicas, mulheres vendedoras de frutas,  vestidas com as cores da bandeira da Colômbia (amarelo, azul e vermelho).  

"La Gorda" de Botero
Duas palenqueras. 

Em outra praça, a Simón Bolívar, bem arborizada, há uma estátua do Libertador e uma casa grande, imponente, em que ele morou. Possui sacadas, como muitas outras desse centro histórico, antigas residências dos homens ricos da cidade. Localiza-se aí a Catedral e também o Palácio de la Inquisición/Museo Histórico de Cartagena, cujo interesse maior é o do próprio prédio, característico da arquitetura barroca de sua época. A Inquisição, associada à forte presença da Igreja na região, além da pirataria e escravatura, são  tristes lembranças do seu passado colonial... 

Para o deslocamento na região, há duas possibilidades para o turista, uma vez que não há transporte coletivo: o serviço de táxi e o ônibus de dois andares Hop On, Hop Off, esta a opção mais conveniente.  O ônibus  faz o city tour pela cidade, abrangendo todo o trajeto da Cartagena turística, desde a Cidade Amuralhada passando por Bocagrande até o Laguito e retornando para o centro histórico. Passa por belos locais como o Muelle de los Pegasos, com as esculturas imponentes desses animais alados mitológicos. Na ida, o ônibus vai pela avenida que beira o Mar do Caribe e na volta, vem pela avenida junto à Baía de Cartagena (Bocagrande é uma estreita faixa de terra situada entre o Mar e a Baía). Há uma série de pontos de embarque e desembarque ao longo do trajeto do ônibus e o pagamento de 45 mil pesos colombianos por pessoa (aproximadamente, 60 reais) dá direito ao passageiro de utilizá-lo durante dois dias, descendo, ou embarcando, à vontade, em qualquer um dos pontos predeterminados, conforme uma tabela de horários, de 45 em 45 minutos, durante o dia.  

Há um outro ônibus, aberto  (ônibus colorido “chiva”) que leva o pessoal para as casas noturnas, em que os passageiros se contagiam com a música  alta dentro dele e o clima festivo.  

O pequeno hotel Charlotte em que nos hospedamos localiza-se em Bocagrande (na avenida San Martin, paralela à beira-mar) e situa-se entre muitos restaurantes, lanchonetes, farmácias etc e também entre dois cassinos e um bingo.  

Segundo li, “O bairro de San Diego e a Plaza Santo Domingo são talvez os locais que melhor capturam a sedução da cidade”. Por isso, para conhecer esse bairro, pegamos o ônibus Hop On, Hop Off e descemos no ponto próximo à casa-museu Rafael Nuñez, um casarão confortável e avarandado em que no passado viveu esse ex-presidente colombiano e hoje dedicado à sua memória.  Dali, partimos para conhecer o bairro, localizado na porção leste da Cidade Amuralhada. Depois de passar pela casa de Gabriel Garcia Márquez (que não está aberta ao público e hoje pertence aos seus herdeiros), entramos num café retrô reproduzindo a Cuba dos anos 40 (quando a ilha era um bordel dos EUA...) e provamos, para entrar no clima, um autêntico mojito. 

Reservamos um dia para visitar a playa Blanca e as Islas del Rosario.  A praia dista uma hora de Cartagena, com acesso precário, barracas simples. É uma praia ainda não explorada pela especulação imobiliária, talvez porque a área esteja preservada pela legislação local. Quanto às Islas del Rosário, trata-se de um conjunto de 27 ilhas, Fizemos questão de incluir esse passeio em nossa programação para ter uma ideia, pelo menos, da cor das águas do mar do Caribe, uma vez que o mar junto à cidade de Cartagena não é muito diferente dos que conhecemos por aqui. É realmente de um azul muito bonito, e suas águas, no ponto onde o barco parou, eram transparentes...  Numa das ilhas visitamos um “Oceanário” interessante, onde golfinhos dão um show, há  diferentes peixes, tartarugas gigantes, e os tubarões são  “amestrados”, chegando perto e se afastando do treinador ao seu comando... 

Uma contrariedade que tive nesse passeio. O barco que utilizamos, lotado, com todos os assentos ocupados (e que às vezes nos deu um pouco de medo), não tinha salva-vidas para todos os passageiros. De modo que viajei sem ele... 

Para concluir, uma palavra sobre os inúmeros vendedores, fixos e  ambulantes, que estão muito presentes na cidade e pressionam à exaustão os turistas que por aí passeiam. São vendedores de chapéus (uma necessidade ali, pelo sol inclemente), anéis, colares, souvenires, doces, frutas, “hormiga culona”, serviços turísticos e outros... Para se ter uma ideia da situação, quando tomávamos cerveja à beira-mar uma mulher nos abordou simpaticamente, conversando muito, e acabou me fazendo, sem que eu concordasse, uma massagem nas pernas e braços com óleo de oliveira... exigindo pagamento depois, naturalmente. É claro que os turistas são a única fonte de sua renda. Por isso, são tão  insistentes e praticamente nos obrigam a consumir seus produtos, fazendo com que você os consuma sem querer (ou para se livrar deles) e depois exigindo pagamento.  Mas obviamente isso é um reflexo do subdesenvolvimento do país (assim como o é, por exemplo, a falta de fiscalização quanto ao uso de salva-vidas nos barcos referido acima). Embora a Colômbia apresente uma atração turística excepcional como Cartagena, que é, como se diz, um “museu ao ar livre”, não pode isolá-la do seu contexto social, apenas por que isso é conveniente para o nosso conforto, de turistas egoístas...

As botas de Blas de Lezo


Dentro da Cidade Amuralhada 



Rosi em Cartagena, fora do centro histórico. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

SOBRE "O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS"



Na minha opinião, os dois fatores básicos que explicam a excelência de “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura, é a qualidade narrativa do livro e a crítica (progressista) que faz do socialismo realmente existente, uma realidade bem conhecida pelo autor... Apesar de todo o sucesso internacional e podendo viver na Europa, Padura prefere continuar vivendo em Cuba, na mesma casa em que nasceu e dirigindo seu carro velho de muitos anos...

Graças certamente ao seu talento narrativo, demonstrado em romances policiais bem sucedidos, ele consegue manter presa a atenção do leitor até o final desse romance histórico, que na edição brasileira da Boitempo conta com mais de 500 páginas. O livro é constituído por 30 capítulos que, variando no tempo e no espaço, se concentram, dependendo das exigências narrativas, em algum destes três protagonistas: 1) Ivan, um escritor frustrado, morador na Cuba do nosso tempo (o cap. 1 se passa em 2004); 2) Trotsky, o líder exilado da Revolução Russa, residente em diversos países desde sua deportação em 1929, sendo o último deles o México, onde foi assassinado, em 1940; e 3) Ramón Mercader, o comunista espanhol, egresso da Guerra Civil em seu país, que cumpriu a tarefa que lhe foi atribuída, a mando de Stalin. Como se sabe, Mercader infiltrou-se na casa em que morava Trotsky, ganhou a confiança dos seus moradores e acabou por matar o líder soviético, golpeando-o com uma picareta. Embora a história de Trotsky seja bem conhecida, não o é a de Mercader. E isso exige mais do talento de ficcionista de Padura que, a partir dos (poucos) dados conhecidos sobre o assassino, reconstrói a trama em que está envolvido, mantendo sempre o interesse do leitor. Dessa trama participa a mãe de Mercader, militante do partido, e os agentes russos vinculados à NKVD (polícia política) e ao estado soviético.

Interessante também é o retrato psicológico feito do jovem Mercader, que no início acreditava realmente que estava prestando um grande serviço à causa que abraçou. Mais tarde, já na URSS, após cumprir sua pena no México (20 anos), não aparenta mais estar tão certo disso... Lá ele reencontra seu antigo mentor russo, que revela então todo o cinismo de quem está bem consciente das mazelas do período stalinista ao qual serviu... O livro, mais do que simplesmente condenar o assassino pelo ato abominável que cometeu, traz elementos que permitem vê-lo também como vítima das circunstâncias históricas de seu tempo, um tempo brutal de conflito ideológico, da Guerra Civil Espanhola, de ascensão do nazifascismo, do auge da autocracia de Stalin e do início da II Guerra.  

O romance mostra não só a verdadeira face da vida na URSS stalinista, sob o signo do medo e dos privilégios da burocracia. Mostra também -- e esse é outro aspecto notável do romance – a vida em Cuba nas últimas décadas do século XX e início do XXI, criticando-a direta ou indiretamente, por meio da descrição dos percalços e da vida de Ivan, um escritor frustrado, cuja carreira foi sufocada pelas circunstâncias próprias do regime. A frustração de Ivan se agrava com a morte da esposa e o abandono dos filhos que, como outros de sua geração, preferiram morar em Miami.
Ivan conhece na praia, por acaso, um espanhol chamado Jaime Lopez, com seus dois belos galgos russos. Tem vários encontros com ele, que demonstra saber muito sobre Mercader. Trata-se, na realidade, de mais uma das diversas identidades falsas deste. Está em Cuba porque as autoridades russas permitiram que Mercader emigrasse para lá, e é ali que ele virá a falecer.  Assim como Trotsky, Mercader também era um homem que amava os cachorros...


Em suma, trata-se de um livro de crítica ao socialismo realmente existente. Mas sua crítica tem, a meu ver, um caráter progressista, i.e. não reacionário. Reconhece as falhas de um modelo que fracassou, o que não invalida o ideal de mudança, para melhor, da ordem social. O livro consiste, na realidade, numa defesa dos valores da verdadeira democracia, de afirmação dos direitos do indivíduo frente a um estado onipresente, comandado por uma burocracia privilegiada, indiferente às vicissitudes da maioria da população.





sábado, 24 de junho de 2017


UMA SEMANA NO LESTE EUROPEU
(Memória de viagem)

2.06.17 (sexta)
No aeroporto Afonso Pena, despachamos a bagagem diretamente para Praga, o destino final de nosso voo. Às 19:00, decolamos para o Rio de Janeiro.
-No Rio, às 22:10 decolamos para Frankfurt pela Lufthansa.  O voo durou pouco mais de 11 horas. Mas foi necessário acrescentarmos mais 5 horas para sabermos a hora local, devido à diferença de fuso com o Brasil. 

3.06.17 (sábado)
-Às 14:30, chegamos em Frankfurt (hora local). Às 17:00 deveríamos decolar para Praga. Mas esse voo foi cancelado, parece que por causa do mau tempo.  Felizmente foi possível fazer o rebooking para o mesmo dia, por volta das 23 horas, depois de aguardarmos em filas quilométricas todo esse tempo. 
-Chegamos em Praga quase meia-noite. Hospedamo-nos no hotel Corinthia Prague (Kongresova, 1). Na recepção,  fomos atendidos por um jovem peruano que havia trabalhado em S.Paulo e falava bem português. Nosso quarto ficava no 17º andar de um edifício que devia ter uns vinte e poucos, o que é incomum em Praga e nas outras cidades que visitamos. O hotel situava-se um pouco mais afastado do centro, na parte mais nova dessa cidade multicentenária. 

4.06.17 (domingo)
-Em Praga.  Pela manhã, fizemos a “visita panorâmica” da cidade, com o guia da Europamundo e o guia local, um sujeito alto e magro, moreno, com uma barbicha debaixo do lábio inferior, aparentemente um costume local, pois vi vários tchecos com esse visual.
-Na visita panorâmica, subimos de ônibus até o castelo de Praga (o maior da Europa), e depois entramos a pé pelo portal dos gigantes em luta (“Pátio de Honra”) e andamos pela área externa ao Castelo mas dentro de suas muralhas, passando pela Catedral de S.Vito e Palácio Real, circulando pelo primeiro e segundo pátios. Este último foi acessado após transpormos a Porta Mathias. Não avançamos até a Viela Dourada, hoje ocupada por lojinhas de souvenires, e outras. No nº 22 morou Franz Kafka. Aliás, segundo nosso guia, essa é uma das vinte casas em que ele morou em Praga (chegamos a passar por algumas delas). 
Em seguida, descemos ainda a pé para Malá Strana (“Pequeno Quarteirão”). Andamos por suas ruas antigas, especialmente pela rua Nerudova, cujo nome homenageia o escritor tcheco Jan Neruda, do século 19, que inspirou o pseudônimo do poeta chileno. Uma curiosidade dessa região antiga (“praticamente nenhum edifício surgiu aqui depois do século 18”) é a presença de símbolos na frente das casas que serviam para identificá-las, antes de se adotar o sistema de numeração.  A Casa dos Dois Sóis, por exemplo, é a do escritor.
Prosseguindo nessa caminhada, chegamos à famosa ponte Carlos, sobre o rio Moldava, que é só para pedestres e estava atulhada de turistas. Essa ponte  é de 1357 e foi mandada construir por Carlos IV, cuja estátua vimos, ao sair dela. Aliás, ao longo da ponte há diversas outras estátuas. Carlos IV foi imperador do Sacro Império Romano de 1346 a 1378, além de rei da Boêmia.  Na condição de imperador, “declarou indissolúvel a união da Boêmia, Morávia, Silésia e a parte norte da Lusácia, e incluiu pedaços da Alemanha na Boêmia”.
Ultrapassada a ponte, entramos  na Staré Mesto (“Cidade Velha”). Passamos por uma casa, com uma placa na fachada,  em que morou o astrônomo Johannes Kepler. Logo chegamos à praça central, onde há vários edifícios antigos, e a Prefeitura da Cidade Velha, em cuja torre está o famoso Relógio  Astronômico, construído em 1490 e que “marca o tempo em três calendários: o da antiga Boêmia, o babilônico e o romano (o atual). Além disso, mostra movimento da lua e do sol por meio dos doze signos do zodíaco”. Na virada das horas, várias figuras se movimentam (alegorias da vaidade, avareza, morte e luxúria), e as que mais chamam a atenção são as dos apóstolos, na parte superior do Relógio, vistas por duas pequenas janelas, sobre as quais há um nicho com um pequeno galo de ouro.

No centro da praça da Cidade Velha há um monumento interessante. Trata-se do Memorial de Jan Hus, o reformador religioso que foi queimado vivo em 1415. O monumento é de  1915.  E pensar que ali onde nos sentávamos, nas cadeiras na calçada do restaurante, para fazer um lanche e curtir a praça e seus arredores, a plebe insensível e sadista do passado devia se acumular para ver espetáculos de execução como esse, de extrema crueldade... A propósito, nesse local, à esquerda do monumento, havia algumas pessoas debaixo de uma faixa com dizeres em inglês contra Putin e sua política com relação à Ucrânia. 

Na  frente do Relógio Astronômico, em Praga.
Perto da praça central, em Praga


No centro da praça, Memorial de Jan Huss
Como adquirimos o passeio orientado “Praga Artística”, depois do almoço encontramo-nos novamente com o mesmo guia local que já nos guiara antes na visita panorâmica da manhã. O passeio agora incluiu uma circulada (sempre a pé) pelo Bairro Judeu (“Josefov”), uma visita à parte externa da Sinagoga espanhola, uma olhada rápida em um trecho do cemitério judeu (onde Kafka está enterrado), um pequeno passeio pelo rio Moldava com vista para o conjunto do castelo de Praga, a ponte de Carlos IV e suas torres góticas. Desembarcamos em Malá Strana e visitamos depois o palácio de Wallenstein (sede do Senado tcheco), a igreja de S.Nicolas, com entrada paga  (Mozart usou o órgão dessa igreja para executar o “Réquiem”), e a igreja de N.Sra da Vitória, onde é venerado o Menino Jesus de Praga. 

5.06.17 (segunda)
Por volta das 8 horas da manhã, partimos de Praga, no ônibus da Europamundo, rumo a Budapeste. A distância entre as duas capitais é de 528 km.
Aproximadamente na metade do caminho, ainda na República Tcheca (região da Morávia), paramos para conhecer os jardins e a parte externa dos castelos de Lednice, considerado “patrimônio da humanidade” pela Unesco. Suas origens remontam ao século XIII, tendo sofrido várias reformas posteriormente. O local está situado perto da fronteira com a Áustria, a 275 km de Praga.


Na frente do Castelo de Lednice, Rep. Tcheca
Prosseguindo viagem, fizemos nova parada, agora para almoçar e conhecer o centro de Gyor, a cidade mais importante do noroeste da Hungria.


Praça em Gyor, Hungria
Chegamos a Budapeste no meio da tarde.  Registramo-nos no hotel Danubius Health SPA Resort Margitsziget, localizado na ilha Margit, no rio Danúbio, que divide Buda de Peste. Nos corredores do hotel cruzávamos frequentemente com pessoas de roupão branco, indo ou vindo dos spas (Budapeste é rica em águas termais e os “banhos turcos” – herança do tempo da dominação pelo Império Otomano – é uma tradição do lugar). Uma vez instalados no hotel, saímos novamente no ônibus à disposição do grupo, que nos levou para uma área junto ao Danúbio, turisticamente mais relevante. O ônibus estacionou na rua do Museu Nacional Húngaro, em frente a este mas do outro lado da rua. Seu prédio é de arquitetura clássica, com colunas gregas. A esse local deveríamos voltar mais tarde, em hora combinada, para retornar ao hotel. Passeamos então por essa rua (Muzeum korut) e em seu prolongamento (Vám korut), passando pelo belo prédio do Mercado Central (de 1896), que já estava fechado, caminhando até a ponte verde sobre o Danúbio (ponte Petófi). Depois, exploramos um pouco uma rua transversal (a Belgrad rakpart) e ali deparamos com um prédio onde morou até a morte, em 1971, o filósofo marxista Georg Lukacs, conforme informava uma placa em sua fachada.


Mercado Central de Budapeste
6.06.17 (terça)
Pela manhã, fizemos a “visita panorâmica” à cidade, circulando por ela no ônibus, e ouvindo explicações do guia. A primeira parada foi na Praça dos Heróis, em Peste, onde há várias estátuas de figuras importantes da história húngara. Foi aqui “o principal ponto do levante anti-soviético de 1956”. De um lado dessa praça há o Museu de Belas Artes, com um importante acervo, que eu tinha planejado visitar depois. Mas estava em reformas, por isso temporariamente fechado.


Praça dos Heróis, Budapeste
Retornando ao ônibus, cruzamos a ponte das Correntes e entramos em Buda, subindo a colina do Castelo e passeando pelos diversos edifícios do Palácio Real reconstruído, que hoje abrigam museus de arte e a igreja de S. Matias, rumando depois para uma bela igreja, conhecida pelo nome de Bastião dos Pescadores, que abrange sete torres representativas das sete tribos magiares das origens históricas do país.


Bastião dos Pescadores, Budapeste
Descemos do ônibus ali para admirar tal arquitetura, subir suas escadas e desfrutar as belas vistas de Peste que proporciona, especialmente do belíssimo Parlamento, à beira do Danúbio.  Posteriormente, retornamos para Peste passando por outras atrações turísticas (Basílica de Santo Estevão, Ópera etc) e parando no Mercado Central, já referido acima, onde descemos. Era por volta do meio-dia. Percorremos  diversos setores do Mercado, que era bem diversificado pois além de frutas, verduras, alimentos, bebidas etc, podia-se fazer ali refeições e comprar souvenires. Dentre estes, revelando um costume popular local, eram frequentes os jogos de xadrez, cujo tamanho variava bastante (comprei ali um dos pequenos). Curiosamente, um das peças do jogo, a rainha, tem um design um pouquinho diferente do tradicional, pois em sua cabeça destaca-se uma coroa feita de diversas bolinhas em círculo... Não nos animamos a almoçar ali, e sim, mais tarde, num restaurante no começo da  Váci útca (no nº 86-- “Old Street Café”). Essa é a  principal rua comercial e dos turistas, perto do Mercado, e nela passearíamos depois tomando sorvete, aliás muito consumido pela população naquele dia quente.
No final da tarde, retornamos, caminhando, ao nosso ponto de encontro, em frente ao Museu Nacional, como no dia anterior. Casualmente, encontramos diversos sebos, um ao lado do outro, nessa rua do Museu. Entrei  neles para dar uma olhada rápida nas estantes de livros (que não fossem em húngaro, naturalmente, “única língua do mundo que o diabo respeita”, segundo o “Budapeste” de Chico  Buarque...). Comprei ali “Histórias de almanaque”, de Brecht, em espanhol, e uma edição de bolso de “ À l’ombre des jeunes filles en fleurs”, de Proust.   
Após um breve descanso no hotel, saímos novamente, agora para fazer um passeio de barco pelo rio Danúbio e ver tanto Buda quanto Peste iluminadas,  à noite. É realmente um espetáculo deslumbrante ver o Parlamento e outros edifícios em ambas as margens do rio, e suas várias pontes, nessa condição.
Ao fundo, o Parlamento húngaro, às margens do rio Danúbio, em Budapeste



Na sequência, o ônibus nos levou até o topo do monte Gellért para, uma vez mais, admirarmos Budapeste à noite. No local, no topo de um obelisco, há a estátua de uma mulher segurando a palma da paz, símbolo da Liberdade, conquistada pela Hungria após a derrota do Nazismo na II Guerra. Abaixo, sobre uma coluna de menor altura, havia, segundo nossa guia, estátuas de soldados soviéticos, pois foi graças ao seu exército que aquela derrota foi possível. Mas elas foram retiradas dali, depois da mudança do regime na Hungria. Devem estar hoje no Parque das Estátuas, situado em bairro mais afastado da cidade, para onde foram encaminhadas todas aquelas que lembravam o comunismo.  O monumento à Liberdade, pela sua posição, é visto a grande distância dele, e nós o vimos, iluminado, ao passear de barco no Danúbio, à noite.   

7.06.17 (quarta)
Pela manhã, saímos de Budapeste, partindo em nosso ônibus com destino a Viena. Fizemos uma parada em Bratislava, capital da Eslováquia desde 1993, quando houve a divisão da antiga Tchecoslováquia em dois países. A cidade fica a apenas 60 km de Viena. Situa-se também às margens do Danúbio.


Em Bratislava, capital da Eslováquia
Nosso ônibus ficou estacionado perto da catedral de São Martinho. Aí foram  coroados os monarcas húngaros, inclusive a imperatriz Maria Tereza, em 1741. Bratislava (ou Presburgo, seu antigo nome) foi capital da Hungria por quase duzentos e cinquenta anos (de 1536 a 1783). Dessa igreja fui convidado a sair  porque entrei numa hora em que se celebrava missa. Mas voltei a ela depois, no horário reservado aos turistas, para admirar o seu interior, que impressiona bem mais do que a parte externa.
Caminhamos para o centro histórico e subimos as ruas Ventúrska e Michalská, vendo ao fundo a Torre de São Gabriel, o único portão que restou dessa cidade, em boa parte de caráter medieval, pois transversalmente a essas ruas havia ruelas antecedidas por arcos, com lojas e restaurantes.
Andando por aquelas ruas, passamos, conforme o guia, pelos seguintes edifícios: 1) palácio de Keglevich (onde Beethoven deu um concerto em 1796);  2) edifício da primeira universidade da Hungria, fundada em 1465; 3) palácio de Pállfyl (onde em 1762 Mozart, aos 6 anos, deu um concerto; em sua fachada há uma placa referindo-se a esse fato); 4) palácio de Pauli (em que Liszt se apresentou em público pela primeira vez, em 1820, aos 9 anos; também há aí uma placa na fachada).    
Uma curiosidade de Bratislava é a presença de algumas esculturas curiosas como a do observador do bueiro e a do soldado napoleônico apoiado num banco de praça. Aliás, Napoleão atacou a cidade duas vezes, uma em 1805 e outra em 1809. Em 1805 foi firmada aí a Paz de Presburgo, depois da batalha de Austerlitz, vencida por Napoleão, que teve lugar perto dessa localidade, “a cerca de 10 km a sudeste de Brno na Morávia, na altura uma região do Império Austríaco (atualmente República Checa)”.
Após o almoço na praça central desse centro histórico e o passeio por suas principais ruas, e praças mais afastadas, onde vimos carros vermelhos puxando vagões abertos da mesma cor, voltamos ao ônibus e retomamos viagem.  



Em Bratislava


Chegando em Viena, instalamo-nos no Exe Hotel Vienna, na rua Ottakringer, distrito 17 (a placa da rua indica a área da cidade em que a pessoa está). Foi possível ainda, nesse fim de tarde, fazer a “visita panorâmica”, tirando partido do fato de que nessas cidades do nosso itinerário anoitecia mais tarde do que aqui, na mesma época.
Palácio Schönbrunn, Viena
Circulamos em nosso ônibus por várias ruas do centro de Viena, observando certos edifícios especiais, como o Secessão (o “Repolho Dourado”), com características peculiares, que assinala uma estilo de arte austríaco, liderado por Klimt.   Mas de modo geral os edifícios apresentam uma certa uniformidade, em sua imponência e na altura, pois não ultrapassam cinco ou seis andares. Rumamos depois para o palácio Schönbrunn, longe do centro, a fim de conhecer seus belos jardins e a parte externa do palácio, que era a residência de verão da família imperial (de suas  2 mil salas só 40 podem ser visitadas).   Esse   palácio, de estilo barroco, foi concluído pela imperatriz Maria Tereza (1740-1780).     Seu descendente,  o imperador Francisco José -- que reinou de 1848 a 1916 e   casou  com   Elizabete (Sissi) -- nasceu aqui em 1830.
Nesse tour, conhecemos, também externamente, outro palácio, o Belvedere, e seus jardins planejados. No passado eram residência de verão de seus nobres proprietários e hoje abrigam coleções de artes plásticas e servem de local para exposições temporárias. Na realidade são dois palácios, o Belvedere Superior, de fachada mais elaborada, e o Inferior. Tiramos fotos junto às curiosas esfinges no jardim do Belvedere Superior.
Na conclusão do circuito vimos o rio Danúbio que em Viena não corta a cidade, como em Budapeste, mas corre em sua periferia.   

8.06.17 (quinta)
Saímos pela manhã rumo ao Hofburg, que sediou por muito tempo o império austríaco, e ao quarteirão dos museus junto a ele, em cujo centro há um monumento em que se destaca a estátua da imperatriz Maria Tereza. Pegamos o trem elétrico nº 44 que conforme informação obtida anteriormente fazia o trajeto do nosso hotel até aquele área turisticamente muito relevante. Eu já  tinha reservado no bolso as moedas para pagar o valor de 2 euros e 30 centavos por pessoa. Ocorre que ao entrar no trem não havia nenhum cobrador, e não vimos ninguém pagar a passagem. De modo que descemos do trem em nosso destino sem pagar (e repetiríamos a proeza depois, ao retornar para o hotel). Só no dia seguinte ficamos sabendo que era preciso comprar as passagens em estações do metrô, ou dentro do próprio trem, em caixas automáticas, que só aceita moedas. Nos trens há fiscais que, certamente atuando por amostragem,  poderiam ter pedido para mostrarmos os tickets da passagem. Não os tendo, teríamos problemas e sofreríamos as sanções previstas... 
O preço da passagem, convertido em nossa moeda, seria igual a pouco mais de 8 reais. Esse era o preço também, aproximadamente, de uma garrafinha de água mineral. Parece muito caro, se considerarmos só os valores absolutos, na comparação com os preços daqui.  Ocorre que, segundo nos disseram, o salário-mínimo lá equivaleria, em nossa moeda, a uns 5 mil e 500 reais. Mas, como sabemos, o que importa na comparação entre países não são os preços  nominais mas o poder aquisitivo da remuneração...


Entrada do Hofburg, em Viena

Nessa manhã visitamos o Kunsthistorisches Museum (museu de História da Arte), de rico acervo, acumulado pelos Habsburgos durante vários séculos. Deixamos de lado, não por falta de vontade de ver mas por falta de tempo, as seções de egiptologia, arte greco-romana etc, e nos concentramos nos pintores flamengos, holandeses, italianos, alemães etc Esse museu conta com a maior coleção de Peter Brueghel, o Velho, um de meus  preferidos. Há ali telas de Rembrandt (auto-retratos), Vermeer (“O Estúdio do Artista”), Bellini, Ticiano, Arcimboldo, Dürer etc   
Depois de três horas passeando pelas salas desse andar dos pintores, saímos do museu e caminhamos pelas imediações, até chegarmos próximos ao café Landtmann, frequentado por Freud. Paramos aí para descansar e fazer um lanche.



Na sequência, não por acaso, rumamos para o museu Freud, localizado a  alguns quarteirões dali, que não foi difícil encontrar (sabendo seu endereço) com um mapa da cidade nas mãos e pedindo uma ou outra informação aos transeuntes. O museu se situa no apartamento do prédio em que viveu e trabalhou o pai da Psicanálise durante 47 anos, de 1891 até 1938, quando se exilou em Londres, fugindo dos nazistas. Possui alguns móveis originais (exceto o famoso divã, que está em Londres), muitas fotos, manuscritos, alguns de seus livros, objetos pessoais etc  Numa pequena sala, há um monitor de TV que mostra filmes em que Freud aparece, e também sua filha Anna. Ela, já idosa, dá um depoimento sobre ele. 


Museu Freud, em Viena
9.06.17 (sexta)
Nosso tempo disponível nesse dia, que se estendia até às 16 h -- quando uma van viria nos buscar para o traslado até o aeroporto de Viena -- seria todo dedicado ao Hofburg, o palácio que foi sede do poder austríaco por 6 séculos. Passeamos a pé por esse complexo de edifícios, jardins e monumentos. Os edifícios abrangem, além dos aposentos reais (ocupados por Francisco José e sua esposa, a imperatriz Elisabete, ou Sissi), a Escola Espanhola de Equitação (onde cavalos de raça fazem exibições), a Biblioteca Nacional Austríaca, a Casa do Tesouro, uma capela onde se apresentam os Meninos Cantores de Viena e  uma igreja onde está o túmulo de uma filha da imperatriz Maria Teresa, que é um belo monumento de arte funerária, construído por Antonio Canova. Ao lado dessa igreja situa-se o palácio Albertina, que apresentava então uma exposição de Egon Schiele, por nós visitada. Também admiramos aí parte do acervo do museu, composto por obras de outros artistas. Desses, as telas que mais me impressionaram foram as de alguns surrealistas (Miró, Chagall, Magritte) e  Picasso.  
Na saída do Hofburg, em Viena
Uma informação interessante fornecida pelo nosso guia local: 30% das habitações em Viena são propriedade do Estado, que os aluga aos interessados.  Será que os nossos neoliberais, que demonizam a sua atuação, sabem disso?

Às 19:10 nosso avião (da Lufthansa) decolou do aeroporto de Viena, com destino ao de Frankfurt.  De lá, partimos para o Brasil.

10.06.17 (sábado)
Chegamos em S.Paulo (aeroporto de Guarulhos) aproximadamente às 5 h da manhã.  Algumas horas depois, partimos para Curitiba, chegando aqui por volta das 9:30 h.


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