sexta-feira, 12 de junho de 2020


LIGEIRAS OBSERVAÇÕES FEITAS APÓS UM GIRO PELA PENÍNSULA IBÉRICA

(o “giro ibérico” abrangeu 5 mil km e foi realizado de 12 a 30 de maio de 2014)

1. PORTUGAL


-A casa Fernando Pessoa, no Campo de Ourique, em Lisboa, é aquela em que o poeta morou nos seus últimos 15 anos de vida. Vai-se até lá no famoso bondinho (ou “eléctrico”) 28. A casa-museu é dedicada a cultuar a sua memória. Ali pode-se ver como era seu quarto e ali estão a escrivaninha, o baú dos inéditos, seus objetos pessoais etc Há também uma biblioteca para uso dos pesquisadores e uma livraria. Da mesma forma, a antiga Casa dos Bicos em outro ponto da cidade sedia atualmente a Fundação José Saramago, que homenageia o grande escritor português contemporâneo.

-Na estação do Rossio, perto da praça D. Pedro IV, pegamos um trem que nos levou até Queluz, onde está o palácio em que residiram D.Maria I, D.João e Carlota Joaquim, além dos filhos. Visitamos o quarto em que o nosso D. Pedro I (o D. Pedro IV deles) nasceu e veio a morrer, após ter abdicado do trono no Brasil e retornado ao seu país. É um palácio mal conservado, que não impressiona pela arquitetura, no meio de amplos jardins.

-“Rossio” é uma palavra que se vê frequentemente nos logradouros públicos das cidades. Segundo me disseram, deriva do alemão “Ross” que significa “cavalo”. Referia-se antigamente aos locais urbanos reservados ao descanso dos cavalos, meio de transporte da época.

-Em Mértola, simpática cidade do Alentejo, de ruas e prédios brancos, conversando com alguns moradores do local, eles me falaram do assassinato de um turista português ocorrido no Brasil há alguns anos. Ainda estavam impressionados com a selvageria do crime, em que o pobre turista foi obrigado a cavar a própria cova onde seria enterrado. Expliquei-lhes que, em boa medida, a nossa criminalidade é explicada pelas condições sociais, e que aqui a tensão social e a desigualdade são muito grandes. Por isso, devemos apoiar governos de esquerda, que priorizem essas questões.

-A propósito de Mértola, um fato que me chamou a atenção foi uma igreja católica, também caiada de branco, que fora antes mesquita, próxima a um castelo. O templo, internamente, ainda guarda as características arquitetônicas de sua antiga função, na época dos mouros.

- Em Évora, a sinistra Capela dos Ossos, ao lado da igreja de S. Francisco, traz a inscrição famosa: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, para nos lembrar da precariedade da condição humana. Nessa cidade, nas lojinhas para turistas abundam artigos feitos de cortiça (bolsas, malas, bonés, chapéus, carteiras etc). Nosso guia disse que Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo (que serve também, naturalmente, para se fazerem as rolhas das garrafas de vinho, produto tradicional e notável de sua economia). Ela é extraída da casca de uma árvore chamada sobreiro, muito presente na paisagem da região (assim como as oliveiras).

-Assim como no Brasil existem piadas de português, em Portugal existem piadas de alentejano. Eles são considerados “lentos” demais... No Alentejo a paisagem é pobre, a vegetação é de um verde sujo, sem cor viva, e em muitas áreas se cria gado.

-Em Vila Viçosa, onde está o Palácio Ducal (dos duques de Bragança), a memória da poetisa portuguesa Florbela Espanca é lembrada não só no centro da pequena cidade (em que há um marco assinalando o local onde havia a casa em que ela nasceu) mas também no cemitério, onde está o seu túmulo, revestido de mármore, logo na entrada. Aqui vale uma observação crítica que tem a ver com a nossa dependência cultural anglo-saxônica: nos dois guias de Portugal que li sobre os pontos que iria visitar nessa viagem, um publicado originalmente pela DK- Dorling Kindersley e outro pela Lonely Planet -- apesar de serem muito bons e informativos -- não fizeram nenhuma referência a ela, certamente por menosprezarem seu papel na literatura portuguesa. O mesmo aconteceu com a poetisa galega Rosalía de Castro, não mencionada nos dois guias sobre a Espanha daquelas editoras, na parte relativa à região de Santiago de Compostela. Mas vi em Lugo um busto em sua homenagem. A propósito, o nome desta cidade, fundada pelos romanos e que guarda várias relíquias deles, deriva de Lucus Augusti.

-Em León vi uma casa projetada por Gaudí, a Casa de Botines, mostrando que não é só em Barcelona que há trabalhos desse arquiteto.

-Notei, ao longo da viagem em Portugal, muitas curiosidades léxicas. Por exemplo, usam a palavra rotunda em vez de rotatória, sapataria é a loja que vende sapatos, puto é sinônimo de criança, pastel de bacalhau é o que chamamos de bolinho de bacalhau, portagem é pedágio, autocar é ônibus, eléctrico é bonde, alfarrabista é sebo etc etc

- Em Fátima há, dentro de uma caixa de vidro, um pedaço do Muro de Berlim, para lembrar a profecia de uma das pastorinhas relacionada ao fim do comunismo ateu... Na área desse santuário, numa trilha lisa, pavimentada, vi várias pessoas andando apoiados não nos pés mas nos joelhos, e fazendo assim um longo percurso...

- Na cidade do Porto visitei uma famosa livraria, a Lello e Irmão, considerada uma das mais bonitas do mundo. Nosso guia nos disse que a autora do livros de Harry Potter era sua assídua frequentadora, e se inspirou nela para compor o cenário do primeiro livro da série.

- Visitei, próximo a Braga, o santuário do Bom Jesus do Monte. Chega-se a ele subindo uma longa escadaria (a concepção subjacente é a da ascensão espiritual do indivíduo). Muitas pessoas ali, de abrigo, pareciam aproveitar a ocasião para fazer o seu exercício físico rotineiro, mais preocupados com a saúde do corpo que da alma... No percurso há uma série de elementos antigos que chamam a atenção do visitante como as fontes dos Cinco Sentidos (em que a água ora sai dos olhos, ora da boca ou de outro órgão dos sentidos) e as diversas capelas, cada uma representando em seu interior uma cena da Via Sacra...

-Há um ditado que sintetiza Portugal e que registro aqui para não esquecer: “Em Lisboa as pessoas se divertem, no Porto trabalham, em Braga rezam e em Coimbra estudam”.

2. ESPANHA

-Na catedral de Santiago de Compostela há um grande incensório. Consta que ele era usado antigamente para atenuar o bodum dos peregrinos, após uma longa viagem, em que certamente eram poucas as oportunidades de se fazer a higiene pessoal... Porém mais grave que isso é a sujeira moral: no passado, a universidade local negava acesso a quem tivesse sangue mouro ou judeu. Como se vê, o racismo na Europa vem de longe...

-A siesta é um costume espanhol arraigado. Em León a loja de souvenirs só abria às 5 horas da tarde. Em Sevilha anotei este horário de funcionamento de uma livraria: manhã: 10 a 14 h; tarde: 17 a 21 h. Isso tem a ver também com o fato de que anoitece muito tarde na Espanha. Lembro que andava pela Plaza Mayor em Madri às 21 h e ainda havia a claridade do dia.

-Ao contrário das diversas línguas faladas na Espanha, em suas comunidades autônomas (relativamente), o euskera, falado no País Basco, é muito diferente de todas elas. Não é uma língua derivada do latim.

-Vi muitos cataventos nas planícies espanholas. Os moinhos de vento já estavam presentes na região de La Mancha no tempo de D.Quixote. Lembram que ele investiu contra um deles?... 30% da energia da Espanha é de origem eólica ou solar.

-Outra curiosidade da paisagem, também vista do ônibus. Frequentemente víamos, no alto dos postes de telecomunicações, grandes ninhos de cegonhas, com seus filhotes.

-Próxima à Basílica do Pilar, em Zaragoza (cidade cujo nome deriva de Caesaraugusta, do tempo dos romanos), havia um estabelecimento em que entramos para fazer um lanche. Quem nos atendeu foi uma brasileira de Recife chamada Luana. Goya nasceu perto dali. Há na cidade um museu que guarda um grande acervo de gravuras suas (águas-fortes).

-Uma constatação: nos cartões postais ou nos livros turísticos as atrações das cidades são mais bonitas. Senti isso ao ver a “Sagrada Família” de Gaudí em Barcelona, eternamente em construção (será concluída só em 2026!), de aparência prejudicada pelas gruas e andaimes. Isso ocorreu também com outros edifícios (como La Pedrera de Gaudí, que estava sendo restaurada). Também achei o palácio de Alhambra, em Granada, mais bonito nos cartões postais e nas fotos do que na realidade...

-Em Peñíscola há um castelo-fortaleza no topo da colina, construído pelos cavaleiros templários. Nele residiu Pedro de Luna, o “Papa Luna”, que tomou o nome de Benedito XIII e foi deposto (informações do guia DK). Subi até o alto do castelo e tive uma ampla visão do mar. Senti-me então como um antigo habitante da península ibérica, vigilante, e disse para mim mesmo: “Não há mouro na costa!”.

-Notei que nas principais cidades espanholas, muito antigas e com extensas áreas históricas (geralmente integrantes do Patrimônio Cultural da Humanidade, conforme a UNESCO), há sempre alguma área ou monumento bem moderno. Em Valência vê-se a futurista Cidade das Artes e da Ciência, de impactante beleza, projetada pelo arquiteto Santiago Calatrava. Em Sevilha há o mirante Metropol Parasol. Em Bilbao o museu Guggenheim, todo de titânio. Sem falar de Barcelona, que além dos trabalhos cativantes de Gaudí e outros arquitetos, também tem monumentos e edifícios mais recentes.

-Em Madri os torcedores do Atlético ou do Real Madrid costumam comemorar suas vitórias na praça de Cibeles, adornando a deusa grega com os símbolos dessas agremiações. Foi o que aconteceu em 25 de maio último, com a vitória do Real Madrid.

-Marbella, à beira do Mediterrâneo, mostra que os mouros voltaram a invadir a península ibérica. As casa ali, na chamada Costa do Sol, são na maioria de milionários árabes. Em Porto Banus, um “porto desportivo”, andamos pela rua principal. De um lado estão os iates atracados, do outro, as lojas de famosas grifes. Não é uma rua para se fazer compras e sim para observar. Foi classificada pela nossa guia espanhola como do tipo “Miranda” (Mira e anda!).

-Em Sevilha, o Arquivo de Indias guarda preciosos documentos relativos às relações entre a metrópole espanhola e suas colônias americanas, os quais estão sendo todos digitalizados, o que permitirá a realização de pesquisas históricas à distância.

- Em Palos de la Frontera vimos o local de onde Colombo partiu, em 3 de agosto de 1492, para descobrir a América (em 12 de outubro: levou portanto 2 meses e 9 dias para atravessar o Atlântico!). No local, há um museu a céu aberto, com as réplicas da Santa Maria, Pinta e Niña, a “nau capitânia” e as duas caravelas, que impressionam o visitante pelo seu diminuto tamanho para enfrentar as tempestades do alto mar. Próximo dali, há o Mosteiro de la Rábida, em cujas salas Colombo teria estado, em conversação com os frades franciscanos do Mosteiro. Na mesma região, há um monumento recente, comemorativo dos 500 anos do descobrimento da América. (2014)


sábado, 6 de junho de 2020

"FOLHAS CADENTES" (ELOGIO DO PATRONO)

          
            O livro “Folhas Cadentes”, de Alcides Munhoz (v. foto), cujo subtítulo é Elogio do Patrono (Curitiba, 1925), foi escrito por exigência dos estatutos da Academia de Letras do Paraná.  O elogiado, no caso, é o seu tio Alfredo Munhoz (1845-1921), patrono da cadeira da qual Alcides (1873-1930) foi o primeiro ocupante.   

            Acabei de ler, fascinado, esse livro (disponível no setor de “Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná) especialmente por obter aí informações sobre alguns de meus ancestrais pelo lado da avó paterna, e também sobre a vida curitibana na segunda metade do século 19.

            Minha avó Arabela também era sobrinha de Alfredo Munhoz. Ela era filha de Florêncio José Munhoz, irmão mais moço de Alfredo (aliás, Alfredo, que morreu aos 76 anos, sobreviveu a todos os seus irmãos. E das irmãs, em 1925 – data da publicação do livro –apenas duas ainda viviam).  

            Alfredo foi o primogênito do primeiro casamento do tenente-coronel Caetano José Munhoz, avô de Arabela, que era um importante ervateiro no início da nossa vida como província independente (naturalmente deve-se avaliar essa importância em termos relativos pois Curitiba, na época da emancipação da província, era uma cidade pequena, com uma população de aproximadamente 6 mil habitantes).

            Como se sabe, o ciclo do mate na economia paranaense tem início na década de 1820, e já na década seguinte Caetano José Munhoz é um dos primeiros a instalar engenho de erva-mate em Curitiba (até então eles só existiam no litoral). Foi o primeiro a instalar engenho a vapor, antes mesmo do barão do Serro Azul, conforme afirma Newton Carneiro em “Um Precursor da Justiça Social”.

            Alcides Munhoz refere-se ao seu engenho no Alto da Glória, no “boulevard II de Junho” e descreve vivamente a preparação para a festa de recepção ao Conselheiro Zacarias em sua residência, que ficava ao lado do engenho (havia escravos ajudando nos preparativos, e também uma senhora misteriosa, amiga de Caetano, a quem ele pede francamente para não comparecer no dia da recepção, pois não saberia como apresentá-la ao Conselheiro, face à sua ”incerteza matrimonial” (p. 15)...)  
           
            O livro transcreve duas cartas (de 1857 e 1860) de Caetano e de Francisca, sua primeira esposa (avó de Arabela), aos filhos Alfredo e Caetano Alberto (pai do autor do livro), que estudavam em Petrópolis, no colégio dirigido pelo professor  Kopeck. Essas cartas revelam saborosamente como os pais se dirigiam aos filhos por escrito (uso, por exemplo, do pronome “vós”, talvez pela influência lusitana, pois Francisca era filha do português João Gonçalves Franco), além de revelar os cuidados maternos. A mãe se referia a roupas ou alimentos que enviava pelos “vapores” (navios). A Corte, e por extensão Petrópolis, era sinônimo de civilização, e as pessoas mais abastadas enviavam seus filhos para estudar lá.  Caetano queria que um de seus filhos fosse “Doutor em Leis”, mas eles não se formaram. Fizeram carreira no serviço público, como funcionários do Ministério da Fazenda (as repartições aqui existentes eram chamadas Tesouraria de Fazenda, Alfândega de Paranaguá, Mesa de Rendas de Antonina, Coletoria de Curitiba).

            Alfredo iniciou sua carreira fazendária como ”colaborador” (1863), ocupando sucessivamente os cargos de “praticante” (1864), “segundo escriturário” (1865), “oficial” (1870), “chefe de seção” (1872), “contador” (1873) e “inspetor” (1878).  Nessa última condição, passou um ano (1878-9) em Mato Grosso (Cuiabá), na repartição fazendária local.

            Há uma referência “en passant”, na carta de 1860 escrita por Francisca, a um Florêncio, mas não se trata do pai de Arabela, que tinha então apenas 2 anos e alguns meses. Ela diz: “O Florêncio ainda cá está e por oras vosso pai precisa dele” (p. 18).  Deve tratar-se de outro Florêncio, talvez Florêncio Munhoz da Rocha, sobrinho de Caetano José Munhoz. A propósito, Florêncio José Munhoz (1857-1909), o pai de Arabela, também entraria para a Tesouraria de Fazenda, pois seu nome consta numa carta dos funcionários de Alfredo, cumprimentando-o pelo seu aniversário, em 1887 (p. 40). E no final do livro (p. 101) o autor afirma que ele morreu como Guarda-Mor da Alfândega de Santos. 

            Alfredo aposentou-se, a pedido, aos 44 anos, em agosto de 1889, alguns meses antes, portanto, da proclamação da República. Pretendia dedicar-se à iniciativa particular, fabricando um pó dentifrício, obtido com base em seus conhecimentos de botânica. Mas como não dispunha de capital suficiente para montar a indústria respectiva, acabou não alcançando seu objetivo de ganhar dinheiro com isso (seu sonho era morar na Suíça).  Complementava sua renda de funcionário público dando aulas de inglês e taquigrafia. Exerceu o cargo de “redator de debates” do Congresso Legislativo estadual, atuando também como taquígrafo (p. 57-8). (Alcides Munhoz diz que o velho Caetano, quando morreu repentinamente, deixou a família em situação financeira muito difícil. Ele tinha seu capital empatado no negócio da erva-mate, que era vendida pelo sistema de consignação no mercado platino. E parece que foi prejudicado pelos seus consignatários...) (p. 47).

            Alfredo Munhoz exerceu o jornalismo, sendo um dos fundadores da revista literária “Íris Paranaense” (1873) e fundador da revista “A Colmeia” (1898). Além disso, ao contrário do sobrinho Alcides, católico, ele era espírita convicto, correspondendo-se com cientistas importantes do exterior, interessados no tema.  Fundou (em 1890) e redigiu por muitos anos o jornal “A Luz”, órgão do Centro Espírita de Curitiba.

            Seu irmão Caetano Alberto também fez carreira fazendária. Em Santos foi criticado pelo poeta Vicente de Carvalho que, na condição de jornalista e deputado, mobilizou-se, em ambas as condições, contra o sigilo dos trabalhos de sindicância para apurar irregularidades na repartição fazendária local, trabalhos esses que Caetano Alberto dirigiu, por designação do ministro da Fazenda de então.

            “Folhas Cadentes” traz ainda informações sobre a origem da família Munhoz. Os dados sobre essa família contidos na “Genealogia Paranaense”, de Francisco Negrão, são em grande parte extraídos desse livro de Alcides Munhoz, primo-irmão de minha avó Arabela.   







             

sexta-feira, 15 de maio de 2020

"QUE FIM LEVARAM TODAS AS FLORES"


                                                                

           Esse é o título do livro mais recente de Otto Leopoldo Winck (Kotter Editorial, 2019) que agrada ao leitor não só pela qualidade literária do texto mas também por ser o retrato de uma geração,  nascida no meio do século XX,  e de uma cidade, no caso  Curitiba, especialmente a dos anos 60. Agradará mais ainda aqueles que, como eu, são da mesma geração dos dois protagonistas, e são curitibanos, natos ou por adoção, que viveram esse período na cidade.  

 A prosa é fluente, coloquial, despojada, e mantém sempre o interesse do leitor. Tem um caráter predominantemente memorialista. Em alguns momentos a prosa vira poesia da melhor qualidade. A técnica empregada na feitura do romance é bem moderna, provocando sempre o distanciamento crítico do leitor, pois lembra-o frequentemente do processe de elaboração do romance que tem em mãos.

Há no texto inúmeras citações ocultas, sem indicação de autoria, sobretudo literárias ou de letras de música, que os mais familiarizados nessas áreas identificarão com facilidade. Há também outras citações, de caráter político, como quando se enumeram aquelas relativas à revolução ou extraídas do livrinho vermelho de Mao, o que bem reflete o estado de espírito daqueles jovens intelectuais idealistas que queriam transformar o mundo, candidatos a escritores, cujo maior interesse se concentrava em literatura, música e política. Além das garotas, naturalmente.       

O leitor fica interessado no desenrolar da história de Ruy (que é o narrador nas duas primeiras partes do romance), e seus amigos, principalmente Adrian, admirado por ele, colega de escola no ensino médio. Esse seu melhor amigo, com o mesmo gosto por aquelas áreas, embora mais radical em política, é membro de uma família economicamente superior à de Ruy, cujo pai é dono de um pequeno armazém na cidadezinha do interior do Paraná em que vivem. Ambos se mudam para a capital, a fim de prosseguirem os estudos.

Em Curitiba, Ruy, Adrian e sua namorada Elisa, iniciam a vida universitária, participando ativamente do movimento estudantil. Envolvem-se na luta contra o ensino pago que a ditadura tentou implantar na Universidade Federal (um curso de Engenharia noturno) e nos protestos junto ao prédio da Reitoria, que culminaram com a derrubada do busto do reitor Flávio Suplicy.

. Após o AI-5, em dezembro de 1968, ocorre o endurecimento do regime, reprimindo-se a livre manifestação do pensamento e outros direitos do cidadão. Fecha-se assim todo o espaço para a oposição democrática, o que leva uma parcela dos estudantes, os mais inconformados, a caírem na clandestinidade e a optarem pela luta armada contra a ditadura. Esse é o caso de Adrian, que assim deixa de conviver com Ruy, o qual como tantos outros -- menos idealistas ou não tão ingênuos -- não fazem tal opção, permanecendo, é claro, na oposição ao regime. Ruy passa a trabalhar em jornal, iniciando aí uma longa carreira.   

Dentre suas amizades femininas, destacam-se Elisa, Vera, Clarinha e Joana. Elisa é a mais inteligente e politizada.  Com Vera ele inicia, de fato, sua vida sexual (não conta a Casa -de tolerância- da Filó, lá do interior). Ela o leva para um baile no Clube Curitibano e ele vê que não tem a nada ver com aquele círculo social, representado pelo pai de Vera, que pensa muito diferente dele. Claudinha é a irmã de Adrian, que ficou no interior, e não revelou o seu amor. Joana é casada com o irmão de Adrian. Ela dá em cima de Ruy, que acaba se tornando seu amante. Um dia, o marido os surpreende nus na cama. Aqui ocorre uma pequena frustração do leitor curioso: o tópico se encerra sem contar o que aconteceu na sequência  (a curiosidade é aumentada pelo fato de que Joana estava grávida de Ruy)...

            O livro traz inúmeras referências típicas da cidade nos anos 60, não só a seus bares, mas às lojas comerciais, cinemas, livrarias, prédios, praças (com suas hermas e estátuas), galerias, bairros, rios e arroios, Vagão do Armistício “do pai do Poty”, farmácia Stelfeld “e seu relógio de Sol”, etc Também são citados escritores, outras personalidades, e tipos populares da cidade. Essas longas referências, ou enumerações, nos transportam para a Curitiba da época, ajudando a bem caracterizá-la. Também ocorrem no plano da linguagem, como o rol de gírias e expressões, de sinônimos de maconha, de estilingue etc 

Na terceira e última parte do livro, o narrador é outro, pois Ruy é tratado  na terceira pessoa. Aborda o reencontro, na época atual, dos dois amigos, já quase septuagenários, no bar Stuart, o mais antigo de Curitiba, situado no centro da cidade, na praça Osório.
           
Nesse reencontro rememoram os anos de juventude.  Ruy é agora um jornalista aposentado, desencantado com a profissão, que o obrigou  a sacrificar a literatura pelo exercício de uma atividade utilitária e até mesmo mercenária. Adrian, por outro lado, tornou-se um empresário do ramo da construção civil e mora em São Paulo. Durante a longa conversa, consomem muito chopp e “carne de onça”, um prato típico local, cuja receita é descrita no livro. Anteriormente, já fora citado o famoso sanduíche de pernil do bar Triângulo, na rua XV. Esses registros das peculiaridades de Curitiba, juntamente a muitas outras, em todas as áreas, ajudam a compor o retrato da “alma da cidade”.    

Ruy verifica, desapontado, que Adrian é agora um conservador, politicamente desiludido, um cético e epicurista, repudiando aqueles tempos de rebeldia política, cujas consequências ele sofreu na carne, pois foi preso, torturado e chegou a cumprir uma pena de alguns anos.  Depois, “desbundou”, como se dizia, acreditando que antes de mudar as estruturas é necessário mudar o ser humano. Ruy percebe que há agora uma distância enorme entre eles.

Essa é a sinopse do romance escrito por Ruy, e complementado por seu professor na oficina literária em que se inscreveu depois de aposentado. Está   datado assim: 11 de março- 15 de novembro de  2017.

Segue-se um texto adicional, escrito por tal professor. Verificamos então que o romance é, na realidade, resultado do seu trabalho nessa oficina. O professor gosta do livro e decide publicá-lo, mas encontra resistência da família de Ruy, que o processaria se publicasse algo que a comprometesse. Assim, o professor, que conclui de fato o livro de Ruy, acaba assumindo a sua autoria. Ele se autoidentifica: trata-se do próprio Otto Leopoldo Winck

O volume é concluído com um apêndice, que transcreve uma matéria sobre os hippies escrita por Ruy, então jornalista iniciante, e publicada num jornal local, em 1968. Ela contém uma entrevista com seu amigo Grillo Flowers.  

O título do livro-- “Que fim levaram todas as flores”--  que bem expressa o desapontamento daqueles que foram jovens sonhadores um dia, deriva da letra de uma canção dos “Secos e Molhados, mais uma das inúmeras referências, nesse caso musical, que recriam, habilmente, o espírito daquela época. Com o mesmo objetivo, muitas referências são feitas ainda ao rock internacional e suas obras mais notáveis.

O romance que lemos é, como disse, o resultado do trabalho em uma oficina literária. Esse fato nos remete a uma outra importante característica da obra: a ênfase no processo de sua própria elaboração, indicada em inúmeras ocasiões. Por exemplo, quando Ruy diz a Adrian, no Bar Stuart, que está escrevendo um romance memorialístico, que ele será um de seus personagens e que aquele reencontro mesmo poderia fazer parte do livro. Outro exemplo é dado pela passagem em que o narrador revela suas dúvidas sobre a melhor expressão a ser empregada, e apresenta várias possibilidades. Outro ainda, quando se afirma que os dois velhos, no Stuart, talvez já estivessem na terceira fase da bebedeira. E no texto consta, entre parênteses: “(Não sei se suspiraram, o narrador não percebeu”).

Constata-se ademais breves (e frequentes)  interrupções da história para se indicar o significado de certas palavras utilizadas, arrolando-se inclusive seus sinônimos (por exemplo, o rol dos sinônimos de maconha, que enche meia página). Percebe-se aqui uma aparente gratuidade no procedimento. Mas este se justifica pois evidencia a riqueza do nosso léxico, pela apresentação das muitas possibilidades a serem exploradas, o que é totalmente adequado num romance que pretende enfatizar o seu próprio processo de elaboração.  

Desse modo, a técnica literária empregada nesse livro é bem moderna, tornando o leitor sempre consciente de tal processo. Isso ocorre também  com relação ao cinema. Lembro de um dos filmes de  Godard (mais uma referência típica da época) em que aparecia um letreiro com os dizeres: “un filme en train de se faire”.

O texto principal é composto de pequenos segmentos, separados por três asteriscos, e avança conforme evolui a narrativa. Mas  em certas ocasiões esses minicapítulos podem ser inteiramente tomados, como se viu acima, pela enumeração de aspectos típicos de Curitiba. Também podem tratar de outros assuntos como por exemplo, na terceira parte, sobre o livro do Zohar, certamente motivado pelo interesse atual do velho Adrian na “cabala autêntica” para reatar suas raízes judias. Esse minicapítulo aborda o papel exercido pelas letras, que são tratadas no Zohar de modo personalizado. Elas já existiam antes da criação do mundo pelo Altíssimo e quem ocupa a primazia é o Aleph. Num romance voltado para a sua própria elaboração, tratar das letras também parece ser bem conveniente...

Cabe por fim ressaltar a presença de algumas passagens, em que a prosa de Otto vira poesia de alta qualidade, quando afirma pela boca de Ruy:

--“Enquanto isso, lá no alto, a lua, apática testemunha, era uma foice de prata num campo de estrelas /.../ ” (p. 206)

Ou quando o jovem Ruy escreve em um de seus cadernos, imbuído do existencialismo sartreano:

--“No fundo, o desamparo é a nossa maior herança. Nascemos sós, morreremos sós. Bastardos, trânsfugas, párias, não sabemos para onde vamos, não sabemos sequer por onde vamos. Impossível se fazer entender, tentar explicar, articular qualquer palavra coerente. Ninguém nos ouviria: nem entre os anjos, nem entre os homens. Aliás, não há em lugar algum alguém velando por nós, alguém zelando por nossos passos, pronto a nos socorrer  em caso de queda ou pânico. Se, ao sairmos de casa, alguém ainda nos acenava, não há a menor garantia de que, ao regressarmos um dia, ainda esteja lá nos esperando. O jeito é estender a mão e tocar os outros que, igualmente desamparados, igualmente extraviados, vagam ao nosso lado. E quem sabe assim, de braços dados, tentar chegarmos juntos a um lugar seguro”. (p. 223-4)

Ou quando o velho Ruy fala, e se sente a presença oculta de Dalton Trevisan, Heráclito e Proust:

--“Não adianta partir em busca de Curitiba perdida. Não existe uma Curitiba perdida. Existem muitas. Já no meu tempo, as pessoas que hoje têm a minha idade, já reclamavam que não encontravam mais sua velha Curitiba. Nunca encontrariam. Nunca encontraremos. A Curitiba por ventura encontrada hoje é a Curitiba perdida amanhã. Como tudo. Nada volta do rio do tempo. Nem as águas, que são sempre outras. Nem as lágrimas, que são sempre poucas. E a memória, tão parca, tão frágil, tão pobre, não tem o condão de recuperar o tempo perdido. Nem a literatura, coitada, essa senhora tão pretenciosa. Este livro não é uma tentativa de recuperação de nada. Não é uma tentativa de salvação de nada. Este livro é só um testemunho, afônico, agônico, de que tudo passa: as amizades, as lutas, os medos, os sonhos”. (p. 239)  

                                                                                                           


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

VIAGEM À IRLANDA, REINO UNIDO (PAÍS DE GALES, INGLATERRA), BÉLGICA E HOLANDA

Neste ano da graça de 2019 embarcamos no dia 4 de junho rumo à Irlanda e outros países, num trajeto que se iniciava em Dublin, atravessava o Mar da Irlanda para chegar ao Reino Unido e depois de passar por várias cidades inglesas, atravessava de novo o mar, no Canal da Mancha, para entrar posteriormente no continente europeu.

Uma primeira observação já pode ser feita agora: as travessias marítimas em questão são pura perda de tempo (mais de 4 horas), dada a monotonia da paisagem e o pouco interesse que despertam as atividades dentro dos dois navios de grande porte utilizados nessas travessias (bar, loja, caça-níqueis etc), imagino que semelhantes àquelas dos cruzeiros turísticos. Em consequência disso, concluí não ter interesse -- e essa é também a opinião de minha dileta esposa -- em fazer no futuro viagem desse tipo, coisa que ainda não fizemos (mas chegamos a cogitar em fazer).

Embarcamos assim dia 4 de junho, às 22 horas, no Rio de Janeiro num voo da Lufthansa, que nos levaria primeiro a Frankfurt, e depois, em outro voo da mesma companhia, a Dublin. Aterrisamos em Frankfurt cerca de 14:30 h do dia 5, o que perfaz mais de 16 h de voo, ou melhor 12 h, descontado o fuso horário. O voo antre Frankfurt e Dublin levou aproximadamente 1 hora. Assim, no final da tarde do mesmo dia fizemos o check in no hotel Maldron Parnell Square (endereço: Parnell Square West). Esse hotel situa-se ao norte de DUBLIN. Sabendo que a Irlanda produziu grandes escritores (Swift, Bernard Shaw, Oscar Wilde, W.B. Yeats, Beckett, Joyce etc), me interessou uma das atrações da cidade: o Writer’s Museum, a algumas quadras do nosso hotel. Chegamos a visitá-lo, mas o achamos um tanto decepcionante. Mostra apenas alguns manuscritos de escritores, objetos de seu uso. fotos, informações sobre eles etc.

Nossa lembrança de Dublin ficará associada, porém, ao rio Liffey, que corta a cidade de Leste a Oeste, e à O’Connell Street, uma das ´principais, que descemos caminhando desde o hotel até uma ponte sobre esse rio. Trata-se de uma importante avenida, com edifícios antigos, inclusive o do imponente Post Office, várias estátuas e muitas lojas. Andamos por ela, despreocupados, entrando e saindo dos estabelecimentos comerciais, com a curiosidade natural dos turistas em países estrangeiros por alguma novidade ou objeto diferente, não encontrado em seu país de origem. Fiquei admirado com o número de brasileiros que lá encontramos por acaso— um empregado de loja que se queixou do altíssimo preço de aluguel que pagava pela moradia (dividido por oito pessoas); um outro brasileiro era garçon no restaurante do hotel em que pernoitamos (ali, Rosi pediu a famosa cerveja irlandesa Guinness; dela, só provei um gole, tendo em vista a proibição que o médico me fez de ingerir bebida alcoólica). Uma moça na rua nos ouviu falando português e se aproximou, disposta gentilmente a nos orientar. Essa paulista estudava lá e trabalhava também em hotel. Não conhecia alguma daquelas atrações turísticas obrigatórias da cidade, certamente pela sua baixa remuneração (uma vez que é preciso pagar entrada, há o custo do deslocamento, é necessário disponibilidade de tempo etc). Andamos pelo campus da tradicional Trinity College (“a mais importante universidade irlandesa”, segundo li num guia, que também me informou que Dublin, capital da Irlanda, tem uma população de 500 mil habitantes, enquanto a Grande Dublin chega a 1 milhão, quer dizer, a cidade tem uma população bem menor que Curitiba, com seus quase 2 milhões de habitantes). Não chegamos a entrar no prédio dessa universidade onde está em exposição o famoso Livro de Kells, do século IX, pois se enfrentássemos a fila para ali entrar, não faríamos outra coisa em Dublin, dado o exíguo tempo de que dispúnhamos. Também conhecemos a charmosa Temple Bar street, cheia de bares, restaurantes e turistas.

Na livraria do Writer’s Museum comprei um livro sobre Joyce (“A Graphic Novel”) e numa loja da O’Connell Street, além de souvenirs, um outro livro—“A Pocket Biography of Yeats”.

Uma curiosidade: passeando por aquelas ruas, no centro de Dublin, constatamos um tipo de construção muito semelhante, em que as casas só diferem, umas das outras, pela cor viva das portas, amarelo. vermelho ou azul (que contrastam com a sobriedade geral dos edifícios). Consta que elas são assim para facilitar a vida dos seus ébrios moradores, quando retornam de suas noitadas...

Nesse dia dedicado a Dublin, visitamos ainda a National Gallery da Irlanda, onde admlramos telas de Picasso, El Greco e outros artistas, além de uma estátua de Bernard Shaw no saguão do museu, onde me fiz fotografar como se estivesse furtando algo de seu bolso. Depois, retornando a pé ao hotel, deparamos com uma manifestação contra Trump, que naquele dia estava em visita à Irlanda. Naturalmente, nos juntamos aos manifestantes. Trump ´é criticado num folheto que nos deram por negar a mudança climática, pelo seu racismo, misoginia, homofobia etc... No cabeçalho do folheto consta: ¨People before profit” e “Socialism for he 21st century”.

No dia 7, embarcamos pela manhã, bem cedo, num “ferry”, rumo ao Reino Unido. A travessia do Mar da Irlanda é demorada, leva mais de 3 horas. Viajamos no “ferry” Ulysses, que é um navio enorme, de 10 andares, em que os primeiros são usados para transportar carros e outros veículos. Foi aí que entrou e estacionou o ônibus que nos conduzia e no qual seguiríamos viagem pela Bélgica e Holanda. Os outros andares do navio são destinados ao conforto dos passageiros, pois além dos assentos estofados em torno de mesas (onde pessoas faziam lanche, adultos checavam o celular e crianças jogavam baralho), havia lojas diversas, máquinas caça-níqueis, bares, restaurantes etc

Atravessando o canal, chegamos a CAENARFON. no País de Gales. Vimos as paredes de um antigo castelo (deste só restaram aquelas) e percorremos suas ruas medievais. A pequena cidade recebeu o título de Patrimônio da Humanidade.

Após um lanche na praça central e compras numa loja (comprei aí um pequeno jogo de xadrez que me custou 10 libras), voltamos para o ônibus e continuamos a viagem, rumo a LIVERPOOL, na Inglaterra. Esta é uma cidade portuária, de 450 mil habitantes, mais conhecida por aqui por ser a cidade dos Beatles, fato que é bastante explorado em termos turísticos.

Perambulamos nesse final da tarde do dia 7 pelas ruas próximas ao hotel onde nos hospedamos. O tempo estava chuvoso, mas conseguimos visitar um lugar interessante, o “Cavern Club”, “recriação do bar que sediou as primeiras apresentações dos Beatles”, conforme fui informado. Descemos a escada até o porão e aí velhos e jovens bebiam ou se balançavam ao som (de altos decibéis) da música que acompanhava o guitarrista/cantor que se apresentava...

Pernoitamos no Novotel Liverpool, localizado em 40 Hanover Street.

Na manhã do dia 8, um sábado, deixamos Liverpool rumo ao Sul. A 145 km de Londres situa-se STRATFORD-UPON-AVON, a cidade natal de Shakespeare, onde passeamos debaixo de uma chuva fraca. Vimos a casa em que o grande bardo nasceu e viveu. Também estivemos na Holy Trinity Church, onde se encontra seu túmulo. À esquerda do altar, na parede lateral, há um busto seu, cuja réplica, em tamanho pequeno, de mesa, comprei na saída como souvenir (assim como comprei ,em Florença, o de Dante, os dois gigantes literários, tão diferentes entre si, santos da minha devoção....).

Ao retornarmos, não conseguimos encontrar o nosso ônibus. Perdidos em Stratford! Ficamos ligeiramente aflitos. Casualmente encontramos o nosso guia, que ia em direção ao ônibus e o acompanhamos.

À tarde, prosseguimos a viagem só parando em OXFORD, localizada a 87 km de Londres, nosso destino final deste dia. Fizemos uma visita rápida, de duas horas, a essa tradicional cidade universitária, passeando pelas suas ruas principais

Por volta das 18 h chegamos a LONDRES, onde nos hospedamos no hotel Ibis London Earls Court, em 47 Lillie Road. Ao contrário do que desejaríamos, esse hotel incluído no pacote que compramos, situava-se num bairro mais residencial, com alguns bares frequentados por jovens.

Na manhã do dia 9, domingo, fizemos uma visita panorâmica a essa grande cidade, com 7,7 milhões de habitantes, passando pelos locais obrigatórios-- Palácio de Buckingham (residência da rainha), Parlamento, cujo campanário abriga o Big Ben), Catedral de St Paul, Abadia de Westminster, Trafalgar Square, a sinistra Torre de Londres (onde no passado se mantiveram prisioneiros, muitos torturados e executados, e onde vários nobres morreram, inclusive duas esposas de Henrique VIII). Avistamos de longe a roda gigante London Eye, de onde se tem uma bela vista da cidade, que infelizmente não desfrutamos.

Visitamos a notável National Gallery e tirei fotos (a fim de me mostrar para os familiares) ao lado de algumas telas famosas, como “A Leiteira” de Vermeer), um autorretrato de Van Gogh etc. Na loja do museu, comprei alguns livros (“What makes great art”: 80 masterpieces explained” e uma nova tradução da “Divina Comédia”, a cargo de Robin Kirkpatrick. Também comprei um estória da arte para meus netos, um livro interativo em, que “stickers” devem ser destacados e colados nos lugares previamente definidos). Cheguei a pensar em passar o resto do tempo, neste dia, no museu, ainda mais por estar chovendo lá fora, mas não quis sacrificar Rosi, que queria ainda ver outras coisas.

 Lamentei não ter podido visitar o Museu Britânico, como pretendia. Seu acervo é muito grande, e refere-se a 2 milhões de anos de história, expostos em 94 galerias. Exige realmente muito tempo para visitá-lo mas poderia pelo menos ter selecionado alguns itens para ver, como os mármores que decoravam o Partenon em Atenas, a Pedra da Roseta, a Magna Carta; as múmias egípcias, por exemplo. Outro motivo para visitá-lo é o fato de que o filósofo Karl Marx frequentou a biblioteca do Museu durante muito tempo, e tal lugar por isso está associado à elaboração de sua obra, que é crucial para a compreensão do capitalismo. Conforme ressaltam seus biógrafos, Marx foi para Londres em 1849, e lá viveu todo o restante de sua vida. Faleceu em 1883 e foi sepultado no cemitério de Highgate. Morou, de 1874 até sua morte na Maitland Park Road, primeiro no nº 1, e depois numa residência menor, no nº 41.

Após o pernoite em Londres, tomamos, na manhã do dia 10, a estrada que liga Londres ao porto de Dover, a fim de atravessarmos o canal da Mancha No trajeto, visitamos CANTERBURY, “capital eclesiástica” da Inglaterra, 90 km depois de Londres. Infelizmente não pudemos visitar sua famosa catedral, pois estava em reforma (esse é um problema que ocorreu várias vezes em nossas viagens ao exterior). Só pudemos chegar até um portal de pedra que dá acesso à catedral, que vimos de longe. atrás dos andaimes. Nessa igreja, Tomas Beckett foi assassinado em 1170, tema da peça “Murder in the cathedral”, de T. S Eliot. Outra referência literária associada à cidade é a obra “Contos de Canterbury”, de Chaucer. A cidade era importante já no tempo dos romanos. Em 597 Santo Agostinho – o primeiro arcebispo de Canterbury foi para lá.

Depois dessa rápida parada, seguimos, ainda pela manhã, para Dover. A travessia do canal em “ferry” leva aproximadamente 1 hora e 15 minutos. Chegamos a Calais, na França, e seguimos viagem em nosso ônibus para a Bélgica.

Visitamos, muito rapidamente, duas cidades belgas: Bruges e Ghent (ou Gand). Dado que chegamos a BRUGES apenas no final da tarde desse dia 10 de junho, só pudemos circular pelo seu centro histórico, andando pelas estreitas ruas medievais e observando a Praça do Mercado, o campanário, a prefeitura gótica e outros prédios antigos. Entramos na Catedral de Bruges e admiramos seus belos vitrais. Vimos também alguns canais, com barcos repletos de turistas (“brugge” em flamengo significa “pontes”).

Compramos nessa cidade o famoso chocolate belga Neuhauss.

Bruges tem uma população de 117 mil pessoas. Foi importante centro comercial para a indústria do algodão no século XI e no final do século XIII era a principal ligação com o comércio do Mediterrâneo, tendo uma Bolsa fundada em 1309. No século XVI verificou-se sua decadência econômica.

Nosso pernoite em Brugges foi no hotel “Velotel Brugge”, localizado na Handboogstraat, 1.

No dia seguinte, dia 11. retomamos nossa viagem de ônibus, parando inicialmente para conhecer Ghent (ou GAND, em francês), a 1 hora de Brugges. Sua população é superior a esta (233 mil hab). Tinha muito interesse em conhecer Gand, pois foi em sua universidade que meu trisavô Jacob van Erven se formou em engenharia civil, no ano de 1871.

Passeamos pelo seu centro histórico, admirando os belos prédios ali existentes (catedral. prefeitura), e os canais. Uma curiosidade: em uma praça, havia um mictório público diferente, de modo que a cabeça e ombros do usuário ficavam visíveis a todos os transeuntes. Como eu estava necessitado, também o usei...

Segundo li, nos séculos XIII e XIV, Gand prosperou com o comércio de tecidos (até o século XIII era a segunda cidade da Europa, superada apenas por Paris). Nos séculos XVIII e XIX foi um importante centro industrial.

Passeamos pelo seu centro histórico, e admiramos os prédios antigos, de arquitetura típica. Nessa regiões, não há arranha-céus, como estamos acostumados a ver nas capitais brasileiras. influenciadas pelos EUA. Esses prédios têm no máximo uns 6 andares. Infelizmente não pudemos entrar na Catedral de São Bavo, de estilo gótico, para admirar os trabalhos dos irmãos Van Eyck e de Rubens. Em frente à catedral está a Torre Belfort e próximo a esta a “Stadhuis” (prefeitura).

Após essa parada em Gand (não superior a 2 horas), partimos rumo à Holanda, atravessando a região do Plano Delta (onde as terras foram conquistadas do mar). Até Amsterdã, faríamos duas escalas—uma em Middelberg e outra em Roterdã.

MIDDELBURG é a capital da Zelândia, uma das províncias da Holanda, ou melhor, dos Países Baixos (a Holanda é, na realidade, o nome de uma região dos Países Baixos). Almoçamos aí e passeamos por suas ruas. A cidade, assim como Roterdã, foi pesadamente bombardeada pelos nazistas em 1940, durante a II Guerra. Prédios históricos foram então estupidamente destruídos em Middelburg, como o edifício da prefeitura, do século XV, e o da guilda dos membros do corpo da guarda, de 1582. Depois da II Guerra foram parcialmente reconstruídos. Middelburg era um importante posto comercial da Companhia das Índias no séc. XVII.

À tarde, em terras abaixo do nível do mar, seguimos para ROTERDÃ, cujo porto é o segundo maior do mundo. A cidade possui uma população de 589 mil hab. Passeamos pelo seu centro urbano. Num mercado dessa região, compramos vários tipos de queijo holandês.

Roterdã também foi destruída na II Guerra, mas foi depois reconstruída, o que deu oportunidade ao surgimento de uma arquitetura vanguardista. Chamou-nos a atenção um tipo singular de edificação, as “Kij-Kobus”, casas em formato de cubo. Aliás, a arquitetura dessas principais cidades da Bélgica e Holanda, especialmente a antiga, mas também a moderna, como nesse caso, é muito interessante e merece ser estudada à parte.

Em AMSTERDÃ, antes de entrarmos no hotel, fizemos um belo passeio de barco pelos seus canais. Em nossa mesa, no barco, havia vinho e queijo à disposição. Enquanto eram degustados, um guia ia nos informando sobre diversos aspectos da cidade, cuja população é de 743 mil hab. Uma peculiaridade dos edifícios, de arquitetura característica, situados à margem dos canais, muitos deles antigos armazéns. Todos apresentam ganchos no topo da fachada, junto aos telhados, para que as mercadorias pudessem ser puxadas externamente para o andar respectivo (ou dele baixadas). Atualmente, quando ocorre uma mudança, a mobília é içada, ou rebaixada, da mesma forma.

 Registramo-nos, no final do dia, no hotel Holiday Inn Express em Amsterdã, situado próximo à arena do time de futebol Ajax. Compramos para nosso neto uma jaqueta com o emblema desse time (endereço do hotel: Hoogoorddreef 66 B).

No dia seguinte, 12 de junho, pela manhã, fizemos a visita panorâmica a Amsterdã, conforme estava programado. Vimos então os canais, a praça Dam, os parques e edifícios administrativos, além de visitar uma empresa de lapidação de diamantes. A praça Dam é o centro medieval da cidade. O Palácio Real era antes prefeitura. Luís Bonaparte morou aí, em 1808

À tarde, pretendíamos visitar a Casa de Anne Frank, construída em 1635, que exibe seu Diário famoso e mostra também a estante de livros que escondia passagem para o sótão e fotos que Anne recortava de revistas de cinema e colava na parede. Não pudemos entrar nessa Casa porque há muita procura e os ingressos devem ser comprados pela internet com bastante antecedência.

Em compensação, visitamos o notável Rijksmuseum, apenas algumas de suas 150 salas. Fiz questão de tirar fotos ao lado de telas por mim há muito conhecidas (e admiradas) de Rembrandt, Vermeer, James Ensor, Van Gogh etc Segundo li, esse Museu “abriga a maior e melhor coleção de pintura holandesa do planeta”.

Após o pernoite em Amsterdã, no dia seguinte, dia 13, iniciamos nosso retorno para o Brasil, via Frankfurt, também pela Lufthansa. Foi nesse voo de retorno que senti os primeiros sinais do descolamento da retina do olho direito (o do esquerdo já ocorrera em setembro de 2017). Segundo o médico me disse, a altitude e pressão da aeronave não contribuíram para o fato, nem mesmo o meu hábito de ler muito, e ver filmes. Aparentemente, tem a ver com a predisposição genética e o processo de envelhecimento. Como se tratava de emergência médica, no mesmo dia da chegada a Curitiba, 14 de junho, procurei o Hospital de Olhos. Se o descolamento tivesse ocorrido no início da viagem, toda a nossa visita teria sido prejudicada... Dos males, o menor!

sexta-feira, 31 de agosto de 2018


VIAGEM AO MÉXICO


            Em agosto de 2018 passamos (Rosi, eu e nosso neto Alexandre Júnior) uma semana na Cidade do México.  Partimos de Curitiba no dia 13 num avião da Avianca até Guarulhos e depois voamos pela Copa Airlines, uma empresa panamenha, até o destino final, após uma escala na Cidade do Panamá. O tempo de viagem foi de aproximadamente 6 horas, entre S.Paulo e a Cidade do México, já descontada uma hora da escala no Panamá. Assim chegamos no México por volta das 6:30 da manhã, hora local, do dia 14, uma terça-feira. Como há uma diferença de fuso horário de duas horas para menos, essa hora corresponde no Brasil a 8:30.   

            Hospedamo-nos num pequeno hotel (Hotel del Principado) na rua Londres, 42, bem localizado, porque próximo das duas principais atrações turísticas da Cidade: o Centro Histórico e o Bosque de Chapultepec. Entre essas duas regiões há o Passeo de la Reforma, uma bela avenida, com diversos monumentos históricos, que leva diretamente ao Bosque mas não àquele Centro, pois antes de chegar a este, é necessário avançar pela  Alameda Central, passar pelo Palácio de Belas Artes e percorrer algumas quadras das ruas que vão dar no Zócalo, como é chamada a Plaza de la Constitución, coração do Centro Histórico. Aqui estão localizados a Catedral, o Palácio Nacional e outros edifícios públicos interessantes.



Em frente à Catedral- Cidade do México
   
          O nosso hotel fica a meio caminho desses locais. Por isso, logo no inicio de nossa estadia lá fomos a pé rumo ao Zócalo, caminhando pela avenida Insurgentes, até o Passeo de la Reforma. Nesta moderna avenida há vários monumentos, como dissemos. Dentre eles se destaca aquele que homenageia os homens que lutaram pela independência do país, no topo do qual há a estátua dourada do Anjo da Independência. Também deparamos com o monumento a Cuauhtémoc, o último chefe asteca, torturado e morto pelos espanhóis, que chegaram em 1519 liderados por Hernán Cortez e destruíram, em alguns anos a cidade asteca de Tenochtitlán, fundada em 1325, que deu origem à atual Cidade do México (uma bela demonstração do avanço civilizatório europeu!...). Ainda no Passeo, encontramos o monumento dedicado a Colombo. Tirei uma foto de Ale Jr ao lado dessas duas figuras históricas. Há ainda nas cercanias uma escultura apelidada El Caballito que, segundo consta, relincha,  quando o mexicano passa por ele após beber muita tequila... Depois, seguindo pela  avenida Juárez, chegamos até o prédio do Palácio de Belas Artes, considerado “o mais belo edifício do Centro Histórico”. Só o prédio já é motivo de contemplação, mas na realidade formos até lá para apreciar as obras de Siqueiros (“Nova Democracia”), Orozco (“Catarse”) e Rivera (“Homem, Senhor do Universo”, onde aparecem as imagens de Lenin e Trotsky. Rivera reproduziu ali o mural que concebera para o Rockfeller Center, em Nova York e que causara polêmica pela inserção nele da figura de Lenin, não prevista inicialmente. O pintor acabou sendo demitido pelo milionário cujo nome está associado àquele Centro e o mural, destruído. Há porém vários outros trabalhos de Rivera nos EUA (Detroit, San Francisco), onde ele morou e foi prestigiado.



"Nova democracia" de Siqueiros. Palácio de Belas Artes. Cidade do México. 

Nas proximidades, localizam-se duas outras atrações, que visitaríamos no último dia de nossa estadia: a Torre Latinoamericana, onde os interessados pagam para observar, do 42º andar, toda a cidade. Trata-se de um prédio moderno, que não foi afetado pelo grande terremoto de 1985. As fotos da exposição que ali se encontra mostram a torre ereta no meio de escombros.  Visitamos também a Casa de los Azulejos, um prédio muito antigo (é do século XVI) mas bem conservado, interessante não só pelo seu exterior, que é inteiramente revestido por azulejos azuis e brancos, mas também pela decoração interna. Dentro dele, há um restaurante e diversas lojas. Com alguma dificuldade, localizamos o mural de Orozco (“Onisciência”) em uma de suas paredes.   

             Umas sete quadras adiante do Palácio de Belas Artes fica o Zócalo. Essa grande praça estava tomada por inúmeras barracas onde se vendia de tudo, desde alimentos até produtos industrializados de consumo popular. A princípio estranhei que tal ocorresse, uma vez que estragava a estética daquele conjunto urbanístico, cartão postal da Cidade, que reunia a imensa fachada da Catedral Metropolitana, o Palácio Nacional de Governo e outros prédios. Mas logo pensei-- o que é  mais relevante socialmente, atender o interesse de uma grande massa de pequenos comerciantes participantes daquela feira (de caráter temporário) ou a sensibilidade estética de turistas egoístas?...

            Além da Catedral Metropolitana, visitamos o Palácio Nacional, não porque ainda abriga o gabinete do Presidente da República mas por um motivo muito mais importante. O Palácio contém, logo na entrada, um grande mural de Diego Rivera, concluído em 1935, relativo à história do México, abordando a época pré-hispânica, o período que vai da chegada dos espanhóis até 1930 e “O México, Hoje e Amanhã”, em que o comunista Rivera incluiu  imagens de Marx, e do livro “O Capital” nas mãos de um cidadão, além da esposa do pintor, Frida Kahlo, e da irmã dela. As imagens marxistas nas paredes do palácio do Presidente da República surpreendem o turista brasileiro, que durante a ditadura militar no Brasil tinha receio de pronunciar o nome de Marx ou de citar “O Capital”! Fiquei imaginando, num devaneio anacrônico, como as pessoas reagiriam a tais imagens nas paredes do Palácio do Planalto, em Brasília... No primeiro andar, há outros murais de Rivera, realizados posteriormente. Num deles, concluído em 1951, Hernán Cortez aparece comprando de um outro europeu uma mulher nativa (seria La Malinche, que foi sua amante e lhe serviu de intérprete?) e é representado com uma cor azulada, doentia (de sifilítico, segundo nosso guia). Um outro mural mostra ao fundo a cidade de Tenochtitlán....A  propósito, li em algum lugar que o Palácio Nacional foi construído no mesmo local onde antes havia o do imperador asteca Montezuma. E que as pedras dos templos destruídos de Tenochtitlán serviram para construir as igrejas da Cidade do México. 

Nesse mesmo Centro Histórico, ao lado do Zócalo, vimos também as ruínas do Templo Mayor asteca. Caminhamos por ali ao som dos realejos, pois sobrevivem nessa área tocadores deles, com sua farda bege característica, enquanto um auxiliar estende o quepe para pedir donativos aos transeuntes. Outra peculiaridade dessa extensa área do Centro Histórico são os “ciclotaxis”, pequenos veículos cobertos, com três rodas, movidos por um ciclista. Parece-se com um riquixá asiático. Um deles facilitou o nosso deslocamento nessa região. Cobrou 50 pesos mexicanos (o valor deste é aproximadamente um quarto do real brasileiro) para nos levar até a Secretaría de Educación Pública, pois queríamos apreciar os inúmeros murais de Rivera ali existentes.  Como se sabe, esses grandes pintores mexicanos, devido a razões ideológicas (eram de esquerda), preferiram os murais a pinturas de cavalete (embora também tivessem trabalhado nessa modalidade) visando facilitar o seu acesso à grande massa do povo . A vantagem disso é que podemos hoje apreciar suas obras simplesmente visitando os prédios onde funcionam órgãos do governo sem pagar por isso...  Dentre os muitos murais de Rivera que pudemos ver aí lembro daqueles que mostram trabalhadores na entrada de uma mina, ou produzindo açúcar e “O Arsenal”, em que Frida Kahlo aparece distribuindo armas para os correligionários.  

Ainda nessa região do Centro Histórico, vale mencionar a visita que fizemos ao prédio da Suprema Corte de Justiça. O dia não foi muito apropriado uma vez que havia uma manifestação na frente dele. Mas conseguimos entrar pela porta lateral  para ver os murais que abrigam, um dos quais é de Orozco.   



A Pedra do Sol asteca- Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México

Como outras grandes cidades do mundo, a Cidade do México tem um grande parque dentro dos seus limites. É o Bosque de Chapultepec, que conhecemos inicialmente fazendo um giro por ele num trenzinho destinado aos visitantes. Estivemos depois no Museu Nacional de Antropologia aí situado, que possui um grande acervo de arte pré-colombiana, e tiramos foto ao lado da famosa Pedra do Sol. Segundo li sobre esta, seus “entalhes contam o início do mundo asteca e predizem seu fim”. No centro há a imagem do deus do sol. Em torno dele, há quatro pequenos quadrados que simbolizam os quatro sóis que já existiram. Os astecas achavam que viviam então durante a vigência do quinto sol... A propósito, vendo essas peças de arte pré-colombiana, muitas delas de cerâmica e de pequeno porte, lembrei meus tempos de estudante secundarista, quando frequentava a Escolinha de Arte do Colégio Estadual do Paraná e trabalhava com argila, fazendo pequenos trabalhos, que depois de passarem pelo forno, solidificados, levava para casa. Me deu vontade de voltar a trabalhar com argila...


Também visitamos nesse Bosque o Castillo de Chapultepec, onde residiu o infausto imperador Maximiliano, o arquiduque austríaco que os conservadores aliados dos franceses de Napoleão III colocaram no trono. Mas isso só por alguns anos, pois eles foram derrotados pelos liberais de Benito Juarez, que restauraram a república e executaram Maximiliano. Vários presidentes também aí residiram. Assim, num lado o Castelo mostra os aposentos e objetos pessoais de Maximiliano e esposa; em outro, sedia o interessante Museu Nacional de História, onde entramos no clima das diferentes épocas auxiliado pelas telas de pinturas ali expostas. O edifício também abriga murais. O mais notável é o visto logo na sua entrada, de autoria de Siqueiros. Intitula-se “Do Porfiriato à Revolução” e aborda, do modo expressionista característico do pintor, temas inspirados na história mexicana, da ditadura de Porfírio Diaz até o movimento revolucionário iniciado em 1910.




Bustos de Hernán Cortez e Cuauhtémoc . Museu Nacional de História. Cidade do México.
















Ainda no Bosque de Chapultepec está instalado o Museu de Arte Moderno, cujo acervo inclui o famoso quadro de Frida Kahlo—“As duas Fridas”, em que uma Frida europeia, frágil, alimenta com seu sangue a Frida nativa, mexicana, autoconfiante, e por isso mais forte. A diferenciação entre as duas se faz pela indumentária delas. Como se sabe, o pai de Frida era um fotógrafo alemão, um europeu, portanto, que casou com uma mexicana.

"As duas Fridas", por Frida Kahlo. Museo de Arte Moderno. Cidade do México.
Reservamos três dias para passeios contratados. O primeiro, logo no início de nossa estadia na Cidade do México, abrangeu uma visita guiada a vários locais interessantes, já referidos acima, além de um outro, ainda não mencionado-- o da Basílica de N. Sra. de Guadalupe, padroeira do México. Compramos ali souvenires para nossos parentes e amigos católicos.

O segundo passeio contratado foi a Teotihuacán, situada a 49 km da Cidade do México, um local em que permaneceram certos vestígios de sua antiga civilização, bem anterior à dos astecas (iniciou antes de Cristo e perdurou até o ano 650 de nossa era). Eles consideravam sagrada essa cidade de Teotihuacán. Dentre os vestígios, podem ser citadas as pirâmides do Sol e da Lua, a Avenida dos Mortos etc.  Nesse local encontram-se muitos vendedores ambulantes que oferecem, de modo insistente, aos turistas seus  produtos de artesanato. São realmente belos produtos, que usam os abundantes recursos minerais do México. Os preços reduzem-se bastante no processo de barganha. Compramos deles uma imagem do deus sol em obsidiana e uma máscara asteca de miquelita. No almoço, um conjunto mariachi cantou para nós músicas regionais, e o casal colombiano que estava conosco cantou junto, demonstrando saber a letra da canção. Aliás, foi com esse casal que Ale Jr subiu todos os degraus da Pirâmide do Sol, indo até o seu topo, uma vez que os avós não se sentiram em condições físicas de acompanhá-lo na proeza... Se o povo dali tinha o mesmo costume de seus pósteros astecas, nesse topo, ou altar, muitas vidas devem ter sido sacrificadas aos deuses sedentos de sangue humano, a quem era oferecido o coração das vítimas, arrancado do peito na cerimônia religiosa... 


A Pirâmide do Sol, em Teotihuacán. 

      O terceiro passeio consistiu numa ida até Coyoacán, nos arredores da Cidade do México, a fim de conhecer o bairro em que nasceu, viveu parte de sua vida e morreu Frida Kahlo. Estivemos em sua casa, a Casa Azul, hoje um movimentado ponto de atração turística, com gente de todas as partes do mundo (felizmente, pela idade, tivemos atendimento preferencial; caso contrário, teríamos que enfrentar uma fila quilométrica para entrar). O sujeito fica quase constrangido de penetrar no interior dessa casa e privar, por alguns momentos, da intimidade da vida da artista, vendo seus objetos de uso pessoal, sua cadeira de rodas, seus livros nas estantes (um deles, aliás, era sobre o brasileiro Portinari), sua copa/ cozinha pintadas de amarelo vivo (chão, móveis etc), que contrasta violentamente com o azulão das paredes exteriores da casa... No amplo quintal, há uma lápide alta onde está escrito o nome de Trotsky e sua esposa. Ali foram depositadas as cinzas do casal, que esteve hospedado naquela casa, juntamente com o casal Rivera-Frida. Como se sabe, Rivera pediu ao presidente Lázaro Cárdenas que o México concedesse asilo político para Trotsky, o que foi obtido.


Na Casa Azul de Frida Kahlo. Coyocán. Cidade do México. 


Dali seguimos para a Casa Museu Leon Trotsky, não muito distante da primeira, para onde Trotsky se mudou, depois de deixar a Casa Azul. Também aí são mantidos os aposentos (quartos, escritório, banheiro, etc) do jeito como eram quando o líder da Revolução Russa os ocupou. Foi nessa casa que ele foi assassinado em 1940 por um estalinista sectário...  



Na Casa-Museu León Trotsky

          No trajeto de ida a esses locais, ou na volta, para aproveitar a proximidade, paramos em três ocasiões: 1) para ver o Estádio Azteca, de futebol, onde o Brasil sagrou-se campeão mundial em 1970; 2) no Museo del Anahuacalli, criado pelo casal Rivera-Frida, que reúne sua coleção de peças de arte pré-colombiana e 3) no Museo Dolores Olmedo Patiño, que abriga uma bela coleção de telas de Rivera, e outros artistas, além de peças de arte asteca, maia etc. É uma antiga mansão de amplos jardins, onde vivem pavões e outras aves, além de, numa área cercada, cães xoloitzcuintle, uma raça de cães sem pelos, em extinção, que segundo a mitologia local era o cão dos infernos.

         Uma palavra final sobre o povo mexicano, tão marcantemente indígena na aparência. Tivemos a melhor impressão dele. Todas as pessoas com quem falamos, pedindo informação ou por qualquer outro motivo, foram muito amáveis, contentes de nos serem úteis.  Lembraram-nos o povo brasileiro...                                                                                                                        



Nos jardins do Castillo de Chapultepec