quarta-feira, 8 de janeiro de 2014





 A PROPÓSITO DO "INFERNO", DE DAN BROWN

1. Do que trata?

O enredo de “Inferno” pode ser assim sintetizado. O geneticista Bertrand Zobrist, obcecado com o problema da superpopulação mundial  que cresce exponencialmente (v. abaixo, item 2), criou um vírus especial destinado a reduzir drasticamente a população do planeta, como consequência da sua propagação epidêmica pelo ar. É um “vírus-vetor”, que “insere informações genéticas na célula que está atacando e tem o poder de modificar o DNA humano”.

O cientista milionário contratou os serviços de uma organização secreta chamada Consórcio para lhe garantir privacidade absoluta em suas pesquisas, desenvolvidas particularmente, com o objetivo de criar aquele vírus. Somos alertados, nas páginas iniciais do livro, que essa organização secreta realmente existe, mas com outro nome, e tem escritórios em sete países...Também as informações relativas a arte,  ciência, história etc apresentadas ao longo do trabalho não são ficcionais.   

Zobrist é um aficcionado da “Divina Comédia”, que conhece profundamente. Seu laboratório, não por acaso, localiza-se em Florença, a cidade natal de Dante. Ele forneceu, antes de aí suicidar-se (acreditando-se um benfeitor da humanidade), uma série de pistas inspiradas na obra do poeta florentino sobre o local em que depositou o material que originará a epidemia em questão, pistas essas encaminhadas ironicamente à OMS- Organização Mundial de Saúde.  Essa entidade é muito criticada por ele e os adeptos de seu movimento transumanista pela sua omissão relativamente ao rápido crescimento populacional do mundo, do qual dependem todas as grandes questões ambientais do planeta. O agravamento desses problemas levará à extinção da espécie humana, antes que ela possa se aperfeiçoar pelas novas tecnologias da engenharia genética que já se vislumbram no horizonte da ciência. A ação do vírus de Zobrist  reduzirá a população mundial em mais ou menos um terço  (proporção verificada quando ocorreu na Europa medieval  a Peste Negra, no século XIV), o que daria tempo para que a humanidade se beneficiasse das novas tecnologias, que visariam o aperfeiçoamento da raça humana, objetivo do transumanismo. Essa é a justificativa para o procedimento de Zobrist, que não conta com o apoio da comunidade científica. Mas para ele o caminho que adotou é o mal menor entre as duas situações...

Por causa daquelas mensagens cifradas, a Dra. Elisabeth Sinskey, diretora da OMS, pede a cooperação de Robert Langdon, professor de Arte e Simbologia da universidade de Harvard, no que é atendida. Ele é o protagonista desse romance de suspense, e sua movimentação,  ao avançar na decifração das mensagens, premido pelo tempo, consiste no fio condutor da obra, cheia de reviravoltas e surpresas.

O livro inicia com Langdon  voltando a si num hospital de Florença, ferido e sem lembrar de nada do que aconteceu, sob os cuidados de uma jovem médica chamada Sienna Brooks. Mais tarde se verificará que tudo foi uma encenação (o atentado de que foi vítima, o assassínio do Dr. Marconi, colega de Sienna etc). Na realidade, ele está nas mãos dos partidários de Zobrist, ou especificamente, da Dra. Sienna Brooks, que contou com o apoio do Consórcio para concretizar aquela encenação. Assim, subentende-se que Langdon, após transferir-se para Florença a fim de auxiliar a OMS, foi sequestrado, para que não contribuísse com esta organização, considerada pouco confiável por Sienna, que quer localizar o material patogênico antes dela, a fim de destruí-lo, pois embora concorde com as ideias de  Zobrist discorda de seus métodos pouco ortodoxos...  Langdon passará o tempo todo na busca desse material e fugindo dos homens do agente Brüder, chefe da força de segurança a serviço da OMS, que na verdade não queria lhe fazer mal mas estava à sua procura para resgatá-lo de Sienna e do Consórcio e colocá-lo de novo a serviço da Dra. Elisabeth Sinskey... No final, dada a gravidade da situação, o próprio Consórcio muda de lado e passa a colaborar com a OMS.  Langdon juntamente com Brüder chegam ao local onde está o material patogênico na antiga basílica de Santa Sofia em Istambul praticamente ao mesmo tempo que Sienna Brooks, que adota outro caminho para ali chegar (após Langdon ser resgatado por Brüder, ele se separa de sua amiga, e é informado sobre quem é ela de fato...). Todos percebem que chegaram tarde demais. Há uma semana, o vírus vem sendo disseminado nos subterrâneos daquele edifício, numa caverna (ideal para a sua propagação) onde se realiza diariamente um concerto gratuito (patrocinado por Zobrist) para os inúmeros turistas de todas as partes do mundo que visitam Santa Sofia...  O programa único do concerto é a  “Sinfonia Dante”, de Franz Liszt... Há uma revelação quanto a esse vírus, que provocará no leitor a surpresa final, dentre as muitas surpresas que o livro contêm.  

2. O problema da superpopulação mundial

Conforme dados citados na p. 101-2 da edição brasileira de “Inferno”, a população do planeta evolui em progressão geométrica: durante toda a história da humanidade, só chegou a 1 bilhão de pessoas em 1800;  na década de 1920, passou para 2 bilhões; nos anos de 1970, passou para 4 bilhões. Em meados deste século, deverá atingir 9 bilhões. Para o livro, a superpopulação mundial fará com que vejamos o Inferno de Dante em nossas cidades. A população ideal, “para assegurar a sobrevivência a longo prazo da humanidade”, seria em torno de 4 bilhões;  já estamos em 7 bilhões (p. 105)

Para Zobrist, todos os grandes problemas ambientais contemporâneos são função de uma variável única: a população global do mundo. São estes os problemas citados:  demanda por água potável, aquecimento global, destruição da camada de ozônio, esgotamento de recursos oceânicos, extinção de espécies, concentração de gás carbônico, desmatamento e elevação do nível do mar  (p. 135-6)


3. Personagens principais:

-Robert Langdon- professor de História da Arte e Simbologia em Harvard
-Bertrand Zobrist- milionário, cientista, dono da máscara mortuária de Dante, que colocou à disposição do público no museu do Duomo, em Florença     
-Dra. Sienna Brooks- médica, tem 30 e pouco anos, é bonita, mas careca (pelo stress), usa peruca; tem uma personalidade problemática, alto QI, foi discípula e ex-amante de Zobrist;  demonstra afeição por Langdon, que chega a beijar na boca no final do livro
-Dra. Elisabeth Sinskey- médica, diretora da OMS; tem 61 anos, cabelos prateados; era estéril, quando jovem
-O diretor do Consórcio- seu nome não é citado
-Vayentha: mulher vestida de couro preto, ágil, corpo bem torneado, cabelos negros espetados, a serviço do Consórcio: é uma assassina que não era assassina, de fato, atirava com bala de festim
-Brüder e seus homens- integram uma força subordinada ao Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças; é uma equipe da SWAT “encarregada de conter graves riscos de saúde em larga escala”

3. Locais em que se desenvolve a narrativa: 

Florença, Veneza e Istambul. 
A ação inicia em Florença. Depois, à medida que a mensagem enigmática escrita no verso da máscara mortuária de Dante vai sendo decifrada por Langdon, a ação se transfere para Veneza e conclui em Istambul.  A menção a essas cidades dá oportunidade ao autor para fornecer informações interessantes sobre elas. Assim, são explorados aspectos de Florença, principalmente os relacionados à vida de Dante, que aí viveu até ser exilado.  São citados o Duomo (a catedral de Santa Maria del Fiore, onde está o afresco de Michelino que mostra Dante com a “Comédia”, tendo ao fundo imagens do Inferno, Purgatório e Paraíso), o Campanário de Giotto, o Batistério de San Giovanni (onde Dante foi batizado)  etc.  Langdon explica, en passant,  porque os batistérios são sempre octógonos...

Posteriormente, a ação se transfere para Veneza (o navio “Mendacium”, QG do Consórcio, navega em sua costa, no mar Adriático). Langdon se desloca para aí porque vai em busca do doge “que cortou cabeças de cavalos”, conforma a mensagem cifrada.  Mas acaba por constatar que não se trata de cavalos vivos e sim os da fachada da catedral de São Marcos, cujas cabeças foram cortadas para serem transportadas de Constantinopla para Veneza. Foi isso que determinou o  “traiçoeiro doge de Veneza”, i.e.  Enrico Dandolo, que conquistou a cidade em 1204 com a Quarta Cruzada.  E Langdon descobre então que o túmulo desse doge – referência para a localização do material patogênico -- não está em Veneza mas em Istambul, na antiga basílica de Santa Sofia, hoje um museu. O que provoca o deslocamento de Langdon para essa cidade, situada no entroncamento entre dois mundos, o europeu e o asiático. Descreve-se a  arquitetura desse edifício monumental, menciona-se o imenso Bazar das Especiarias, onde ocorre a perseguição de Sienna por Langdon etc   

4. Características da obra:

Trata-se de um thriller, de uma novela de suspense, este causado principalmente pela premência do tempo pois a solução do enigma proposto deve ocorrer antes que chegue uma data fatal e a epidemia se espalhe pelo mundo. Assim, a decifração desses enigmas, inspirados em Dante e sua “Comédia”, ocorre pouco a pouco, e isso mantém o interesse do leitor. Há muita semelhança aqui com o timing das realizações cinematográficas de Hollywood, sem a maestria de um Hitchcock, que, em vez de acumular reviravoltas e surpresas, dosava-as, na medida certa...  

O sentido mais profundo da associação do livro à primeira parte do poema de Dante é naturalmente metafórico. Dan Brown atualiza o inferno dantesco, associando-o ao caos previsível do mundo no futuro próximo, aos seus desastres imagináveis, todos causados pelo excesso de gente no planeta pressionando uma base limitada de recursos.  Uma população mundial que cresce num ritmo insustentável a longo prazo...  

O poema em si é lembrado pela citação de alguns versos ou por certas situações. E a vida de Dante, por alguns fatos, quando o protagonista visita determinados edifícios de Florença (o Batistério com sua imagem de satã que inspirou a do poema, a Igreja onde está o túmulo de Beatriz, a Casa de Dante etc). 

Características positivas:
A obra mantém permanentemente o interesse do leitor. De leitura fácil,  fornece muitas informações úteis (e verdadeiras, como é dito em suas páginas iniciais)
no campo das artes (literatura, pintura, escultura e arquitetura) e da história -- suscitadas pelas três cidades em que o enredo se desdobra -- e também, last but not the least, no campo das ciências, particularmente em genética humana...  Assim, alia ficção e realidade, uma característica marcante do autor (como o demonstram outros livros seus).

Características negativas:
Em primeiro lugar, devo destacar o artificialismo excessivo do enredo, destinado a prender o interesse do leitor mediano a todo custo, a exemplo do que ocorre com os filmes de muita ação e pouca reflexão. É verdade que “Inferno” tem o mérito de ser mais do que isso, pois ajuda aquele leitor a refletir sobre certas questões cruciais para o futuro do planeta. Mas alguém menos sensível ao suspense pode se perguntar: se o objetivo de Zobrist era disseminar o vírus na população, por que simplesmente não faz isso e depois comunica à OMS, sem ficar dando pistas enigmáticas de decifração difícil e trabalhosa sobre a localização do material que o contém? (é claro que nesse caso não teríamos o thriller...) A decifração exige convocar um especialista em Simbologia dos EUA, o qual, na condição de protagonista do livro, investigará nas três cidades em questão, correndo de uma para outra, à medida que progride na decifração dos enigmas, com o objetivo de localizar o material procurado e evitar a disseminação do vírus, o que acabará afinal acontecendo, porque a data fatal indicada por Zobrist em suas pistas é mal interpretada por Langdon e outros...  As pistas são difíceis de entender, inclusive por Sienna, a antiga discípula e ex-amante de Zobrist... Aliás, Zobrist, antes de morrer, deixou-lhe uma carta revelando como chegou até o vírus, suas características etc, que ela posteriormente queima para que ninguém fique conhecendo essa tecnologia perigosa para a humanidade, nem mesmo a OMS...

Outra característica negativa poderia ser o fato de que o livro, às vezes, dá a impressão de guia de viagem, escorando-se, para continuar mantendo o interesse do leitor, nas informações curiosas que apresenta sobre as principais atrações turísticas das três cidades onde se desenvolve a ação. Mas,  de qualquer forma, tais informações são sempre interessantes e bem vindas...

5. Conclusão:

Acredito que o autor e sua editora tenham alcançado o objetivo a que se propuseram:  produzir um livro destinado a ser best seller,  não uma obra de ficção primorosa.

O “Inferno” de Dan Brown não é obra de grande literatura principalmente pelo artificialismo das situações que, como as novelas de TV, apresentam excessivas reviravoltas e surpresas na narrativa, todas concebidas para garantir o interesse permanente do leitor mediano. Isso compromete a verdade humana de sua narrativa. É como se não bastasse fazer uma obra de ficção bem feita, e fosse necessário recorrer a outras áreas para dar mais substância a ela.   Todavia, a incorporação de informações de outras áreas funciona bem na narrativa.  Faz com que essa obra seja, além de diversão para aquele leitor mediano, uma oportunidade dele refletir sobre questões realmente cruciais para o mundo em que vivemos.  


terça-feira, 10 de dezembro de 2013






Estes poeminhas foram extraídos do livro acima, disponível para aquisição em  http://www.agbook.com.br/book/139929--POEMAS



SURPRESA

já é noite lá fora:
estudando, nem notei
o dia ir-se embora


FILME NA TV

vi um rosto
que me lembrou outro rosto,
conhecido

mas não é que era aquele mesmo rosto,
envelhecido?!


OPÇÃO

enquanto eles estão correndo
para chegar em primeiro
prefiro ficar aqui
no meu mosteiro


MEU PROJETO

nesta viagem, meu projeto
não é chegar ao destino
mas desfrutar do trajeto

  
FÉRIAS

fiz uma opção na vida
pelas coisas que não são sérias:
doravante só viverei
como se estivesse em férias


O MOTIM

quero apenas a rotina
mas a vida
se amotina


RESOLUÇÃO

subirei nos meus próprios ombros
para transpor o medo

e começarei uma nova vida
amanhã bem cedo


O MISTÉRIO DO MUNDO

a ciência ainda não sabe
(com a religião não me iludo),
mas certamente existe
explicação para tudo


UM  OUTRO MODO DE SER

danço conforme a música
(da vida)
quando for desenganado
me tornarei suicida


MINHAS COORDENADAS

só há pouco tomei consciência
de que pertenço à confluência
dos rios Ivo e Belém

por isso, da minha aldeia,
digo a vocês, globalizados:
“better late than never!”
e estamos conversados


NO SEBO 
           
            Para o Rodrigo

no sebo da praça
a traça
enquanto se nutria da Divina Comédia
foi esmagada
coitada!
por um volume da Enciclopédia

(e o cliente habitual
começou a passar mal)                



ALGAZARRA

a gurizada de noite
faz algazarra no centro
para abafar o barulho
que vem de dentro


CENA URBANA

em vez de estarem
jogando bola,
eles passaram
cheirando cola


O CARRINHEIRO, DURANTE A COPA DO MUNDO

ele pôs em seu carrinho
a bandeira do Brasil;
continua amando, o coitado,
a pátria-mãe que o traiu


INFÂNCIA

as crianças
ao voltarem da viagem com os pais
buscam
ansiosas
os seus brinquedos usuais

e ficam na sala
entretidas
a viver suas outras vidas


INFÂNCIA EM CURITIBA

o Ale contemplou
as crianças no calçadão
pintando
como ele outrora

e pela primeira vez doeu nele
a infância ter ido embora 


FOTOGRAFIA

o mesmo brilho
no olhar do filho
torna o pai
ainda vivo
hoje em dia


ESTETICISMO

as mazelas sociais
não quer vê-las

prefere a isso
contemplar as estrelas


SÍLVIO E BELA

“Sílvio”
dizia Bela
(era assim que ele a chamava)
“como tu ficas garboso,
fardado,  fumando esse cigarro”:

muito tempo depois, na pia,
seu sangue tingia o escarro
e prenunciava o desfecho
que de qualquer forma viria


GUARATUBA
  
sob o sol do meio-dia
belo dia!
o casal elegante
ambos de preto, como sempre
(contraste ao branco de seus cabelos)
recém-chegados na Rodoviária,
de braço dado,
se aproximavam

o garçom ocioso do restaurante ao lado
à espera de clientes
fez um sinal para nós—
crianças sentadas na soleira da porta de
                      casa, tagarelando—
para que víssemos quem chegava

e de imediato corremos, contentes, ao    
                                       encontro deles,     
            para abraçá-los e beijá-los                       


                                               
CONTA CORRENTE


nascer implica na abertura de um crédito

nessa conta corrente
o saldo decresce
constantemente

nela não há depósitos
só saques 

  

DA TEIA E DA ARANHA


enquanto a aranha
tece a teia
na ampulheta
escorre
a areia
a arei
a are
a ar
a a
a
.



NA RODOVIA

a vida está passando todo o dia
como passam as árvores do bosque
quando se viaja
pela rodovia

(cada árvore é um dia)


CONFIDÊNCIA
  
abraçada ao seu pescoço
lhe disse algo a Consciência

e isso despertou nele
um sentimento de urgência...


CONFRATERNIZAÇÃO

estamos todos no mesmo barco
prestes a soçobrar

vamos nos abraçar!



ELA É INEVITÁVEL

aceitar o inevitável
revela sabedoria

não há como impedir
que a noite suceda ao dia


O HOMEM E O MAR

um homem contempla o mar
na crise da meia-idade

enquanto um navio vai a pique
e o céu se torna sombrio
conformado
sem um grito
ele contempla o infinito


O BARCO EM  RISCO


aquele barco à deriva—
barco sem tripulação,
do qual tiraram as velas
o mastro e o timão—

é atraído sem o saber
para uma ilha deserta
onde a Torre de Marfim
mantém sempre a porta aberta


A ARTE & A VIDA

há um reino escondido
por trás desta realidade

tudo ali é protegido
contra o mal e a falsidade

ali não sou agredido
não há dor nem frustração

ali também reina a vida
não só sua imitação

nos momentos mais difíceis
eu ali me refugio
e na bela imagem deles
me transformo em ave e rio


BEM- TE- VI

bom te ouvir
bem-te-vi

bom te ver
bem-te-vi

bem te ouço
bem te vejo
bem-te-vi
benfazejo


PARA OS MEUS NETINHOS
  
                                   1

PARA O JUNINHO            
                       
                        reparei que o passarinho
                        foi beijar a flor banal
                        --“oops, me enganei”, disse ele,
                        “esta flor é artificial!”


                                   2

                        FALA  O  ALE JR.

                        “Nasci nove dias antes
                        da vinda da primavera.
                        Mas minha prima se chama
                        Gabriela, e não Vera!”
   
                                    3
                                              
                        GABRIELA NO BERÇO (7 MESES)

                        Gabriela, ao ver os avós,
                        agita pernas e braços.
                        Por isso, eles não resistem
                        a dar nela uns amassos!


                                   4

                        A RISADA DELA

                        quando Gabriela ri
                        mostrando os seus dentinhos
                        a vida é um mar de rosas
                        (desprovidas de espinhos)
                        onde navega um barco
                        carregado de carinhos


terça-feira, 4 de junho de 2013



VIAGEM À ITÁLIA


A catedral de Milão


            De 20 a 28 de maio, neste ano da graça de 2013, participamos, eu e minha consorte (com sorte!), de uma excursão turística pela terra dos grandes artistas e mafiosos.

            A primeira urbe visitada foi Milão, capital da Lombardia, com cerca de 1,3 milhão de almas, na região setentrional do país (é assim menor que Curitiba, com 1,8 milhão. Mas não devemos menosprezar as cidades menores...). Como se sabe, trata-se de um centro industrial importante que se destaca também pelo design e pela moda (pensei que só ia encontrar gente elegante ali, mas não foi o que aconteceu). Em termos turísticos, sua atração principal é a imponente e belíssima Catedral gótica, com uma infinidade de pequenas torres, esculturas e detalhes. Se não fôssemos uns turistas apressados e utilitaristas, ficaríamos horas observando tudo o que ela mostra externamente. Aliás, é muito mais bonita por fora do que por dentro. Ao seu lado, está a Galeria Vittorio Emanuelle II, um prédio do século XIX, que abriga diversas lojas de griffe (Prada, Louis Vuitton etc), restaurantes e livraria (todas as vitrines dela mostravam então o último livro do autor de “O Código Da Vinci”, Dan Brown, intitulado “Inferno”, que ainda não tinha sido lançado aqui. Uma dica: quem quiser entender melhor o contexto desse livro, que será seguramente mais um “best seller”, deve ler antes o meu trabalho “Sobre a Divina Comédia-Inferno”, que pode ser encomendado no site  http://www.agbook.com.br/authors/67231 Gostaram da estratégia mercadológica?). No mosaico do piso da Galeria, deparei de repente com a imagem de Rômulo e Remo -- os fundadores míticos de Roma -- mamando nas tetas da loba (no Brasil, são os empresários que mamam nas tetas do governo). Alguns passos dali notei outra imagem, a de um touro, à qual está associado um costume curioso: para atrair a boa sorte, as pessoas apoiam o salto do sapato nos testículos do animal e dão um giro de 360º em cima deles. Por causa do desgaste natural dessa parte do corpo, o coitado do touro já se apresenta meio castrado...

            Dentro os pontos turísticos obrigatórios da cidade, incluem-se ainda o famosíssimo Teatro Scala, o castelo Sforzesco e a “Última Ceia” de Leonardo da Vinci.

            Era no Scala de Milão que Verdi apresentava as suas óperas e foi ali que o nosso Carlos Gomes estreou “O Guarani”, que todo o mundo só conhece pelo prefixo da “Voz do Brasil”, o que é uma injustiça para com o maestro brasileiro. Mas o prédio do Scala não faz justiça ao seu renome...  

            Quanto ao castelo, era o palácio da família Sforza, que detinha o poder político da cidade. Leonardo da Vinci, protegido da família, aí morou por 17 anos. Aliás, Milão homenageou o grande gênio homossexual (orgulho justificado do movimento gay) com um belo monumento, uma estátua dele de corpo inteiro, rodeado pelos discípulos, mais abaixo. Dentro do castelo, estivemos no Museu de Arte Antiga, que em seu acervo possui uma outra “Pietà” de Michelangelo, a Rondanini, diferente daquela, mais conhecida, que está no Vaticano. Havia tantas obras antigas ali, num ambiente amplo e meio escuro, que quando senti uma coceira na perna disse a minha mulher que eu devia ter sido picado por um pernilongo ...do século III !

            Infelizmente não pudemos ver a “Última Ceia” de Leonardo, no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie. Era preciso ter feito a reserva com muita antecedência... Mas quem queria ver aquele afresco velho e desbotado?... Também os italianos não deram muita importância a ele no passado, senão não teriam aberto uma porta embaixo do referido...




            Vale a pena registrar ainda, o que é de interesse para nós, brasílicos,  que numa  praça central de Milão há uma placa sobre a relva em homenagem a Chico Mendes, com uns dizeres elogiosos a ele, pela sua defesa dos povos da floresta amazônica. 
  
            De Milão seguimos de ônibus para a região do Vêneto, fazendo uma parada em Verona, a cidade onde se passa a tragédia “Romeu e Julieta” de Shakespeare. O bardo aliás não conheceu a cidade. Baseou sua peça em outros autores, que por sua vez se basearam em cronistas do século XIV. Eles se referiram à rivalidade entre duas famílias da região. Romeu pertencia a uma das famílias e Julieta, à outra (essa luta entre famílias devia ser uma coisa comum na época, também em outras cidades, como se infere pelas notas explicativas à “Divina Comédia”, que foi escrita no começo dos 1300). Em Verona há uma “casa de Julieta” visitada pelos turistas (a casa é antiga mas o balcão, onde a moça recebia as declarações do jovem enamorado, e de onde jogava as suas tranças, é de 1930, quer dizer, foi feita mais recentemente para corresponder ao mito literário).  Do lado de fora, há uma estátua de Julieta, de bronze, cujos seios já estão desgastados (dourados, na realidade), de tanto os turistas passarem a mão neles, ao posarem para fotografias (turista é chegado em passar a mão em certos monumentos. Em Florença, vimos algo semelhante com relação a um javali de bronze cuja ponta do focinho também já estava meio dourada de tanto os visitantes passarem a mão ali...).

            Caminhando por Verona (uma cidade de 265 mil hab), notamos um pedaço da muralha que a protegia (o que era comum nas cidades medievais), hoje dentro da malha urbana, e também um Coliseu, menor que o de Roma mas construído na mesma época (séc. I), que hoje sedia temporadas líricas.

            Instalamo-nos num hotel na região do Vêneto (em Preganziol). No dia seguinte, logo de manhã, todos nós, da excursão, embarcamos numa lancha turística (em dois níveis). Após mais ou menos uma hora de passeio, avistando as diversas ilhas próximas (uma delas é Murano, dos famosos cristais), desembarcamos em Veneza, a chamada “pérola do Adriático”, depois de ver a cúpula de Santa Maria della Salute e o Palácio Ducale (dos Doges, antigos governantes da cidade).

Veneza
             Conhecemos a praça São Marcos e seus monumentos, além da Basílica (que no cartão postal está mais bonita, sem uns andaimes laterais que então havia). Os pombos que povoam a praça não se assustam mais com os turistas (Rosi estendeu para eles o final de seu sorvete e eles, em vez de fugirem, aproximaram-se para bicar a casquinha na mão dela).  


Visitamos muitas lojas, inclusive uma só de cristais de Murano (numa oficina anexa, houve uma demonstração de sua fabricação artesanal. Senti-me então na Idade Média, vendo o “mestre” de ofício soprando o vidro...). No comércio vendem-se também muitas máscaras de seu famoso Carnaval. Percorremos os arredores da praça, e caminhamos pelas suas ruelas até a ponte Rialto, que durante muito tempo foi a única ponte a transpor o Grande Canal.   




            Veneza é uma cidade muito peculiar, com seus canais e suas ruelas. A existência dessas ruas é algo que não esperava, ao contrário dos canais. Formam um verdadeiro labirinto. São ruas muito estreitas, medievais, cheias de lojas e restaurantes para turistas. Facilmente a gente se perde ali, mas logo se reencontra, tomando como referência básica a praça São Marcos. 

            Notei que os garçons,  as camareiras dos hotéis em que nos hospedamos, os comerciantes ambulantes etc são geralmente de Bangladesh, conforme me informei (têm a pele escura como os indus). Isso se repetiria em outras cidades, inclusive (ou principalmente) em Roma, destino final de nosso passeio rodoviário. Quando eu disse para um desses vendedores que era do Brasil, ele logo me falou em futebol... Também há muitos senegaleses no comércio ambulante, de rua.

            Na praça São Marcos existe, desde 1720, o Café Florian, que fiz questão de ver  porque, segundo meu guia de viagem, era frequentado por Lord Byron, Goethe e Madame de Staël (e também por Casanova, segundo a lenda). Também vi, um pouco mais distante da praça, o Harry’s Bar, frequentado por Hemingway. Só entrei e saí, não permaneci nesses estabelecimentos, porque sentar-se ali e pedir alguma coisa é, com certeza, pagar um ágio altíssimo por toda essa sua tradição (e localização) ...

            A propósito, em Veneza (assim como em outras cidades) paga-se para usar o WC público. Na cidade dos doges, é mais caro: para tirar água do joelho paga-se 1,50 euro!

            Nosso próximo destino era Florença, com paradas em Pádua e Pisa.

            Em Pádua (ou Padova, em italiano),  há a Basílica de Santo Antônio, que guarda o túmulo do santo, falecido em 1231, local de peregrinação dos católicos de todo o mundo (assim como a Basílica de São Francisco, que visitaríamos dois dias mais tarde, em Assis). Santo Antônio, na realidade, não é de Pádua, mas de Lisboa, onde nasceu e recebeu o nome de Fernando.  Além do túmulo, o turista vê na igreja certas relíquias macabras dele como a sua arcada dentária, língua e cordas vocais, preservadas porque ele era um bom orador...

            Em Pisa, ajudamos a endireitar a Torre, conforme todos os turistas fazem, ao tirar fotos. Visitamos também a Catedral e o Batistério, onde a taxa paga dá direito a uma demonstração de sua excelente acústica.




             O conjunto arquitetônico formado pela catedral (o Duomo), batistério e campanário de Florença (com 380 mil habitantes), capital da Toscana, impressiona mais do que em outras cidades certamente porque não está localizado em uma ampla praça (como em Pisa, por exemplo) que, proporcionando ao visitante um recuo para observá-lo de longe, prepara o seu espírito para o que vai ver. Em Florença, não. Ele dobra uma esquina e, de repente, dá de cara com aquele impressionante conjunto de edifícios, situado próximo aos outros prédios da cidade.

Florença

            Junto á bela catedral de Santa Maria del Fiore está o Batistério. Sua porta lateral é tão bonita – com vários painéis dourados, em alto-relevo, representando cenas bíblicas -- que Michelangelo a chamou de "Porta do Paraíso"...

            No alto do Duomo vimos alguns turistas. Todavia, para se chegar até lá é preciso subir 464 degraus a pé, pois não tem elevador... Só cumprindo promessa!.

A "Porta do Paraíso"
            Em Florença, também conhecemos a Piazza della Signoria, onde o monge Savonarola, que tentou botar ordem no pedaço, acabou  queimado vivo. A praça é um verdadeiro museu a céu aberto; do lado direito, além de uma obra de Donatello há uma série de estátuas gregas originais e outras, envolvendo figuras mitológicas, como a que mostra Hércules lutando com um centauro. Todavia, o Davi que a gente vê ali é uma réplica. A estátua original, esculpida por Michelangelo, está hoje na Galeria dell'Academia. Visitamos esse pequeno museu que possui vários trabalhos dele, inclusive uma “Pietà” e “Os quatro prisioneiros”. Estes aparecem como que saindo de seus blocos de mármore, em correspondência com a visão do artista, que dizia antever na pedra as figuras que iria representar...    Quanto ao Davi, é uma estátua enorme, que até 1873 estava na Piazza della Signoria. Representa o jovem judeu que matou o gigante Golias com sua funda, conforme a Bíblia. Mas se era judeu, como notou nossa guia, porque não está circuncidado? Outra observação interessante a respeito da estátua, é a desproporção dos braços, ou das mãos, em relação ao resto do corpo...  Mas tudo isso tem a sua justificativa estética...(assim como a excessiva juventude de Maria, a da “Pietà” do Vaticano, com o Cristo morto no colo, de 33 anos).

Florença- "Piazza della Signoria"

            Ainda em Florença, visitamos a "Casa di Dante", um imóvel construído em 1911 no local onde o poeta nasceu para ser um museu a ele dedicado.   

            No dia 25 de maio partimos para Roma, com parada em Assis, na Úmbria, para a visita à Basílica de São Francisco. Dentro da basílica inferior, está o túmulo do santo que para mim é o que melhor representa a visão cristã do mundo. Os frades, o tempo todo, pediam silêncio aos turistas visitantes, que não cessavam seu borburinho desrespeitoso. Isso se repetiria várias vezes nas igrejas que visitamos. Essa basílica inferior, que contém afrescos de Cimabue,  foi construída em 1228, apenas dois anos após a morte de S. Francisco. Na  basílica superior há afrescos de Giotto.

Afresco de Giotto em Assis
            Enfim, chegamos a Roma, na região do Lácio, a capital da Itália, com uma população de 2,7 milhões de pessoas (o país todo tem pouco mais de 60 milhões).  Ao chegar, o ônibus nos levou para uma visita panorâmica pela cidade, especialmente pela sua área histórica, a dos fóruns imperiais, Coliseu (esse “estádio sem condição de jogo”, segundo Mané Garrincha...), Arco de Constantino etc

            No dia seguinte, fizemos um passeio por nossa conta pelos pontos turísticos obrigatórios da cidade: a bela Fontana di Trevi (onde Fellini filmou uma cena memorável de “La Dolce Vita”), o Panteão, Campo de' Fiori, Piazza Navona, igrejas de Santo Agostinho, de S. Luís dos Franceses, dentre outras.

Roma- "Fontana di Trevi"
            Reverenciei Júpiter no Panteão, esse antigo templo pagão que virou igreja católica depois. Ali está o túmulo de Rafael, sobre o qual depositei uma coroa de flores imaginária (porque gosto muito de umas “Madonas” dele e da “Escola de Atenas”). Outro túmulo que também está ali é o do rei Victorio Emanuelle II, o rei da unificação italiana, presente na forma de monumentos, nomes de logradouros públicos etc  em toda parte na Itália.  

            Nunca entrei tanto em igrejas como desta vez. As igrejas são boas não só para admirar as obras de arte mas também para descansar um pouco...Aquelas duas citadas acima, por exemplo, têm obras de Caravaggio, que a gente pode admirar sem pagar por isso. É o caso também das belas fontes existentes na praça Navona, duas de Bernini, a de Netuno e a Fontana dei Quattro Fiumi (os quatro rios, um para cada continente, são o Danúbio, o Nilo, o Ganges e o da Prata). É nessa praça  que se situa a embaixada do Brasil, num palácio adquirido no tempo de JK (consta que houve gente que se beneficiou indevidamente na compra desse imóvel...).

            No Campo dei Fiori, onde almoçamos, há uma feira, onde se vende de tudo. Compramos ali alguns souvenires. Nessa praça, há um monumento em homenagem ao filósofo Giordano Bruno, que aí foi queimado na fogueira em 1600. Nas proximidades, fica o palácio Farnese, sede da embaixada da França, onde pedi informações para o porteiro, que descobri ser português...  

            A manhã de 27 de junho, último dia nosso reservado aos passeios, foi dedicada a conhecer o Vaticano, o menor estado do mundo. É, na realidade, um bairro de Roma. Visitamos a Basílica de S.Pedro (que dentre outras preciosidades abriga a “Pietà” de Michelangelo),  e os Museus do Vaticano, onde se destaca a bela Capela Sistina, local em que os cardeais de  todo o mundo se reúnem quando devem escolher um novo papa. Ali, no meio da massa de turistas, arriscamos ficar com torcicolo admirando as pinturas de Michelangelo-- o “Juízo Final” e o teto da capela. Antes, tivemos uma aula muito informativa de História da Arte dada pela nossa guia romana, muito simpática, que se entusiasmava com o que dizia e gesticulava o tempo todo, não fosse ela italiana....

Vaticano- Basílica de S.Pedro
             Viramo-nos bem no metrô (em “la métro” ou em “la metropolitana”), após sairmos do Vaticano.  À tarde, antes de nos encontrarmos com o resto do pessoal para apanharmos o ônibus que nos levaria de volta ao hotel,  fizemos compras e visitamos ainda as igrejas de San Giovanni in Laterano e a de Santa Maria Maggiori. A primeira é a catedral de Roma. Curti bastante ali as estátuas dos doze apóstolos, seis de cada lado da nave central. Não sei quem é o seu autor, com a exceção de duas (S.Tomé e S.Bartolomeu, que são de Pierre Le Gros o Jovem (1666-1719), como informa o meu irmão Roberto).   
                                                                                                                       

"Pietà" de Michelangelo


"S.Tomé" de Pierre Le Gros



"S.Bartolomeu" de Pierre Le Gros