sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

EMILIANO PERNETA, POETA ANSIOSO PELA REVELAÇÃO DO MISTÉRIO


Neste artigo tentarei indicar o que me parece ser o caráter essencial da obra poética madura de Emiliano Perneta (1866-1921), obra essa representada pelo livro “Ilusão”, publicado em 1911, pelo poema dramático “Pena de Talião” (1914) e pela coletânea póstuma “Setembro” (1934).

EP é o poeta da ilusão. Para ele, nosso mundo é de aparências, está envolto pelo “véu de Maia”, conforme a concepção hinduísta, cuja presença é mais evidente em seu livro de estréia—“Músicas” (1888). Por traz do mundo ilusório, existe um outro mundo, que ele não sabe precisar como é, mas ao qual sente pertencer (“Vozes”). O outro mundo, que também contém elementos da tradição judaico-cristã (o pai de EP era cristão-novo), é o mundo do espírito, promessa de felicidade e alegria, já presentes na beleza que todo artista busca e quase nunca alcança. EP pensa como Stendhal que “La beauté est une promesse de bonheur” e como John Keats, para quem “A beleza é uma alegria eterna”, epígrafes que escolheu para dois de seus poemas. Esse outro mundo é o da plenitude da beleza, o da realização do artista, o da glória, que o artista tanto almeja.

Mas EP é também o poeta da natureza, das “florestas de símbolos” (cf. o soneto “Correspondances”, de Baudelaire) que permitem entrever uma outra dimensão da realidade, pois o mundo material corresponde ao mundo espiritual. O poeta procura apreender os sentidos que a natureza apresenta, e não o conseguindo – dadas as limitações de sua contingência -- atribui a ela os que decorrem de seus próprios “estados d’alma”. O poeta se sente unido à natureza, ela é o seu verdadeiro lar na Terra e lhe fornece uma referência estética permanente.

Nas poucas referências explícitas à paisagem local, EP refere-se ao pinheiro “como uma taça erguida para a luz” (“Iguaçu”), associando-o à elevação do espírito. E no final do poema “Sol”, outra bela amostra de como lida com os elementos da natureza, expressa-se deste modo: “—Ah! Que sombria dor e que profunda mágoa/ De não poder ser eu aquela gota d’água,/ Que depois de fulgir, assim como uma estrela,/ Derrete-se na luz, funde-se dentro dela!”. “Fulgir como uma estrela” bem expressa o seu ideal de vida superior, antes da inevitável extinção, quando se integrará fisicamente na natureza... “Setembro”, cujos dísticos fazem o elogio da vida no campo, é outro poema que pode ser aqui destacado, embora composto em tom diverso, com versos mais espontâneos e diretos (“Vestido de aldeão, com o meu chapéu de palha,/ Eu vi quanto era bom um homem que trabalha.”) .

EP é o poeta voltado para a própria condição do artista neste mundo, que
é dominado pelos bárbaros, inimigos do bem e do belo (os bárbaros não se identificam com nenhuma classe social em especial na sociedade burguesa em que vivemos, eles estão presentes em todas elas). O poeta para EP é o cavaleiro andante de outrora empenhado no bom combate, em luta pelas nobres causas estéticas e éticas, que acabam se fundindo numa só causa. Ele sabe que está previamente condenado neste mundo. Não obstante, prossegue em sua luta (“Dama”). Para não conviver com os bárbaros, faz o elogio da solidão. É, por isso, poeta-torre-de-marfim, sim (“Solidão V”), mas também o do elogio da vida simples, de aldeia, da gente humilde sem preocupações estéticas ou metafísicas, que tanto o inquietam e fazem dos artistas seres infelizes (“Solidão I a IV”).

O poeta, além de cavaleiro andante, assume as personae de rei (cf. “Salomão”, soneto bem concebido, em que a imagem final sintetiza todas as suas aspirações inalcançáveis), de D.Juan (cf. a série de oito sonetos sobre ele), de Erisicton, o personagem mitológico cuja fome era tão insaciável que passou até a devorar a si mesmo (“A fome de Erisicton”) e de eremita, intrigado com a solução do Mistério (“O enigma”).

EP é o poeta do tédio imotivado, do “spleen” baudelaireano, da inquietação existencial (“Amor cinzento”), cujo motivo reside, em última instância, na aspiração pelo “outro mundo” -- pátria do seu espírito -- e no seu desajustamento a este, em que vive, que lhe é hostil. O seu próprio fim não o atemoriza, pelo contrário o atrai (“Corre mais que uma vela...”), porque é um pré-requisito para conhecer (ou não) a revelação do grande mistério da condição humana, e do mundo. Muitos poemas de EP buscam meios de evasão para tal estado psicológico. Isso levou Tasso da Silveira a chamá-lo “poeta de evasão”. Assim, ele é também poeta do amor sensual, pois busca alívio para o tédio nos braços da mulher, é poeta da ânsia de viajar, “seja para onde for” (“Versos para embarcar”), é ainda poeta do elogio à embriaguez, seja pelo vinho ou pela arte, saídas para tal condição deplorável (quanto à salvação pela arte, EP poderia dizer, como Flaubert, que “A vida é tão horrível que só se pode suportar, evitando-a, o que se consegue vivendo no mundo da arte.”)

J.G.Merquior afirmou: “Perneta é antes de tudo um bom lírico-erótico”. De fato, muitos versos (como aquele “Tarde de olhos azuis e de seios morenos” de “Baucis e Filemon”, repleto de cativantes sinestesias) e alguns de seus melhores poemas (como “Versículos de Sulamita”, “Adultério de Juno” e “Esse perfume”) têm realmente esse caráter (a simples menção do título desses poemas já mostra a importância em EP da mitologia bíblica e greco-latina, que ele soube explorar habilmente). Esse lado lírico-erótico de EP, contudo, é bastante paradoxal, considerando-se que ele supervaloriza o espírito e menospreza a matéria. Porém o ecletismo é uma característica marcante do poeta paranaense, tanto em termos filosóficos quanto estéticos ou religiosos. Assim, ele não é só poeta simbolista, mas também romântico e parnasiano. É ateu em seu primeiro livro, hinduísta (donde decorre a concepção de que tudo é “maia”, ilusão, em sânscrito), panteísta e posteriormente cristão assumido (mas não católico, ou vinculado a qualquer outra religião organizada). Seus melhores poemas religiosos são os dois dedicados à Virgem Maria (“Em seu louvor” e “Graças te rendo...”) e “Oração da noite”, que Brasílio Itiberê II musicou.

EP é poeta que evolui para uma concepção mais elevada do amor – a do amor ao próximo (“Para que todos que eu amo sejam felizes”), resultante de sua opção humanista, que se acentua no final da vida, quando se revela então dotado das virtudes cristãs da fé e da esperança diante da precária (e misteriosa) condição humana, objeto principal de sua expressão poética.
(Publicado no "Jornal da Biblioteca"- nov. 2003)

OBS- quem tiver interesse em conhecer mais a produção poética de Emiliano Perneta poderá agora adquirir o livro "A poesia de Emiliano Perneta", de Domingos van Erven, no link https://www.agbook.com.br/book/138402--A_POESIA_DE_EMILIANO_PERNETA


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

POEMAS INÉDITOS DE HELENA KOLODY



Durante alguns meses, em 1966, amigas comuns de meu pai, o escritor Herbert Munhoz van Erven (1908-1985), e de Helena Kolody (1912-2004), em visitas freqüentes a nossa casa, reaproximaram espiritualmente os dois, pela troca de poemas. Tenho em meu poder alguns deles, escritos por Helena, que transcreverei mais adiante, por terem permanecido inéditos até agora. Fazem parte de um livro que ela preparou, “Appassionata”, destinado a ser póstumo, cujos originais, que cheguei a ver, seriam confiados a seu médico particular, segundo Helena mesma me disse.

São poemas dedicados a meu pai (referido na dedicatória pelas iniciais que ele adotava- H.M.v.E.), que foi seu noivo por dois meses, em 1945, três anos antes dele se unir a minha mãe. Tinha então 37 anos, e ela 33. No ano anterior, meu pai lançara seu livro de maior repercussão, “Lisímaco”, considerado pelos autores da antologia ”Letras Paranaenses” como uma das duas melhores biografias já escritas no Paraná (a outra seria “Emiliano”, de Erasmo Pilotto). Talvez devido àquela repercussão mesma, Herbert tenha sido convidado à sessão do Centro de Letras do Paraná onde os dois se conheceram. E desse encontro nasceria o seu curto mas intenso relacionamento.

Ficaram noivos em 16 de abril, dia do aniversário dele. Nesse mesmo dia, segundo meu pai, ocorreu o casamento de Olga, irmã de Helena, com o astrônomo chileno Carlos Muñoz Ferrada, então residente em Curitiba. O aniversário/noivado foi comemorado na residência dos pais de Herbert, que moravam pouco acima do Círculo Militar de Curitiba.

O noivado só durou dois meses. Por que acabou?

A explicação está intimamente relacionada à psicologia de Herbert e seu comportamento boêmio, próprio do meio social que freqüentava, formado por jornalistas, escritores e artistas.

Meu pai tinha uma personalidade muito suscetível e peculiar. Qualquer observação, feita ao acaso, poderia lhe atingir profundamente. Uma vez por exemplo o escritor Raul Gomes (mais velho, de uma geração anterior) fez um comentário que ele não gostou, em que o advertia (certamente pelo seu comportamento boêmio) sobre os cuidados que deveria ter ao se relacionar com Helena, “que era uma florzinha”, uma pessoa muito sensível e delicada. Helena, nessa época, já lançara seu primeiro livro (“Paisagem Interior”, de 1941) e tinha muitos “donos”, admiradores de sua poesia. Isso devia conflitar com o amor possessivo e superprotetor de meu pai, que exigia exclusividade nesse campo... Mas boa parte dos admiradores de Helena era formada pelas suas alunas e ex-alunas da Escola Normal...
Por outro lado, havia a questão do comportamento boêmio. Herbert passava muitos dias sem sair de casa, lendo e escrevendo. Mas quando saía, e se reunia com seus amigos do meio jornalístico e literário (gente que bebia muito naquele tempo, quando ainda prevalecia um certo espírito romântico na profissão), era inevitável que se excedesse na bebida, o que certamente causou problemas no relacionamento do casal.

Assim, em decorrência desses fatores, o casal resolveu desfazer o noivado (curiosamente, a iniciativa foi dele e não dela). Mas eles permaneceriam bons amigos, inclusive trocando correspondências sobre assuntos literários.

Apesar da separação, contudo, Helena continuou amando-o. Segundo ela me disse, ele foi o seu grande (e único) amor...

Na seqüência constam alguns poemas escritos para ele, aqui divulgados pela primeira vez.

O primeiro deles bem reflete a concepção cristã do mundo adotada por Helena, e também por meu pai:


LUZ DO AMOR ETERNO

Raio de luz a transpassar-me,
É Deus que te ama em meu amor.

E te ama dum amor tão alto e tão profundo
Que não quis encerrá-lo
Na argila perecível deste mundo.

Plasmou-me em carne, apenas
Para formar o coração.
E foi preciso transformar em asas
Os braços carinhosos.

Mas no tempo imarcescível
Da ressurreição,
Nossas almas,
Duas centelhas puras, palpitarão unidas
No mesmo Eterno Amor.

A propósito do poema acima, Helena escreveu: é “lembrança de 9-4-45. Remembrança também de uma sexta-feira santa, em 45, 30-3”. As datas marcam certamente eventos importantes para eles, cujo significado todavia desconheço.

O poema seguinte, escrito em 28-29/03/1966, é réplica a um outro, de meu pai, composto de várias quadras, em que ele lembra um dos encontros que tiveram, numa tarde chuvosa e fria, referindo-se aos seus cabelos louros, encrespados, e à capa azul que ela então usava. No final, afirma que se sublimou em fraterno aquele amor que sentiu...


CÂNTICO DOS CÂNTICOS
Mar ignorado sou,
Amado meu,
Mar ignorado,
Ilha intocada.

Meu amigo, meu irmão:
-- Por que se inquieta o teu coração,
A arder em zelos?

Guardo meu lírio para o jardim eterno.
Conservo minha lâmpada acesa.

-- Como és sábio meu amado,
Como és culto e inteligente!

Águia entre os falcões
É o meu amado entre os homens.

-- Por que se inquieta o teu coração
E se consome em ciúmes?

Su’alma beijou a minha
Num longo olhar de amor.
Gravei seus olhos em meu coração.

A eternidade teceu entre nós
Sua tênue trama de ouro.
Quem poderá separar
Su’alma da minha?

Meu amigo, meu irmão:
-- Por que se inquieta o teu coração?

Meu amado é como um pinheiro
Na outra margem do rio.
De longe lhe envio minhas canções
Banhadas de lua cheia.

E meu amor é lua, é pássaro e canção.

-- Por que se inquieta o teu coração?

Os poemas abaixo são de alguns meses mais tarde:

Quando leio teu nome
bóiam as letras
nas minhas lágrimas.

Mendiga,
busco o vestígio de teu olhar
nos olhos que te fitaram.


Quando leio teu nome
as letras cintilam, tremem:
estrelas boiando em lágrimas.
15.06.66



ILUMINURA

Um “H” em ouro e púrpura.
Iluminura de sonho
No missal do coração.
18.06.66



REPUXO ILUMINADO

Em hastes de cristal,
Irisadas flores d’água
Crescem efêmeras
17.07.66


O poema transcrito a seguir foi intitulado “PARA A ‘APPASSIONATA’” (o livro destinado a ser póstumo), e está datado de 19.07.66:


Vivo como se dormisse
A sonhar contigo
Para sempre.

O mundo é um rumor longínquo
De mar em ressaca
A quebrar-se nas amuradas
Do meu castelo sem pontes.


Por fim, guardo ainda cópia do poema seguinte, não datado mas pertencente à mesma época, como indica o primeiro verso:


SAUDADE

Há vinte anos não ponho nos teus olhos,
numa carícia azul, o meu olhar.
Nunca mais tuas mãos fortes e esguias,
aquecerão as minhas.
A saudade, esta aranha tecedeira,
arma, de novo, o nhanduti do sonho
com o mesmo fio de outrora.
E a alma se enreda na trama sutil,
como se fosse agora.


Como já disse alguém, as histórias de amor mais belas são aquelas do amor que não se realizou...





OBS- informações sobre a vida e a obra de Herbert Munhoz van Erven constam do site http://hmve.blogspot.com