VIAGEM À IRLANDA, REINO UNIDO (PAÍS DE GALES, INGLATERRA), BÉLGICA E HOLANDA
Neste ano da graça de 2019 embarcamos no dia 4 de junho rumo à Irlanda e outros países, num trajeto que se iniciava em Dublin, atravessava o Mar da Irlanda para chegar ao Reino Unido e depois de passar por várias cidades inglesas, atravessava de novo o mar, no Canal da Mancha, para entrar posteriormente no continente europeu.
Uma primeira observação já pode ser feita agora: as travessias marítimas em questão são pura perda de tempo (mais de 4 horas), dada a monotonia da paisagem e o pouco interesse que despertam as atividades dentro dos dois navios de grande porte utilizados nessas travessias (bar, loja, caça-níqueis etc), imagino que semelhantes àquelas dos cruzeiros turísticos. Em consequência disso, concluí não ter interesse -- e essa é também a opinião de minha dileta esposa -- em fazer no futuro viagem desse tipo, coisa que ainda não fizemos (mas chegamos a cogitar em fazer).
Embarcamos assim dia 4 de junho, às 22 horas, no Rio de Janeiro num voo da Lufthansa, que nos levaria primeiro a Frankfurt, e depois, em outro voo da mesma companhia, a Dublin. Aterrisamos em Frankfurt cerca de 14:30 h do dia 5, o que perfaz mais de 16 h de voo, ou melhor 12 h, descontado o fuso horário. O voo antre Frankfurt e Dublin levou aproximadamente 1 hora. Assim, no final da tarde do mesmo dia fizemos o check in no hotel Maldron Parnell Square (endereço: Parnell Square West). Esse hotel situa-se ao norte de DUBLIN. Sabendo que a Irlanda produziu grandes escritores (Swift, Bernard Shaw, Oscar Wilde, W.B. Yeats, Beckett, Joyce etc), me interessou uma das atrações da cidade: o Writer’s Museum, a algumas quadras do nosso hotel. Chegamos a visitá-lo, mas o achamos um tanto decepcionante. Mostra apenas alguns manuscritos de escritores, objetos de seu uso. fotos, informações sobre eles etc.
Nossa lembrança de Dublin ficará associada, porém, ao rio Liffey, que corta a cidade de Leste a Oeste, e à O’Connell Street, uma das ´principais, que descemos caminhando desde o hotel até uma ponte sobre esse rio. Trata-se de uma importante avenida, com edifícios antigos, inclusive o do imponente Post Office, várias estátuas e muitas lojas. Andamos por ela, despreocupados, entrando e saindo dos estabelecimentos comerciais, com a curiosidade natural dos turistas em países estrangeiros por alguma novidade ou objeto diferente, não encontrado em seu país de origem. Fiquei admirado com o número de brasileiros que lá encontramos por acaso— um empregado de loja que se queixou do altíssimo preço de aluguel que pagava pela moradia (dividido por oito pessoas); um outro brasileiro era garçon no restaurante do hotel em que pernoitamos (ali, Rosi pediu a famosa cerveja irlandesa Guinness; dela, só provei um gole, tendo em vista a proibição que o médico me fez de ingerir bebida alcoólica). Uma moça na rua nos ouviu falando português e se aproximou, disposta gentilmente a nos orientar. Essa paulista estudava lá e trabalhava também em hotel. Não conhecia alguma daquelas atrações turísticas obrigatórias da cidade, certamente pela sua baixa remuneração (uma vez que é preciso pagar entrada, há o custo do deslocamento, é necessário disponibilidade de tempo etc). Andamos pelo campus da tradicional Trinity College (“a mais importante universidade irlandesa”, segundo li num guia, que também me informou que Dublin, capital da Irlanda, tem uma população de 500 mil habitantes, enquanto a Grande Dublin chega a 1 milhão, quer dizer, a cidade tem uma população bem menor que Curitiba, com seus quase 2 milhões de habitantes). Não chegamos a entrar no prédio dessa universidade onde está em exposição o famoso Livro de Kells, do século IX, pois se enfrentássemos a fila para ali entrar, não faríamos outra coisa em Dublin, dado o exíguo tempo de que dispúnhamos. Também conhecemos a charmosa Temple Bar street, cheia de bares, restaurantes e turistas.
Na livraria do Writer’s Museum comprei um livro sobre Joyce (“A Graphic Novel”) e numa loja da O’Connell Street, além de souvenirs, um outro livro—“A Pocket Biography of Yeats”.
Uma curiosidade: passeando por aquelas ruas, no centro de Dublin, constatamos um tipo de construção muito semelhante, em que as casas só diferem, umas das outras, pela cor viva das portas, amarelo. vermelho ou azul (que contrastam com a sobriedade geral dos edifícios). Consta que elas são assim para facilitar a vida dos seus ébrios moradores, quando retornam de suas noitadas...
Nesse dia dedicado a Dublin, visitamos ainda a National Gallery da Irlanda, onde admlramos telas de Picasso, El Greco e outros artistas, além de uma estátua de Bernard Shaw no saguão do museu, onde me fiz fotografar como se estivesse furtando algo de seu bolso. Depois, retornando a pé ao hotel, deparamos com uma manifestação contra Trump, que naquele dia estava em visita à Irlanda. Naturalmente, nos juntamos aos manifestantes. Trump ´é criticado num folheto que nos deram por negar a mudança climática, pelo seu racismo, misoginia, homofobia etc... No cabeçalho do folheto consta: ¨People before profit” e “Socialism for he 21st century”.
No dia 7, embarcamos pela manhã, bem cedo, num “ferry”, rumo ao Reino Unido. A travessia do Mar da Irlanda é demorada, leva mais de 3 horas. Viajamos no “ferry” Ulysses, que é um navio enorme, de 10 andares, em que os primeiros são usados para transportar carros e outros veículos. Foi aí que entrou e estacionou o ônibus que nos conduzia e no qual seguiríamos viagem pela Bélgica e Holanda. Os outros andares do navio são destinados ao conforto dos passageiros, pois além dos assentos estofados em torno de mesas (onde pessoas faziam lanche, adultos checavam o celular e crianças jogavam baralho), havia lojas diversas, máquinas caça-níqueis, bares, restaurantes etc
Atravessando o canal, chegamos a CAENARFON. no País de Gales. Vimos as paredes de um antigo castelo (deste só restaram aquelas) e percorremos suas ruas medievais. A pequena cidade recebeu o título de Patrimônio da Humanidade.
Após um lanche na praça central e compras numa loja (comprei aí um pequeno jogo de xadrez que me custou 10 libras), voltamos para o ônibus e continuamos a viagem, rumo a LIVERPOOL, na Inglaterra. Esta é uma cidade portuária, de 450 mil habitantes, mais conhecida por aqui por ser a cidade dos Beatles, fato que é bastante explorado em termos turísticos.
Perambulamos nesse final da tarde do dia 7 pelas ruas próximas ao hotel onde nos hospedamos. O tempo estava chuvoso, mas conseguimos visitar um lugar interessante, o “Cavern Club”, “recriação do bar que sediou as primeiras apresentações dos Beatles”, conforme fui informado. Descemos a escada até o porão e aí velhos e jovens bebiam ou se balançavam ao som (de altos decibéis) da música que acompanhava o guitarrista/cantor que se apresentava...
Pernoitamos no Novotel Liverpool, localizado em 40 Hanover Street.
Na manhã do dia 8, um sábado, deixamos Liverpool rumo ao Sul. A 145 km de Londres situa-se STRATFORD-UPON-AVON, a cidade natal de Shakespeare, onde passeamos debaixo de uma chuva fraca. Vimos a casa em que o grande bardo nasceu e viveu. Também estivemos na Holy Trinity Church, onde se encontra seu túmulo. À esquerda do altar, na parede lateral, há um busto seu, cuja réplica, em tamanho pequeno, de mesa, comprei na saída como souvenir (assim como comprei ,em Florença, o de Dante, os dois gigantes literários, tão diferentes entre si, santos da minha devoção....).
Ao retornarmos, não conseguimos encontrar o nosso ônibus. Perdidos em Stratford! Ficamos ligeiramente aflitos. Casualmente encontramos o nosso guia, que ia em direção ao ônibus e o acompanhamos.
À tarde, prosseguimos a viagem só parando em OXFORD, localizada a 87 km de Londres, nosso destino final deste dia. Fizemos uma visita rápida, de duas horas, a essa tradicional cidade universitária, passeando pelas suas ruas principais
Por volta das 18 h chegamos a LONDRES, onde nos hospedamos no hotel Ibis London Earls Court, em 47 Lillie Road. Ao contrário do que desejaríamos, esse hotel incluído no pacote que compramos, situava-se num bairro mais residencial, com alguns bares frequentados por jovens.
Na manhã do dia 9, domingo, fizemos uma visita panorâmica a essa grande cidade, com 7,7 milhões de habitantes, passando pelos locais obrigatórios-- Palácio de Buckingham (residência da rainha), Parlamento, cujo campanário abriga o Big Ben), Catedral de St Paul, Abadia de Westminster, Trafalgar Square, a sinistra Torre de Londres (onde no passado se mantiveram prisioneiros, muitos torturados e executados, e onde vários nobres morreram, inclusive duas esposas de Henrique VIII). Avistamos de longe a roda gigante London Eye, de onde se tem uma bela vista da cidade, que infelizmente não desfrutamos.
Visitamos a notável National Gallery e tirei fotos (a fim de me mostrar para os familiares) ao lado de algumas telas famosas, como “A Leiteira” de Vermeer), um autorretrato de Van Gogh etc. Na loja do museu, comprei alguns livros (“What makes great art”: 80 masterpieces explained” e uma nova tradução da “Divina Comédia”, a cargo de Robin Kirkpatrick. Também comprei um estória da arte para meus netos, um livro interativo em, que “stickers” devem ser destacados e colados nos lugares previamente definidos). Cheguei a pensar em passar o resto do tempo, neste dia, no museu, ainda mais por estar chovendo lá fora, mas não quis sacrificar Rosi, que queria ainda ver outras coisas.
Lamentei não ter podido visitar o Museu Britânico, como pretendia. Seu acervo é muito grande, e refere-se a 2 milhões de anos de história, expostos em 94 galerias. Exige realmente muito tempo para visitá-lo mas poderia pelo menos ter selecionado alguns itens para ver, como os mármores que decoravam o Partenon em Atenas, a Pedra da Roseta, a Magna Carta; as múmias egípcias, por exemplo. Outro motivo para visitá-lo é o fato de que o filósofo Karl Marx frequentou a biblioteca do Museu durante muito tempo, e tal lugar por isso está associado à elaboração de sua obra, que é crucial para a compreensão do capitalismo. Conforme ressaltam seus biógrafos, Marx foi para Londres em 1849, e lá viveu todo o restante de sua vida. Faleceu em 1883 e foi sepultado no cemitério de Highgate. Morou, de 1874 até sua morte na Maitland Park Road, primeiro no nº 1, e depois numa residência menor, no nº 41.
Após o pernoite em Londres, tomamos, na manhã do dia 10, a estrada que liga Londres ao porto de Dover, a fim de atravessarmos o canal da Mancha No trajeto, visitamos CANTERBURY, “capital eclesiástica” da Inglaterra, 90 km depois de Londres. Infelizmente não pudemos visitar sua famosa catedral, pois estava em reforma (esse é um problema que ocorreu várias vezes em nossas viagens ao exterior). Só pudemos chegar até um portal de pedra que dá acesso à catedral, que vimos de longe. atrás dos andaimes. Nessa igreja, Tomas Beckett foi assassinado em 1170, tema da peça “Murder in the cathedral”, de T. S Eliot. Outra referência literária associada à cidade é a obra “Contos de Canterbury”, de Chaucer. A cidade era importante já no tempo dos romanos. Em 597 Santo Agostinho – o primeiro arcebispo de Canterbury foi para lá.
Depois dessa rápida parada, seguimos, ainda pela manhã, para Dover. A travessia do canal em “ferry” leva aproximadamente 1 hora e 15 minutos. Chegamos a Calais, na França, e seguimos viagem em nosso ônibus para a Bélgica.
Visitamos, muito rapidamente, duas cidades belgas: Bruges e Ghent (ou Gand).
Dado que chegamos a BRUGES apenas no final da tarde desse dia 10 de junho, só pudemos circular pelo seu centro histórico, andando pelas estreitas ruas medievais e observando a Praça do Mercado, o campanário, a prefeitura gótica e outros prédios antigos. Entramos na Catedral de Bruges e admiramos seus belos vitrais. Vimos também alguns canais, com barcos repletos de turistas (“brugge” em flamengo significa “pontes”).
Compramos nessa cidade o famoso chocolate belga Neuhauss.
Bruges tem uma população de 117 mil pessoas. Foi importante centro comercial para a indústria do algodão no século XI e no final do século XIII era a principal ligação com o comércio do Mediterrâneo, tendo uma Bolsa fundada em 1309. No século XVI verificou-se sua decadência econômica.
Nosso pernoite em Brugges foi no hotel “Velotel Brugge”, localizado na Handboogstraat, 1.
No dia seguinte, dia 11. retomamos nossa viagem de ônibus, parando inicialmente para conhecer Ghent (ou GAND, em francês), a 1 hora de Brugges. Sua população é superior a esta (233 mil hab). Tinha muito interesse em conhecer Gand, pois foi em sua universidade que meu trisavô Jacob van Erven se formou em engenharia civil, no ano de 1871.
Passeamos pelo seu centro histórico, admirando os belos prédios ali existentes (catedral. prefeitura), e os canais. Uma curiosidade: em uma praça, havia um mictório público diferente, de modo que a cabeça e ombros do usuário ficavam visíveis a todos os transeuntes. Como eu estava necessitado, também o usei...
Segundo li, nos séculos XIII e XIV, Gand prosperou com o comércio de tecidos (até o século XIII era a segunda cidade da Europa, superada apenas por Paris). Nos séculos XVIII e XIX foi um importante centro industrial.
Passeamos pelo seu centro histórico, e admiramos os prédios antigos, de arquitetura típica. Nessa regiões, não há arranha-céus, como estamos acostumados a ver nas capitais brasileiras. influenciadas pelos EUA. Esses prédios têm no máximo uns 6 andares. Infelizmente não pudemos entrar na Catedral de São Bavo, de estilo gótico, para admirar os trabalhos dos irmãos Van Eyck e de Rubens. Em frente à catedral está a Torre Belfort e próximo a esta a “Stadhuis” (prefeitura).
Após essa parada em Gand (não superior a 2 horas), partimos rumo à Holanda, atravessando a região do Plano Delta (onde as terras foram conquistadas do mar). Até Amsterdã, faríamos duas escalas—uma em Middelberg e outra em Roterdã.
MIDDELBURG é a capital da Zelândia, uma das províncias da Holanda, ou melhor, dos Países Baixos (a Holanda é, na realidade, o nome de uma região dos Países Baixos). Almoçamos aí e passeamos por suas ruas. A cidade, assim como Roterdã, foi pesadamente bombardeada pelos nazistas em 1940, durante a II Guerra. Prédios históricos foram então estupidamente destruídos em Middelburg, como o edifício da prefeitura, do século XV, e o da guilda dos membros do corpo da guarda, de 1582. Depois da II Guerra foram parcialmente reconstruídos. Middelburg era um importante posto comercial da Companhia das Índias no séc. XVII.
À tarde, em terras abaixo do nível do mar, seguimos para ROTERDÃ, cujo porto é o segundo maior do mundo. A cidade possui uma população de 589 mil hab. Passeamos pelo seu centro urbano. Num mercado dessa região, compramos vários tipos de queijo holandês.
Roterdã também foi destruída na II Guerra, mas foi depois reconstruída, o que deu oportunidade ao surgimento de uma arquitetura vanguardista. Chamou-nos a atenção um tipo singular de edificação, as “Kij-Kobus”, casas em formato de cubo. Aliás, a arquitetura dessas principais cidades da Bélgica e Holanda, especialmente a antiga, mas também a moderna, como nesse caso, é muito interessante e merece ser estudada à parte.
Em AMSTERDÃ, antes de entrarmos no hotel, fizemos um belo passeio de barco pelos seus canais. Em nossa mesa, no barco, havia vinho e queijo à disposição. Enquanto eram degustados, um guia ia nos informando sobre diversos aspectos da cidade, cuja população é de 743 mil hab. Uma peculiaridade dos edifícios, de arquitetura característica, situados à margem dos canais, muitos deles antigos armazéns. Todos apresentam ganchos no topo da fachada, junto aos telhados, para que as mercadorias pudessem ser puxadas externamente para o andar respectivo (ou dele baixadas). Atualmente, quando ocorre uma mudança, a mobília é içada, ou rebaixada, da mesma forma.
Registramo-nos, no final do dia, no hotel Holiday Inn Express em Amsterdã, situado próximo à arena do time de futebol Ajax. Compramos para nosso neto uma jaqueta com o emblema desse time (endereço do hotel: Hoogoorddreef 66 B).
No dia seguinte, 12 de junho, pela manhã, fizemos a visita panorâmica a Amsterdã, conforme estava programado. Vimos então os canais, a praça Dam, os parques e edifícios administrativos, além de visitar uma empresa de lapidação de diamantes. A praça Dam é o centro medieval da cidade. O Palácio Real era antes prefeitura. Luís Bonaparte morou aí, em 1808
À tarde, pretendíamos visitar a Casa de Anne Frank, construída em 1635, que exibe seu Diário famoso e mostra também a estante de livros que escondia passagem para o sótão e fotos que Anne recortava de revistas de cinema e colava na parede. Não pudemos entrar nessa Casa porque há muita procura e os ingressos devem ser comprados pela internet com bastante antecedência.
Em compensação, visitamos o notável Rijksmuseum, apenas algumas de suas 150 salas. Fiz questão de tirar fotos ao lado de telas por mim há muito conhecidas (e admiradas) de Rembrandt, Vermeer, James Ensor, Van Gogh etc Segundo li, esse Museu “abriga a maior e melhor coleção de pintura holandesa do planeta”.
Após o pernoite em Amsterdã, no dia seguinte, dia 13, iniciamos nosso retorno para o Brasil, via Frankfurt, também pela Lufthansa. Foi nesse voo de retorno que senti os primeiros sinais do descolamento da retina do olho direito (o do esquerdo já ocorrera em setembro de 2017). Segundo o médico me disse, a altitude e pressão da aeronave não contribuíram para o fato, nem mesmo o meu hábito de ler muito, e ver filmes. Aparentemente, tem a ver com a predisposição genética e o processo de envelhecimento. Como se tratava de emergência médica, no mesmo dia da chegada a Curitiba, 14 de junho, procurei o Hospital de Olhos. Se o descolamento tivesse ocorrido no início da viagem, toda a nossa visita teria sido prejudicada... Dos males, o menor!
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
VIAGEM AO
MÉXICO
Em agosto de 2018 passamos (Rosi, eu
e nosso neto Alexandre Júnior) uma semana na Cidade do México. Partimos de Curitiba no dia 13 num avião da
Avianca até Guarulhos e depois voamos pela Copa Airlines, uma empresa
panamenha, até o destino final, após uma escala na Cidade do Panamá. O tempo de
viagem foi de aproximadamente 6 horas, entre S.Paulo e a Cidade do México, já
descontada uma hora da escala no Panamá. Assim chegamos no México por volta das
6:30 da manhã, hora local, do dia 14, uma terça-feira. Como há uma diferença de
fuso horário de duas horas para menos, essa hora corresponde no Brasil a 8:30.
Hospedamo-nos num pequeno hotel
(Hotel del Principado) na rua Londres, 42, bem localizado, porque próximo das
duas principais atrações turísticas da Cidade: o Centro Histórico e o Bosque
de Chapultepec. Entre essas duas regiões há o Passeo de la Reforma, uma bela avenida, com diversos monumentos
históricos, que leva diretamente ao Bosque mas não àquele Centro, pois antes de
chegar a este, é necessário avançar pela
Alameda Central, passar pelo Palácio de Belas Artes e percorrer algumas
quadras das ruas que vão dar no Zócalo, como é chamada a Plaza de la Constitución,
coração do Centro Histórico. Aqui estão localizados a Catedral, o Palácio
Nacional e outros edifícios públicos interessantes.
![]() |
| Em frente à Catedral- Cidade do México |
O nosso hotel fica a meio caminho desses locais.
Por isso, logo no inicio de nossa estadia lá fomos a pé rumo ao Zócalo,
caminhando pela avenida Insurgentes, até o Passeo de la Reforma. Nesta moderna
avenida há vários monumentos, como dissemos. Dentre eles se destaca aquele que
homenageia os homens que lutaram pela independência do país, no topo do qual há
a estátua dourada do Anjo da
Independência. Também deparamos com o monumento
a Cuauhtémoc, o último chefe asteca, torturado e morto pelos espanhóis, que
chegaram em 1519 liderados por Hernán Cortez e destruíram, em alguns anos a
cidade asteca de Tenochtitlán, fundada em 1325, que deu origem à atual Cidade
do México (uma bela demonstração do avanço civilizatório europeu!...). Ainda no
Passeo, encontramos o monumento dedicado a
Colombo. Tirei uma foto de Ale Jr ao lado dessas duas figuras históricas. Há
ainda nas cercanias uma escultura apelidada El
Caballito que, segundo consta, relincha, quando o mexicano passa por ele após beber muita
tequila... Depois, seguindo pela avenida
Juárez, chegamos até o prédio do Palácio
de Belas Artes, considerado “o mais
belo edifício do Centro Histórico”. Só o prédio já é motivo de
contemplação, mas na realidade formos até lá para apreciar as obras de
Siqueiros (“Nova Democracia”), Orozco
(“Catarse”) e Rivera (“Homem, Senhor do Universo”, onde
aparecem as imagens de Lenin e Trotsky. Rivera reproduziu ali o mural que concebera
para o Rockfeller Center, em Nova York e que causara polêmica pela inserção nele
da figura de Lenin, não prevista inicialmente. O pintor acabou sendo demitido
pelo milionário cujo nome está associado àquele Centro e o mural, destruído. Há
porém vários outros trabalhos de Rivera nos EUA (Detroit, San Francisco), onde
ele morou e foi prestigiado.
![]() |
| "Nova democracia" de Siqueiros. Palácio de Belas Artes. Cidade do México. |
Nas proximidades, localizam-se duas outras
atrações, que visitaríamos no último dia de nossa estadia: a Torre Latinoamericana, onde os interessados
pagam para observar, do 42º andar, toda a cidade. Trata-se de um prédio
moderno, que não foi afetado pelo grande terremoto de 1985. As fotos da
exposição que ali se encontra mostram a torre ereta no meio de escombros. Visitamos também a Casa de los Azulejos, um prédio muito antigo (é do século XVI) mas
bem conservado, interessante não só pelo seu exterior, que é inteiramente
revestido por azulejos azuis e brancos, mas também pela decoração interna. Dentro
dele, há um restaurante e diversas lojas. Com alguma dificuldade, localizamos o
mural de Orozco (“Onisciência”) em
uma de suas paredes.
Umas sete quadras adiante do Palácio de Belas
Artes fica o Zócalo. Essa grande praça estava tomada por inúmeras barracas onde
se vendia de tudo, desde alimentos até produtos industrializados de consumo
popular. A princípio estranhei que tal ocorresse, uma vez que estragava a estética
daquele conjunto urbanístico, cartão postal da Cidade, que reunia a imensa fachada
da Catedral Metropolitana, o Palácio Nacional de Governo e outros prédios. Mas
logo pensei-- o que é mais relevante
socialmente, atender o interesse de uma grande massa de pequenos comerciantes participantes
daquela feira (de caráter temporário) ou a sensibilidade estética de turistas
egoístas?...
Além da Catedral Metropolitana, visitamos o Palácio Nacional, não porque ainda abriga o gabinete do
Presidente da República mas por um motivo muito mais importante. O Palácio contém,
logo na entrada, um grande mural de Diego Rivera, concluído em 1935, relativo à
história do México, abordando a época pré-hispânica, o período que vai da
chegada dos espanhóis até 1930 e “O México, Hoje e Amanhã”, em que o comunista
Rivera incluiu imagens de Marx, e do
livro “O Capital” nas mãos de um cidadão, além da esposa do pintor, Frida Kahlo,
e da irmã dela. As imagens marxistas nas paredes do palácio do Presidente da
República surpreendem o turista brasileiro, que durante a ditadura militar no
Brasil tinha receio de pronunciar o nome de Marx ou de citar “O Capital”! Fiquei
imaginando, num devaneio anacrônico, como as pessoas reagiriam a tais imagens
nas paredes do Palácio do Planalto, em Brasília... No primeiro andar, há outros
murais de Rivera, realizados posteriormente. Num deles, concluído em 1951, Hernán
Cortez aparece comprando de um outro europeu uma mulher nativa (seria La
Malinche, que foi sua amante e lhe serviu de intérprete?) e é representado com
uma cor azulada, doentia (de sifilítico, segundo nosso guia). Um outro mural mostra
ao fundo a cidade de Tenochtitlán....A propósito, li em algum lugar que o Palácio
Nacional foi construído no mesmo local onde antes havia o do imperador asteca
Montezuma. E que as pedras dos templos destruídos de Tenochtitlán serviram para
construir as igrejas da Cidade do México.
Nesse mesmo Centro Histórico, ao lado
do Zócalo, vimos também as ruínas do Templo
Mayor asteca. Caminhamos por ali ao som dos realejos, pois sobrevivem nessa área tocadores deles, com sua farda
bege característica, enquanto um auxiliar estende o quepe para pedir
donativos aos transeuntes. Outra peculiaridade dessa extensa área do Centro
Histórico são os “ciclotaxis”, pequenos
veículos cobertos, com três rodas, movidos por um ciclista. Parece-se com um
riquixá asiático. Um deles facilitou o nosso deslocamento nessa região. Cobrou 50
pesos mexicanos (o valor deste é aproximadamente um quarto do real brasileiro)
para nos levar até a Secretaría de
Educación Pública, pois queríamos apreciar os inúmeros murais de Rivera ali
existentes. Como se sabe, esses grandes
pintores mexicanos, devido a razões ideológicas (eram de esquerda), preferiram
os murais a pinturas de cavalete (embora também tivessem trabalhado nessa modalidade)
visando facilitar o seu acesso à grande massa do povo . A vantagem disso
é que podemos hoje apreciar suas obras simplesmente visitando os prédios onde
funcionam órgãos do governo sem pagar por isso... Dentre os muitos murais de Rivera que pudemos
ver aí lembro daqueles que mostram trabalhadores na entrada de uma mina, ou
produzindo açúcar e “O Arsenal”, em
que Frida Kahlo aparece distribuindo armas para os correligionários.
Ainda nessa região do Centro
Histórico, vale mencionar a visita que fizemos ao prédio da Suprema Corte de Justiça. O dia não foi
muito apropriado uma vez que havia uma manifestação na frente dele. Mas
conseguimos entrar pela porta lateral
para ver os murais que abrigam, um dos quais é de Orozco.
![]() |
| A Pedra do Sol asteca- Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México |
Como outras grandes cidades do mundo,
a Cidade do México tem um grande parque dentro dos seus limites. É o Bosque de Chapultepec, que conhecemos
inicialmente fazendo um giro por ele num trenzinho destinado aos visitantes.
Estivemos depois no Museu Nacional de
Antropologia aí situado, que possui um grande acervo de arte
pré-colombiana, e tiramos foto ao lado da famosa Pedra do Sol. Segundo li sobre
esta, seus “entalhes contam o início do
mundo asteca e predizem seu fim”. No centro há a imagem do deus do sol. Em
torno dele, há quatro pequenos quadrados que simbolizam os quatro sóis que já
existiram. Os astecas achavam que viviam então durante a vigência do quinto
sol... A propósito, vendo essas peças de arte pré-colombiana, muitas delas de
cerâmica e de pequeno porte, lembrei meus tempos de estudante secundarista,
quando frequentava a Escolinha de Arte do Colégio Estadual do Paraná e trabalhava
com argila, fazendo pequenos trabalhos, que depois de passarem pelo forno,
solidificados, levava para casa. Me deu vontade de voltar a trabalhar com argila...
Também visitamos nesse Bosque o Castillo de Chapultepec, onde residiu o infausto
imperador Maximiliano, o arquiduque austríaco que os conservadores aliados dos
franceses de Napoleão III colocaram no trono. Mas isso só por alguns anos, pois
eles foram derrotados pelos liberais de Benito Juarez, que restauraram a
república e executaram Maximiliano. Vários presidentes também aí residiram.
Assim, num lado o Castelo mostra os aposentos e objetos pessoais de Maximiliano
e esposa; em outro, sedia o interessante Museu
Nacional de História, onde entramos no clima das diferentes épocas
auxiliado pelas telas de pinturas ali expostas. O edifício também abriga murais.
O mais notável é o visto logo na sua entrada, de autoria de Siqueiros.
Intitula-se “Do Porfiriato à Revolução”
e aborda, do modo expressionista característico do pintor, temas inspirados na
história mexicana, da ditadura de Porfírio Diaz até o movimento revolucionário
iniciado em 1910.
Ainda no Bosque de Chapultepec está
instalado o Museu de Arte Moderno,
cujo acervo inclui o famoso quadro de Frida Kahlo—“As duas Fridas”, em que uma Frida europeia, frágil, alimenta com
seu sangue a Frida nativa, mexicana, autoconfiante, e por isso mais forte. A
diferenciação entre as duas se faz pela indumentária delas. Como se sabe, o pai
de Frida era um fotógrafo alemão, um europeu, portanto, que casou com uma
mexicana.
![]() |
| "As duas Fridas", por Frida Kahlo. Museo de Arte Moderno. Cidade do México. |
O segundo passeio contratado foi a Teotihuacán, situada a 49 km da Cidade do México, um
local em que permaneceram certos vestígios de sua antiga civilização, bem
anterior à dos astecas (iniciou antes de Cristo e perdurou até o ano 650 de
nossa era). Eles consideravam sagrada essa cidade de Teotihuacán. Dentre os
vestígios, podem ser citadas as pirâmides do Sol e da Lua, a Avenida dos Mortos
etc. Nesse local encontram-se muitos
vendedores ambulantes que oferecem, de modo insistente, aos turistas seus produtos de artesanato. São realmente belos
produtos, que usam os abundantes recursos minerais do México. Os preços reduzem-se
bastante no processo de barganha. Compramos deles uma imagem do deus sol em
obsidiana e uma máscara asteca de miquelita. No almoço, um conjunto mariachi cantou para nós músicas
regionais, e o casal colombiano que estava conosco cantou junto, demonstrando
saber a letra da canção. Aliás, foi com esse casal que Ale Jr subiu todos os
degraus da Pirâmide do Sol, indo até o seu topo, uma vez que os avós não se
sentiram em condições físicas de acompanhá-lo na proeza... Se o povo dali tinha
o mesmo costume de seus pósteros astecas, nesse topo, ou altar, muitas vidas devem
ter sido sacrificadas aos deuses sedentos de sangue humano, a quem era
oferecido o coração das vítimas, arrancado do peito na cerimônia religiosa...
![]() |
| A Pirâmide do Sol, em Teotihuacán. |
O terceiro passeio consistiu numa ida até Coyoacán, nos arredores da Cidade do México, a fim de conhecer o bairro em que nasceu, viveu parte de sua vida e morreu Frida Kahlo. Estivemos em sua casa, a Casa Azul, hoje um movimentado ponto de atração turística, com gente de todas as partes do mundo (felizmente, pela idade, tivemos atendimento preferencial; caso contrário, teríamos que enfrentar uma fila quilométrica para entrar). O sujeito fica quase constrangido de penetrar no interior dessa casa e privar, por alguns momentos, da intimidade da vida da artista, vendo seus objetos de uso pessoal, sua cadeira de rodas, seus livros nas estantes (um deles, aliás, era sobre o brasileiro Portinari), sua copa/ cozinha pintadas de amarelo vivo (chão, móveis etc), que contrasta violentamente com o azulão das paredes exteriores da casa... No amplo quintal, há uma lápide alta onde está escrito o nome de Trotsky e sua esposa. Ali foram depositadas as cinzas do casal, que esteve hospedado naquela casa, juntamente com o casal Rivera-Frida. Como se sabe, Rivera pediu ao presidente Lázaro Cárdenas que o México concedesse asilo político para Trotsky, o que foi obtido.
Dali seguimos para a Casa Museu Leon Trotsky, não muito
distante da primeira, para onde Trotsky se mudou, depois de deixar a Casa Azul.
Também aí são mantidos os aposentos (quartos, escritório, banheiro, etc) do
jeito como eram quando o líder da Revolução Russa os ocupou. Foi nessa casa que
ele foi assassinado em 1940 por um estalinista sectário...
![]() |
| Na Casa-Museu León Trotsky |
No trajeto de ida a esses locais, ou na volta, para aproveitar a proximidade, paramos em três ocasiões: 1) para ver o Estádio Azteca, de futebol, onde o Brasil sagrou-se campeão mundial em 1970; 2) no Museo del Anahuacalli, criado pelo casal Rivera-Frida, que reúne sua coleção de peças de arte pré-colombiana e 3) no Museo Dolores Olmedo Patiño, que abriga uma bela coleção de telas de Rivera, e outros artistas, além de peças de arte asteca, maia etc. É uma antiga mansão de amplos jardins, onde vivem pavões e outras aves, além de, numa área cercada, cães xoloitzcuintle, uma raça de cães sem pelos, em extinção, que segundo a mitologia local era o cão dos infernos.
Uma palavra final sobre o povo
mexicano, tão marcantemente indígena na aparência. Tivemos a melhor impressão
dele. Todas as pessoas com quem falamos, pedindo informação ou por qualquer
outro motivo, foram muito amáveis, contentes de nos serem úteis. Lembraram-nos o povo brasileiro...
![]() |
| Nos jardins do Castillo de Chapultepec |
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Em abril deste ano da graça de 2018
passamos, Rosi e eu, uma semana em Cartagena, na Colômbia, também chamada
Cartagena de Índias, para diferenciar da cidade espanhola homônima. As Índias
naturalmente são as ocidentais, não aquelas que Colombo pensou ter alcançado,
sem imaginar que havia entre a Europa e a Ásia um outro continente...
Cartagena é muito antiga. O ano de sua
fundação é 1533 (mas já em 1501 o local
fora visitado). Ao entrar na chamada Cidade Amuralhada, seu centro histórico e
o principal atrativo da cidade, o turista logo depara com a estátua de seu
fundador, o espanhol D. Pedro de Heredia.
Está situada, como se sabe, no
extremo-norte da América do Sul, na costa do mar do Caribe. Era por esse porto
que os colonizadores espanhóis exportavam para a Europa o ouro e a prata
extraídos do continente. Daí a cobiça
dos piratas que a atacaram muitas vezes, apoiados pelas monarquias inglesa e
francesa, cujos reis não concordavam com a exclusividade espanhola quanto à
pilhagem da região. Isso explica também o apoio que deram a esses ladrões do
mar, mostrando que os princípios morais, sob o capitalismo, são sempre
relativos e estão subordinados aos interesses econômicos... Dentre os ataques piratas
mais notáveis, destacados na historiografia, são citados os de Francis Drake
(1586), Barão de Pointis (1697) e almirante Edward Vernon (1741).
Os frequentes assaltos dos piratas,
assim, determinaram, ao longo do tempo, a construção de muros (e fortes) em
torno da cidade. Sua. extensão, segundo os guias turísticos, alcança 11 km. Fora
da Cidade Amuralhada, encontra-se o maior forte da América colonial, o de San
Felipe de Barajas, que data de 1657. Também está fora dela o Convento Santa
Cruz de la Popa, de 1606, situado no ponto mais alto da cidade, de onde se pode
ter desta uma boa vista panorâmica. Na entrada do forte de San Felipe foi
colocada outra estátua, a de Blas de Lezo (1689-1741), o herói espanhol que
perdeu um olho, u’a mão e uma perna lutando contra os piratas (!). Como se vê, é
um personagem bem característico do realismo mágico da literatura latino-americana...
![]() |
| Em frente ao forte de San Felipe de Barajas |
O acesso à Cidade Amuralhada se dá
pela Torre del Reloj. Entrando por aí o visitante encontrará a plaza de los coches (ou das charretes), um
mercado de doces, o pátio da Aduana, a plaza
Santo Domingo, a plaza Simón Bolívar,
a Igreja de S. Pedro Claver etc Essa
igreja foi fundada pelos jesuítas no século XVII e abriga os restos mortais do
santo que lhe dá o nome, chamado “o escravo dos escravos”, falecido em 1654 mas
só canonizado em 1888...
Na plaza
de los coches situava-se o antigo mercado de escravos. A importação de
negros da África -- importante sempre nas áreas econômicas muito rentáveis, que
compensavam tal importação -- deve ter sido expressiva aqui, a julgar pela forte
presença de elementos dessa nobre raça na cidade. A propósito, retive na memória uma
caracterização interessante de Cartagena de Índias feita por um dos guias
turísticos que li: “É uma eclética
mistura de gostos e sons caribenhos, africanos e espanhóis”. O guia faz essa afirmação após informar que se
trata da maior atração turística da Colômbia...
A plaza
de Santo Domingo é um local muito aprazível para descansar, e tomar uma
cerveja, que cai bem nesse calor de mais de 30º e após se andar muito por esse
centro histórico, onde os carros, felizmente, não circulam. Ou para tomar um mojito nos cafés cubanos existentes na
cidade. Aliás, sente-se a presença de Cuba não só nesse campo mas também na
música e até nos vendedores ambulantes, tão numerosos na cidade, que vendem,
dentre outras mercadorias, os famosos charutos Cohiba. Na plaza Santo Domingo encontra-se “La Gorda Gertrudis”, do colombiano Botero,
e estão presentes as “palenqueras”, figuras típicas, mulheres vendedoras de
frutas, vestidas com as cores da
bandeira da Colômbia (amarelo, azul e vermelho).
![]() |
| "La Gorda" de Botero |
![]() |
| Duas palenqueras. |
Em outra praça, a Simón Bolívar, bem
arborizada, há uma estátua do Libertador e uma casa grande, imponente, em que
ele morou. Possui sacadas, como muitas outras desse centro histórico, antigas residências
dos homens ricos da cidade. Localiza-se aí a Catedral e também o Palácio de la
Inquisición/Museo Histórico de Cartagena, cujo interesse maior é o do próprio
prédio, característico da arquitetura barroca de sua época. A Inquisição,
associada à forte presença da Igreja na região, além da pirataria e
escravatura, são tristes lembranças do seu
passado colonial...
Para o deslocamento na região, há duas
possibilidades para o turista, uma vez que não há transporte coletivo: o
serviço de táxi e o ônibus de dois andares Hop
On, Hop Off, esta a opção mais conveniente.
O ônibus faz o city tour pela cidade, abrangendo todo o
trajeto da Cartagena turística, desde a Cidade Amuralhada passando por
Bocagrande até o Laguito e retornando para o centro histórico. Passa por belos
locais como o Muelle de los Pegasos, com as esculturas imponentes desses
animais alados mitológicos. Na ida, o ônibus vai pela avenida que beira o Mar
do Caribe e na volta, vem pela avenida junto à Baía de Cartagena (Bocagrande é
uma estreita faixa de terra situada entre o Mar e a Baía). Há uma série de
pontos de embarque e desembarque ao longo do trajeto do ônibus e o pagamento de
45 mil pesos colombianos por pessoa (aproximadamente, 60 reais) dá direito ao
passageiro de utilizá-lo durante dois dias, descendo, ou embarcando, à vontade,
em qualquer um dos pontos predeterminados, conforme uma tabela de horários, de
45 em 45 minutos, durante o dia.
Há um outro ônibus, aberto (ônibus colorido “chiva”) que leva o pessoal
para as casas noturnas, em que os passageiros se contagiam com a música alta dentro dele e o clima festivo.
O pequeno hotel Charlotte em que nos
hospedamos localiza-se em Bocagrande (na avenida San Martin, paralela à
beira-mar) e situa-se entre muitos restaurantes, lanchonetes, farmácias etc e
também entre dois cassinos e um bingo.
Segundo li, “O bairro de San Diego e a Plaza Santo Domingo são talvez os locais que
melhor capturam a sedução da cidade”. Por isso, para conhecer esse bairro,
pegamos o ônibus Hop On, Hop Off e descemos no ponto próximo à casa-museu
Rafael Nuñez, um casarão confortável e avarandado em que no passado viveu esse
ex-presidente colombiano e hoje dedicado à sua memória. Dali, partimos para conhecer o bairro,
localizado na porção leste da Cidade Amuralhada. Depois de passar pela casa de
Gabriel Garcia Márquez (que não está aberta ao público e hoje pertence aos seus
herdeiros), entramos num café retrô reproduzindo a Cuba dos anos 40 (quando a
ilha era um bordel dos EUA...) e provamos, para entrar no clima, um autêntico mojito.
Reservamos um dia para visitar a playa Blanca e as Islas del Rosario. A praia dista uma hora de Cartagena, com acesso
precário, barracas simples. É uma praia ainda não explorada pela especulação
imobiliária, talvez porque a área esteja preservada pela legislação local.
Quanto às Islas del Rosário, trata-se de um conjunto de 27 ilhas, Fizemos
questão de incluir esse passeio em nossa programação para ter uma ideia, pelo
menos, da cor das águas do mar do Caribe, uma vez que o mar junto à cidade de Cartagena
não é muito diferente dos que conhecemos por aqui. É realmente de um azul muito
bonito, e suas águas, no ponto onde o barco parou, eram transparentes... Numa das ilhas visitamos um “Oceanário”
interessante, onde golfinhos dão um show, há
diferentes peixes, tartarugas gigantes, e os tubarões são “amestrados”, chegando perto e se afastando do
treinador ao seu comando...
Uma contrariedade que tive nesse
passeio. O barco que utilizamos, lotado, com todos os assentos ocupados (e que
às vezes nos deu um pouco de medo), não tinha salva-vidas para todos os
passageiros. De modo que viajei sem ele...
Para concluir, uma palavra sobre os
inúmeros vendedores, fixos e ambulantes,
que estão muito presentes na cidade e pressionam à exaustão os turistas que por
aí passeiam. São vendedores de chapéus (uma necessidade ali, pelo sol
inclemente), anéis, colares, souvenires, doces, frutas, “hormiga culona”, serviços turísticos e outros... Para se ter uma
ideia da situação, quando tomávamos cerveja à beira-mar uma mulher nos abordou
simpaticamente, conversando muito, e acabou me fazendo, sem que eu concordasse,
uma massagem nas pernas e braços com óleo de oliveira... exigindo pagamento
depois, naturalmente. É claro que os turistas são a única fonte de sua renda.
Por isso, são tão insistentes e
praticamente nos obrigam a consumir seus produtos, fazendo com que você os
consuma sem querer (ou para se livrar deles) e depois exigindo pagamento. Mas obviamente isso é um reflexo do
subdesenvolvimento do país (assim como o é, por exemplo, a falta de
fiscalização quanto ao uso de salva-vidas nos barcos referido acima). Embora a
Colômbia apresente uma atração turística excepcional como Cartagena, que é,
como se diz, um “museu ao ar livre”, não pode isolá-la do seu contexto social,
apenas por que isso é conveniente para o nosso conforto, de turistas egoístas...
![]() |
| As botas de Blas de Lezo |
![]() |
| Dentro da Cidade Amuralhada |
![]() |
![]() |
| Rosi em Cartagena, fora do centro histórico. |
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
SOBRE "O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS"
Na minha opinião, os dois fatores básicos que explicam a excelência de “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura, é a qualidade narrativa do livro e a crítica (progressista) que faz do socialismo realmente existente, uma realidade bem conhecida pelo autor... Apesar de todo o sucesso internacional e podendo viver na Europa, Padura prefere continuar vivendo em Cuba, na mesma casa em que nasceu e dirigindo seu carro velho de muitos anos...
Na minha opinião, os dois fatores básicos que explicam a excelência de “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura, é a qualidade narrativa do livro e a crítica (progressista) que faz do socialismo realmente existente, uma realidade bem conhecida pelo autor... Apesar de todo o sucesso internacional e podendo viver na Europa, Padura prefere continuar vivendo em Cuba, na mesma casa em que nasceu e dirigindo seu carro velho de muitos anos...
Graças certamente ao
seu talento narrativo, demonstrado em romances policiais bem sucedidos, ele
consegue manter presa a atenção do leitor até o final desse romance histórico,
que na edição brasileira da Boitempo conta com mais de 500 páginas. O livro é
constituído por 30 capítulos que, variando no tempo e no espaço, se concentram,
dependendo das exigências narrativas, em algum destes três protagonistas: 1)
Ivan, um escritor frustrado, morador na Cuba do nosso tempo (o cap. 1 se passa
em 2004); 2) Trotsky, o líder exilado da Revolução Russa, residente em diversos
países desde sua deportação em 1929, sendo o último deles o México, onde foi
assassinado, em 1940; e 3) Ramón Mercader, o comunista espanhol, egresso da
Guerra Civil em seu país, que cumpriu a tarefa que lhe foi atribuída, a mando
de Stalin. Como se sabe, Mercader infiltrou-se na casa em que morava Trotsky,
ganhou a confiança dos seus moradores e acabou por matar o líder soviético,
golpeando-o com uma picareta. Embora a história de Trotsky seja bem conhecida,
não o é a de Mercader. E isso exige mais do talento de ficcionista de Padura
que, a partir dos (poucos) dados conhecidos sobre o assassino, reconstrói a
trama em que está envolvido, mantendo sempre o interesse do leitor. Dessa trama
participa a mãe de Mercader, militante do partido, e os agentes russos
vinculados à NKVD (polícia política) e ao estado soviético.
Interessante também é
o retrato psicológico feito do jovem Mercader, que no início acreditava
realmente que estava prestando um grande serviço à causa que abraçou. Mais
tarde, já na URSS, após cumprir sua pena no México (20 anos), não aparenta mais
estar tão certo disso... Lá ele reencontra seu antigo mentor russo, que revela
então todo o cinismo de quem está bem consciente das mazelas do período
stalinista ao qual serviu... O livro, mais do que simplesmente condenar o
assassino pelo ato abominável que cometeu, traz elementos que permitem vê-lo
também como vítima das circunstâncias históricas de seu tempo, um tempo brutal
de conflito ideológico, da Guerra Civil Espanhola, de ascensão do nazifascismo,
do auge da autocracia de Stalin e do início da II Guerra.
O romance mostra não
só a verdadeira face da vida na URSS stalinista, sob o signo do medo e dos
privilégios da burocracia. Mostra também -- e esse é outro aspecto notável do
romance – a vida em Cuba nas últimas décadas do século XX e início do XXI,
criticando-a direta ou indiretamente, por meio da descrição dos percalços e da
vida de Ivan, um escritor frustrado, cuja carreira foi sufocada pelas circunstâncias
próprias do regime. A frustração de Ivan se agrava com a morte da esposa e o
abandono dos filhos que, como outros de sua geração, preferiram morar em Miami.
Ivan conhece na
praia, por acaso, um espanhol chamado Jaime Lopez, com seus dois belos galgos
russos. Tem vários encontros com ele, que demonstra saber muito sobre Mercader.
Trata-se, na realidade, de mais uma das diversas identidades falsas deste. Está
em Cuba porque as autoridades russas permitiram que Mercader emigrasse para lá,
e é ali que ele virá a falecer. Assim
como Trotsky, Mercader também era um homem que amava os cachorros...
Em suma, trata-se de
um livro de crítica ao socialismo realmente existente. Mas sua crítica tem, a
meu ver, um caráter progressista, i.e. não reacionário. Reconhece as falhas de
um modelo que fracassou, o que não invalida o ideal de mudança, para melhor, da
ordem social. O livro consiste, na realidade, numa defesa dos valores da
verdadeira democracia, de afirmação dos direitos do indivíduo frente a um
estado onipresente, comandado por uma burocracia privilegiada, indiferente às
vicissitudes da maioria da população.
sábado, 24 de junho de 2017
UMA SEMANA NO
LESTE EUROPEU
(Memória de viagem)
2.06.17
(sexta)
No aeroporto Afonso Pena, despachamos a bagagem
diretamente para Praga, o destino final de nosso voo. Às 19:00, decolamos para
o Rio de Janeiro.
-No Rio, às 22:10 decolamos para Frankfurt pela
Lufthansa. O voo durou pouco mais de 11
horas. Mas foi necessário acrescentarmos mais 5 horas para sabermos a hora
local, devido à diferença de fuso com o Brasil.
3.06.17
(sábado)
-Às 14:30, chegamos em Frankfurt (hora local). Às
17:00 deveríamos decolar para Praga. Mas esse voo foi cancelado, parece que por
causa do mau tempo. Felizmente foi
possível fazer o rebooking para o
mesmo dia, por volta das 23 horas, depois de aguardarmos em filas quilométricas
todo esse tempo.
-Chegamos em Praga
quase meia-noite. Hospedamo-nos no hotel Corinthia Prague (Kongresova, 1). Na
recepção, fomos atendidos por um jovem
peruano que havia trabalhado em S.Paulo e falava bem português. Nosso quarto
ficava no 17º andar de um edifício que devia ter uns vinte e poucos, o que é
incomum em Praga e nas outras cidades que visitamos. O hotel situava-se um
pouco mais afastado do centro, na parte mais nova dessa cidade
multicentenária.
4.06.17
(domingo)
-Em Praga. Pela
manhã, fizemos a “visita panorâmica” da cidade, com o guia da Europamundo e o
guia local, um sujeito alto e magro, moreno, com uma barbicha debaixo do lábio
inferior, aparentemente um costume local, pois vi vários tchecos com esse
visual.
-Na visita panorâmica, subimos de ônibus até o castelo
de Praga (o maior da Europa), e depois entramos a pé pelo portal dos
gigantes em luta (“Pátio de Honra”) e andamos pela área externa ao Castelo mas dentro
de suas muralhas, passando pela Catedral de S.Vito e Palácio Real, circulando
pelo primeiro e segundo pátios. Este último foi acessado após transpormos a
Porta Mathias. Não avançamos até a Viela Dourada, hoje ocupada por lojinhas de
souvenires, e outras. No nº 22 morou Franz Kafka. Aliás, segundo nosso guia,
essa é uma das vinte casas em que ele morou em Praga (chegamos a passar por
algumas delas).
Em seguida, descemos ainda a pé para Malá Strana
(“Pequeno Quarteirão”). Andamos por suas ruas antigas, especialmente pela rua
Nerudova, cujo nome homenageia o escritor tcheco Jan Neruda, do século 19, que
inspirou o pseudônimo do poeta chileno. Uma curiosidade dessa região antiga (“praticamente nenhum edifício surgiu aqui
depois do século 18”) é a presença de símbolos na frente das casas que
serviam para identificá-las, antes de se adotar o sistema de numeração. A Casa dos Dois Sóis, por exemplo, é a do
escritor.
Prosseguindo nessa caminhada, chegamos à famosa ponte
Carlos, sobre o rio Moldava, que é só para pedestres e estava atulhada de
turistas. Essa ponte é de 1357 e foi mandada
construir por Carlos IV, cuja estátua vimos, ao sair dela. Aliás, ao longo da
ponte há diversas outras estátuas. Carlos IV foi imperador do Sacro Império
Romano de 1346 a 1378, além de rei da Boêmia.
Na condição de imperador, “declarou
indissolúvel a união da Boêmia, Morávia, Silésia e a parte norte da Lusácia, e
incluiu pedaços da Alemanha na Boêmia”.
Ultrapassada a ponte, entramos na Staré Mesto (“Cidade Velha”). Passamos por
uma casa, com uma placa na fachada, em
que morou o astrônomo Johannes Kepler. Logo chegamos à praça central, onde há
vários edifícios antigos, e a Prefeitura da Cidade Velha, em cuja torre está o
famoso Relógio Astronômico,
construído em 1490 e que “marca o tempo
em três calendários: o da antiga Boêmia, o babilônico e o romano (o atual).
Além disso, mostra movimento da lua e do sol por meio dos doze signos do
zodíaco”. Na virada das horas, várias figuras se movimentam (alegorias da
vaidade, avareza, morte e luxúria), e as que mais chamam a atenção são as dos
apóstolos, na parte superior do Relógio, vistas por duas pequenas janelas,
sobre as quais há um nicho com um pequeno galo de ouro.
No centro da praça da Cidade Velha há um monumento interessante. Trata-se do Memorial de Jan Hus, o reformador religioso que foi queimado vivo em 1415. O monumento é de 1915. E pensar que ali onde nos sentávamos, nas cadeiras na calçada do restaurante, para fazer um lanche e curtir a praça e seus arredores, a plebe insensível e sadista do passado devia se acumular para ver espetáculos de execução como esse, de extrema crueldade... A propósito, nesse local, à esquerda do monumento, havia algumas pessoas debaixo de uma faixa com dizeres em inglês contra Putin e sua política com relação à Ucrânia.
Como adquirimos o passeio orientado “Praga
Artística”, depois do almoço encontramo-nos novamente com o mesmo guia local
que já nos guiara antes na visita panorâmica da manhã. O passeio agora incluiu
uma circulada (sempre a pé) pelo Bairro Judeu (“Josefov”), uma visita à parte
externa da Sinagoga espanhola, uma olhada rápida em um trecho do cemitério
judeu (onde Kafka está enterrado), um pequeno passeio pelo rio Moldava com
vista para o conjunto do castelo de Praga, a ponte de Carlos IV e suas torres
góticas. Desembarcamos em Malá Strana e visitamos depois o palácio de
Wallenstein (sede do Senado tcheco), a igreja de S.Nicolas, com entrada
paga (Mozart usou o órgão dessa igreja
para executar o “Réquiem”), e a igreja de N.Sra da Vitória, onde é venerado o
Menino Jesus de Praga.
No centro da praça da Cidade Velha há um monumento interessante. Trata-se do Memorial de Jan Hus, o reformador religioso que foi queimado vivo em 1415. O monumento é de 1915. E pensar que ali onde nos sentávamos, nas cadeiras na calçada do restaurante, para fazer um lanche e curtir a praça e seus arredores, a plebe insensível e sadista do passado devia se acumular para ver espetáculos de execução como esse, de extrema crueldade... A propósito, nesse local, à esquerda do monumento, havia algumas pessoas debaixo de uma faixa com dizeres em inglês contra Putin e sua política com relação à Ucrânia.
![]() |
| Na frente do Relógio Astronômico, em Praga. |
![]() |
| Perto da praça central, em Praga |
![]() |
| No centro da praça, Memorial de Jan Huss |
5.06.17
(segunda)
Por volta das 8 horas da manhã, partimos de Praga, no
ônibus da Europamundo, rumo a Budapeste. A distância entre as duas capitais é
de 528 km.
Aproximadamente na metade do caminho, ainda na
República Tcheca (região da Morávia), paramos para conhecer os jardins e a
parte externa dos castelos de Lednice, considerado
“patrimônio da humanidade” pela Unesco. Suas origens remontam ao século XIII,
tendo sofrido várias reformas posteriormente. O local está situado perto da
fronteira com a Áustria, a 275 km de Praga.
Prosseguindo viagem, fizemos nova parada, agora
para almoçar e conhecer o centro de Gyor,
a cidade mais importante do noroeste da Hungria.
Chegamos a Budapeste
no meio da tarde. Registramo-nos no
hotel Danubius Health SPA Resort Margitsziget, localizado na ilha Margit, no rio
Danúbio, que divide Buda de Peste. Nos corredores do hotel cruzávamos
frequentemente com pessoas de roupão branco, indo ou vindo dos spas (Budapeste
é rica em águas termais e os “banhos turcos” – herança do tempo da dominação
pelo Império Otomano – é uma tradição do lugar). Uma vez instalados no hotel,
saímos novamente no ônibus à disposição do grupo, que nos levou para uma área junto
ao Danúbio, turisticamente mais relevante. O ônibus estacionou na rua do Museu
Nacional Húngaro, em frente a este mas do outro lado da rua. Seu prédio é de
arquitetura clássica, com colunas gregas. A esse local deveríamos voltar mais
tarde, em hora combinada, para retornar ao hotel. Passeamos então por essa rua
(Muzeum korut) e em seu prolongamento
(Vám korut), passando pelo belo
prédio do Mercado Central (de 1896), que já estava fechado, caminhando até a ponte
verde sobre o Danúbio (ponte Petófi). Depois, exploramos um pouco uma rua
transversal (a Belgrad rakpart) e ali
deparamos com um prédio onde morou até a morte, em 1971, o filósofo marxista
Georg Lukacs, conforme informava uma placa em sua fachada.
6.06.17
(terça)
![]() |
| Na frente do Castelo de Lednice, Rep. Tcheca |
![]() |
| Praça em Gyor, Hungria |
![]() |
| Mercado Central de Budapeste |
Pela manhã, fizemos a “visita panorâmica” à cidade,
circulando por ela no ônibus, e ouvindo explicações do guia. A primeira parada
foi na Praça dos Heróis, em Peste, onde há várias estátuas de figuras
importantes da história húngara. Foi aqui “o
principal ponto do levante anti-soviético de 1956”. De um lado dessa praça
há o Museu de Belas Artes, com um importante acervo, que eu tinha planejado visitar
depois. Mas estava em reformas, por isso temporariamente fechado.
Retornando ao
ônibus, cruzamos a ponte das Correntes e entramos em Buda, subindo a colina
do Castelo e passeando pelos diversos edifícios do Palácio Real
reconstruído, que hoje abrigam museus de arte e a igreja de S. Matias, rumando depois
para uma bela igreja, conhecida pelo nome de Bastião dos Pescadores, que
abrange sete torres representativas das sete tribos magiares das origens
históricas do país.
Descemos do ônibus ali para admirar tal arquitetura, subir
suas escadas e desfrutar as belas vistas de Peste que proporciona,
especialmente do belíssimo Parlamento, à beira do Danúbio. Posteriormente, retornamos para Peste passando
por outras atrações turísticas (Basílica de Santo Estevão, Ópera etc) e parando
no Mercado Central, já referido acima, onde descemos. Era por volta do
meio-dia. Percorremos diversos setores
do Mercado, que era bem diversificado pois além de frutas, verduras, alimentos,
bebidas etc, podia-se fazer ali refeições e comprar souvenires. Dentre estes, revelando
um costume popular local, eram frequentes os jogos de xadrez, cujo tamanho
variava bastante (comprei ali um dos pequenos). Curiosamente, um das peças do
jogo, a rainha, tem um design um
pouquinho diferente do tradicional, pois em sua cabeça destaca-se uma coroa
feita de diversas bolinhas em círculo... Não nos animamos a almoçar ali, e sim,
mais tarde, num restaurante no começo da Váci útca (no nº 86-- “Old Street Café”).
Essa é a principal rua comercial e dos
turistas, perto do Mercado, e nela passearíamos depois tomando sorvete, aliás
muito consumido pela população naquele dia quente.
![]() |
| Praça dos Heróis, Budapeste |
![]() |
| Bastião dos Pescadores, Budapeste |
No final da tarde, retornamos, caminhando, ao nosso
ponto de encontro, em frente ao Museu Nacional, como no dia anterior.
Casualmente, encontramos diversos sebos, um ao lado do outro, nessa rua do
Museu. Entrei neles para dar uma olhada
rápida nas estantes de livros (que não fossem em húngaro, naturalmente, “única língua do mundo que o diabo respeita”,
segundo o “Budapeste” de Chico Buarque...).
Comprei ali “Histórias de almanaque”, de Brecht, em espanhol, e uma edição de
bolso de “ À l’ombre des jeunes filles en fleurs”, de Proust.
Após um breve descanso no hotel, saímos novamente,
agora para fazer um passeio de barco pelo rio Danúbio e ver tanto Buda
quanto Peste iluminadas, à noite. É
realmente um espetáculo deslumbrante ver o Parlamento e outros edifícios em
ambas as margens do rio, e suas várias pontes, nessa condição.
Na sequência, o ônibus nos levou até o topo do monte
Gellért para, uma vez mais, admirarmos Budapeste à noite. No local, no topo
de um obelisco, há a estátua de uma mulher segurando a palma da paz, símbolo da
Liberdade, conquistada pela Hungria após a derrota do Nazismo na II Guerra.
Abaixo, sobre uma coluna de menor altura, havia, segundo nossa guia, estátuas
de soldados soviéticos, pois foi graças ao seu exército que aquela derrota foi
possível. Mas elas foram retiradas dali, depois da mudança do regime na Hungria.
Devem estar hoje no Parque das Estátuas, situado em bairro mais afastado da
cidade, para onde foram encaminhadas todas aquelas que lembravam o
comunismo. O monumento à Liberdade, pela
sua posição, é visto a grande distância dele, e nós o vimos, iluminado, ao
passear de barco no Danúbio, à noite.
![]() |
Ao fundo, o Parlamento húngaro, às margens do rio Danúbio, em Budapeste
|
7.06.17
(quarta)
Pela manhã, saímos de Budapeste, partindo em nosso
ônibus com destino a Viena. Fizemos uma parada em Bratislava, capital da Eslováquia desde 1993, quando houve a
divisão da antiga Tchecoslováquia em dois países. A cidade fica a apenas 60 km
de Viena. Situa-se também às margens do Danúbio.
Nosso ônibus ficou estacionado perto da catedral
de São Martinho. Aí foram coroados
os monarcas húngaros, inclusive a imperatriz Maria Tereza, em 1741. Bratislava
(ou Presburgo, seu antigo nome) foi capital da Hungria por quase duzentos e
cinquenta anos (de 1536 a 1783). Dessa igreja fui convidado a sair porque entrei numa hora em que se celebrava
missa. Mas voltei a ela depois, no horário reservado aos turistas, para admirar
o seu interior, que impressiona bem mais do que a parte externa.
![]() |
| Em Bratislava, capital da Eslováquia |
Caminhamos para o centro histórico e subimos as ruas
Ventúrska e Michalská, vendo ao fundo a Torre de São Gabriel, o
único portão que restou dessa cidade, em boa parte de caráter medieval, pois
transversalmente a essas ruas havia ruelas antecedidas por arcos, com lojas e
restaurantes.
Andando por aquelas ruas, passamos, conforme o
guia, pelos seguintes edifícios: 1) palácio de Keglevich (onde Beethoven deu um
concerto em 1796); 2) edifício da
primeira universidade da Hungria, fundada em 1465; 3) palácio de Pállfyl (onde
em 1762 Mozart, aos 6 anos, deu um concerto; em sua fachada há uma placa
referindo-se a esse fato); 4) palácio de Pauli (em que Liszt se apresentou em
público pela primeira vez, em 1820, aos 9 anos; também há aí uma placa na
fachada).
Uma curiosidade de Bratislava é a presença de algumas esculturas curiosas como a do observador do bueiro e a do soldado napoleônico apoiado num banco de praça. Aliás, Napoleão atacou a cidade duas vezes, uma em 1805 e outra em 1809. Em 1805 foi firmada aí a Paz de Presburgo, depois da batalha de Austerlitz, vencida por Napoleão, que teve lugar perto dessa localidade, “a cerca de 10 km a sudeste de Brno na Morávia, na altura uma região do Império Austríaco (atualmente República Checa)”.
Uma curiosidade de Bratislava é a presença de algumas esculturas curiosas como a do observador do bueiro e a do soldado napoleônico apoiado num banco de praça. Aliás, Napoleão atacou a cidade duas vezes, uma em 1805 e outra em 1809. Em 1805 foi firmada aí a Paz de Presburgo, depois da batalha de Austerlitz, vencida por Napoleão, que teve lugar perto dessa localidade, “a cerca de 10 km a sudeste de Brno na Morávia, na altura uma região do Império Austríaco (atualmente República Checa)”.
Após o almoço na praça central desse centro
histórico e o passeio por suas principais ruas, e praças mais afastadas, onde
vimos carros vermelhos puxando vagões abertos da mesma cor, voltamos ao ônibus
e retomamos viagem.


![]() |
| Em Bratislava |


Chegando em Viena,
instalamo-nos no Exe Hotel Vienna, na rua Ottakringer, distrito 17 (a placa da
rua indica a área da cidade em que a pessoa está). Foi possível ainda, nesse
fim de tarde, fazer a “visita panorâmica”, tirando partido do fato de que
nessas cidades do nosso itinerário anoitecia mais tarde do que aqui, na mesma
época.
![]() |
| Palácio Schönbrunn, Viena |
Nesse tour, conhecemos, também externamente, outro palácio, o Belvedere, e seus jardins planejados. No passado eram residência de verão de seus nobres proprietários e hoje abrigam coleções de artes plásticas e servem de local para exposições temporárias. Na realidade são dois palácios, o Belvedere Superior, de fachada mais elaborada, e o Inferior. Tiramos fotos junto às curiosas esfinges no jardim do Belvedere Superior.
Na conclusão do circuito vimos o rio Danúbio que em
Viena não corta a cidade, como em Budapeste, mas corre em sua periferia.
8.06.17
(quinta)
Saímos pela manhã rumo ao Hofburg, que sediou por
muito tempo o império austríaco, e ao quarteirão dos museus junto a ele, em
cujo centro há um monumento em que se destaca a estátua da imperatriz Maria
Tereza. Pegamos o trem elétrico nº 44 que conforme informação obtida
anteriormente fazia o trajeto do nosso hotel até aquele área turisticamente
muito relevante. Eu já tinha reservado
no bolso as moedas para pagar o valor de 2 euros e 30 centavos por pessoa.
Ocorre que ao entrar no trem não havia nenhum cobrador, e não vimos ninguém
pagar a passagem. De modo que descemos do trem em nosso destino sem pagar (e
repetiríamos a proeza depois, ao retornar para o hotel). Só no dia seguinte
ficamos sabendo que era preciso comprar as passagens em estações do metrô, ou
dentro do próprio trem, em caixas automáticas, que só aceita moedas. Nos trens
há fiscais que, certamente atuando por amostragem, poderiam ter pedido para mostrarmos os tickets
da passagem. Não os tendo, teríamos problemas e sofreríamos as sanções
previstas...
O preço da passagem, convertido em nossa moeda,
seria igual a pouco mais de 8 reais. Esse era o preço também, aproximadamente,
de uma garrafinha de água mineral. Parece muito caro, se considerarmos só os
valores absolutos, na comparação com os preços daqui. Ocorre que, segundo nos disseram, o salário-mínimo
lá equivaleria, em nossa moeda, a uns 5 mil e 500 reais. Mas, como sabemos, o
que importa na comparação entre países não são os preços nominais mas o poder aquisitivo da
remuneração...
Nessa manhã visitamos o Kunsthistorisches Museum
(museu de História da Arte), de rico acervo, acumulado pelos Habsburgos durante
vários séculos. Deixamos de lado, não por falta de vontade de ver mas por falta
de tempo, as seções de egiptologia, arte greco-romana etc, e nos concentramos
nos pintores flamengos, holandeses, italianos, alemães etc Esse museu conta com
a maior coleção de Peter Brueghel, o Velho, um de meus preferidos. Há ali telas de Rembrandt
(auto-retratos), Vermeer (“O Estúdio do Artista”), Bellini, Ticiano, Arcimboldo,
Dürer etc
![]() |
Entrada do Hofburg, em Viena
|
Depois de três horas passeando pelas salas desse
andar dos pintores, saímos do museu e caminhamos pelas imediações, até
chegarmos próximos ao café Landtmann, frequentado por Freud. Paramos aí para
descansar e fazer um lanche.

Na sequência, não por acaso, rumamos para o museu Freud, localizado a alguns quarteirões dali, que não foi difícil encontrar (sabendo seu endereço) com um mapa da cidade nas mãos e pedindo uma ou outra informação aos transeuntes. O museu se situa no apartamento do prédio em que viveu e trabalhou o pai da Psicanálise durante 47 anos, de 1891 até 1938, quando se exilou em Londres, fugindo dos nazistas. Possui alguns móveis originais (exceto o famoso divã, que está em Londres), muitas fotos, manuscritos, alguns de seus livros, objetos pessoais etc Numa pequena sala, há um monitor de TV que mostra filmes em que Freud aparece, e também sua filha Anna. Ela, já idosa, dá um depoimento sobre ele.
9.06.17
(sexta)

Na sequência, não por acaso, rumamos para o museu Freud, localizado a alguns quarteirões dali, que não foi difícil encontrar (sabendo seu endereço) com um mapa da cidade nas mãos e pedindo uma ou outra informação aos transeuntes. O museu se situa no apartamento do prédio em que viveu e trabalhou o pai da Psicanálise durante 47 anos, de 1891 até 1938, quando se exilou em Londres, fugindo dos nazistas. Possui alguns móveis originais (exceto o famoso divã, que está em Londres), muitas fotos, manuscritos, alguns de seus livros, objetos pessoais etc Numa pequena sala, há um monitor de TV que mostra filmes em que Freud aparece, e também sua filha Anna. Ela, já idosa, dá um depoimento sobre ele.
![]() |
| Museu Freud, em Viena |
Nosso tempo disponível nesse dia, que se estendia
até às 16 h -- quando uma van viria nos buscar para o traslado até o aeroporto
de Viena -- seria todo dedicado ao Hofburg, o palácio que foi sede do
poder austríaco por 6 séculos. Passeamos a pé por esse complexo de edifícios,
jardins e monumentos. Os edifícios abrangem, além dos aposentos reais (ocupados
por Francisco José e sua esposa, a imperatriz Elisabete, ou Sissi), a Escola
Espanhola de Equitação (onde cavalos de raça fazem exibições), a Biblioteca
Nacional Austríaca, a Casa do Tesouro, uma capela onde se apresentam os Meninos
Cantores de Viena e uma igreja onde está
o túmulo de uma filha da imperatriz Maria Teresa, que é um belo monumento de
arte funerária, construído por Antonio Canova. Ao lado dessa igreja situa-se o palácio
Albertina, que apresentava então uma exposição de Egon Schiele, por nós
visitada. Também admiramos aí parte do acervo do museu, composto por obras de
outros artistas. Desses, as telas que mais me impressionaram foram as de alguns
surrealistas (Miró, Chagall, Magritte) e Picasso.
Uma informação
interessante fornecida pelo nosso guia local: 30% das habitações em Viena são
propriedade do Estado, que os aluga aos interessados. Será que os nossos neoliberais, que demonizam a
sua atuação, sabem disso?
![]() |
| Na saída do Hofburg, em Viena |
Às 19:10 nosso avião (da Lufthansa) decolou do
aeroporto de Viena, com destino ao
de Frankfurt. De lá, partimos para o
Brasil.
10.06.17
(sábado)
Chegamos em S.Paulo (aeroporto de Guarulhos) aproximadamente
às 5 h da manhã. Algumas horas depois, partimos
para Curitiba, chegando aqui por volta das 9:30 h.
VISTAS DE PRAGA



VISTAS DE BUDAPESTE




VISTAS DE BRATISLAVA


VISTAS DE VIENA



VISTAS DE PRAGA



VISTAS DE BUDAPESTE




VISTAS DE BRATISLAVA


VISTAS DE VIENA



Assinar:
Postagens (Atom)


































