segunda-feira, 9 de junho de 2014





“HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA”

                                                                                          

            É sabido que na obra literária forma e conteúdo compõem um todo inseparável. O artista da palavra, ao criar um conteúdo, está ao mesmo tempo criando a forma que melhor o expressa. No caso desse livro de Saramago,  publicado pela primeira vez em 1987, a forma encontrada destaca-se pela sua originalidade e salienta muito bem as questões que levanta para a reflexão do leitor.  Que se depara com uma técnica narrativa inovadora e uma linguagem cativante, apesar dos tropeços na leitura devidos não só ao português de Portugal mas também às suas ressonâncias medievais...

            O autor narra duas histórias simultaneamente. A primeira é a de Raimundo Silva, que trabalha há muitos anos para uma editora e acaba de revisar um livro relativo ao cerco de Lisboa, quando a cidade estava em poder dos mouros e foi reconquistada pelos portugueses com auxílio dos cavaleiros cruzados. Mas o veterano revisor decide, intencionalmente, alterar uma palavra do texto original, substituir um sim por um não, de modo a negar o apoio dos  cruzados à reconquista da cidade. Esse ato, aparentemente gratuito, está na base de todo o desenvolvimento futuro da trama e define, a meu ver, o significado maior da obra...  

            Raimundo não será demitido da empresa em que trabalha por causa dele. E atrairá a atenção da chefe dos revisores, cargo recém criado na editora, certamente para evitar que novas falhas desse tipo ocorram no futuro. Ela se chama Maria Sara, e os dois acabarão por se envolver amorosamente, mais por iniciativa dela, haja vista os receios e retraimento desse homem de meia idade que, apesar de atraído por ela, tem dificuldade de expressar seu sentimento.   

            A outra história narrada no livro é a do cerco de Lisboa excluindo a ajuda dos cruzados à sua reconquista, que Raimundo passa a escrever, por sugestão da arguta Maria Sara, de forma bem realista, sem triunfalismo. É uma história coerente com a alteração que fez na obra historiográfica cuja revisão esteve a seu encargo. Assim, o livro de Saramago narra essa outra história em processo de elaboração, paralelamente à da vida monótona do revisor, vida essa que vai ganhando cor à medida que evolui o seu caso de amor com Maria Sara.

            A primeira história progride mas em certo momento é substituída pela segunda. Logo adiante, porém, a primeira é retomada. E assim o livro prossegue até o final, intercambiando-se as histórias. A ação da obra passa-se portanto em dois tempos e dois espaços: o nosso próprio tempo e o de 1147, o espaço da Lisboa contemporânea e o da cidade no passado.  Em 1147 Portugal está nos primórdios de sua história. Ainda reinava seu primeiro rei, D. Afonso Henriques, aliás comandante das tropas que estão sitiando Lisboa (ele vem de uma outra reconquista, a de Santarem).  Quanto ao espaço, a obra oscila entre a Lisboa contemporânea de Raimundo Silva, e suas inúmeras referências a determinados locais da cidade de importância histórica, àquela outra Lisboa, a dos mouros sitiados, que integravam uma grande população residente dentro de suas muralhas.

            Essas historias são contadas numa forma peculiar, de longos parágrafos, às vezes de quase uma página, em que as frases se sucedem, reconhecíveis pelas letras maiúsculas após vírgulas e não pontos. Nesses parágrafos estão embutidos os diálogos dos personagens.

            No texto está muito presente a ironia, o humor refinado e o gosto pela língua em que é escrito, cujas características são exploradas, às vezes ludicamente. É uma escrita muito consciente da própria linguagem, que saboreia as peculiaridades do nosso idioma, e faz uso frequente dos ditados populares e  das expressões consagradas.

            Mas o que dá sentido à obra, na minha opinião, é aquela substituição do sim pelo não referida acima. Ao fazer isso o revisor sai de sua passividade, exercida ao longo de muitos anos pelo correto desempenho de suas funções. Ousa intervir no mundo, e assumir as consequências de seu ato.

            Raimundo, significativamente, contentara-se em ser um mero revisor, quando já tinha demonstrado qualidades de escritor em textos antigos, descobertos por Maria Sara nos arquivos da editora. Ele optou por ser apenas revisor para recolher-se à sua passividade, refugiar-se na sua rotina cômoda, e não se comprometer como é exigido dos escritores. Mas Maria Sara, que  compreende bem a sua personalidade (escondida por trás de seu formalismo e retraimento) e a motivação de seu ato, sabe que ele vive na realidade aquém de si mesmo. Sugere assim que ele escreva a sua versão da história do cerco de Lisboa, que contradiz a versão consagrada, projeto que ele enfim abraçará.

            Saramago, ao fazer seu personagem explorar a hipótese-- e se não houvesse a participação dos cruzados, como seria relatado esse evento histórico? – entra no domínio da ficção.  O livro que Raimundo escreve não é, assim, apenas de reconstituição histórica; é também literário, ficcional, o que fica bem evidente, por exemplo, na relação imaginada do soldado Mogueime com Ouroana, a ex-barregã de um cavaleiro cruzado morto em combate, com quem Raimundo e Maria Sara se identificam (a propósito, cabem aqui duas observações: 1) como se vê pela afirmação que acabei de fazer, o livro de Raimundo não exclui totalmente a participação dos cruzados no cerco de Lisboa; 2) a palavra “barregã” é uma das muitas presentes no livro que exigem do leitor contemporâneo e/ou brasileiro a consulta ao dicionário).

            A elaboração desse livro de Raimundo dá a Saramago a oportunidade de levantar questões interessantes sobre a natureza da história e da ficção. Mostra os possíveis caminhos da narrativa, faz seu personagem optar por um deles, possibilita ao leitor participar da criação literária... Proporciona também um distanciamento crítico com relação à historiografia,  haja vista as incertezas que naturalmente envolvem um fato histórico tão remoto quanto aquele sobre o qual se debruça Raimundo, baseado em fontes medievais (crônica de Osberno e depoimento de D.Afonso Henriques— cf. a respeito o interessante ensaio contido em http://www.passenaufrgs.com.br/dicas/literatura/historia-do-cerco-de-lisboa-jose-saramago-resumo.pdf sobre a influência desses textos medievais na escrita do romance).

            O livro de Saramago, ao mostrar um ato aparentemente gratuito do revisor Raimundo Silva (mas que na realidade é simbólico) faz um elogio ao anticonformismo do ser humano na vida social, que está obrigado moralmente a exercer um papel ativo na sociedade em que vive.    

            Ao explorar esse “não” questionador a uma afirmação geralmente aceita pelos historiadores, o livro contém uma alternativa verossímil a ela, ao enveredar pelo terreno da ficção. Isso não é de estranhar pois um pressuposto da obra, como chega a dizer Raimundo Silva logo no início dela, é que a história é também literatura...


                                                                                                                       

quarta-feira, 19 de março de 2014






OBSERVAÇÕES SOBRE UM ARTIGO CURIOSO

No artigo abaixo transcrito (*),  publicado em “O Globo” de 18.03.2014, o autor (Rodrigo Constantino) sai em defesa dos liberais e conservadores, que não gostam de ser chamados (pela “esquerda radical”) de imperialistas, racistas, fascistas etc. Para se contrapor a esses esquerdistas, arrola uma série de citações de Marx e Engels extraídas do livro “O marxismo e a questão racial”, do cubano (exilado) Carlos Moore (onde, suponho, estão citadas as fontes originais dessas citações) que comprovariam a sua “visão imperialista ariana e racista” ...

 Supondo que sejam fidedignas as citações, é necessário situá-las dentro do devido contexto histórico e da perspectiva geral adotada por Marx e Engels, que é a da defesa do maior desenvolvimento do capitalismo e da luta de classes que lhe é inerente. Eles elogiam o capitalismo, na medida em que esse modo de produção representa um avanço brutal com relação ao feudalismo, e aos modos de produção anteriores. Representa um estágio superior de desenvolvimento das forças produtivas. O capitalismo é superior a todos os outros modos de produção que o antecederam. Mas ele também está condenado a desaparecer, em sua visão, substituído por um modo de produção mais avançado, que seria o socialista/ comunista, sobre o qual, aliás, Marx escreveu pouquíssimo, ao contrário do que muita gente pensa. “O Capital” propõe-se a fazer a “anatomia da sociedade burguesa”, isto é, a anatomia do  capitalismo. Essa lacuna em seu pensamento deu margem a que fosse utilizado, no século XX, de múltiplas, distorcidas e até criminosas maneiras na prática pelos que procuraram fazer o seu desdobramento ...  O desejado desenvolvimento do capitalismo explica, nas citações arroladas, o elogio à expansão imperialista dos EUA sobre o México, a defesa do papel econômico progressista da Inglaterra (então o país capitalista mais desenvolvido) na Índia, a conquista da Argélia etc.  Para Marx e Engels, o avanço do capitalismo, ao mesmo tempo que requer a destruição de estruturas atrasadas, lança as bases materiais da sociedade moderna em outras regiões do planeta (a tradição marxiana sempre viu o mundo de forma globalizada).  Trata-se, sim, de uma visão pró imperialista, na medida em que desejam que o capitalismo se expanda nessas regiões mais atrasadas, o que significaria para estas também um avanço, face à sua situação feudal ou de outra natureza. Querem que o capitalismo desenvolva todas as suas potencialidades, visando a sua substituição futura por um modo de produção mais avançado, de caráter socialista/ comunista. 

 A luta de classes, para eles, era inerente ao processo histórico. Ocorrera em todos os modos de produção. No capitalismo, a luta era entre a burguesia e a classe trabalhadora. E politicamente optaram por esta última, que, vitoriosa, levaria ao advento da nova sociedade. Assim, analisaram sempre as circunstâncias objetivas da Europa sob a ótica da classe trabalhadora. Entende-se assim a citação relativa ao posicionamento antifrancês na guerra franco-prussiana. Acharam que seria melhor para o movimento operário a vitória germânica, uma vez que a classe trabalhadora alemã estava mais organizada e conscientizada do que a francesa...   

 Quanto à escravidão, a julgar pelas citações, julgam-na como “uma categoria econômica de fundamental importância”. E a elogiam, pela sua contribuição ao progresso econômico da América do Norte. Embora reconheçam que ela tem um lado “mau”, veem a instituição da escravidão friamente, no que ela contribui para o desenvolvimento do capital. Sua visão, no caso, é a do economista clássico (lembremo-nos da definição de Carlyle, de que a economia é a “dismal science”, a ciência lúgubre ou sombria...). Enfatizam o lado “bom” da escravidão, quer dizer, era boa para o processo de acumulação do capital global, com base no comércio de escravos-mercadorias, sendo que a burguesia da época (cristã, naturalmente) considerou-a muito conveniente e a empregou extensamente na economia açucareira e cafeeira do Brasil, na  economia algodoeira do sul dos EUA, nas Antilhas e em outras regiões (a escravidão era vista então com naturalidade, e até a Igreja, as irmandades católicas, entidades filantrópicas etc possuíam escravos...)

 Quanto à citação em que afirmam “a superioridade dos arianos e semitas”, aqui, mais do que em outros lugares, é preciso analisar o devido contexto. Superioridade em quê? Não se trata certamente da superioridade absoluta, como queriam os nazistas, pois afirmam uma superioridade devida à alimentação (referem-se ao consumo de carne e leite), o que nos leva a um ponto de vista meramente físico, fisiológico... Uma “raça” mais bem alimentada certamente tem melhores condições físicas do que uma subnutrida, é “superior” a esta...  Mas é possível que haja racismo em seus textos. Afinal, eles são autores do século XIX!. E de lá para cá muita coisa evoluiu no campo do conhecimento relativo a essa questão, principalmente depois da tempestade nazista...

IMPERIALISTAS, ARIANOS E RACISTAS

Rodrigo Constantino

“Sem escravidão, a América do Norte, a nação mais progressista, ter-se-ia transformado em um país patriarcal. Apenas apague a América do Norte do mapa e você conseguirá anarquia, a deterioração completa do comércio e da civilização moderna.”
“A escravidão é uma categoria econômica como qualquer outra. Portanto, possui seus dois lados. Deixemos o lado mau e falemos do lado bom da escravidão, esclarecendo que se trata da escravidão direta, a dos negros do Suriname, no Brasil, nas regiões meridionais da América do Norte. [...] A escravidão valorizou as colônias, as colônias criaram o comércio universal, o comércio que é a condição da grande indústria. Por isso, a escravidão é uma categoria econômica da mais alta importância.”
“Talvez a evolução superior dos arianos e dos semitas se deva à abundância de carne e leite em sua alimentação.”
“Sendo que, comparado ao resto de nós, um nigger (crioulo) é o que há de mais perto do reino animal, ele é, sem nenhuma dúvida, o representante mais adequado para este distrito.”
“Os franceses precisam de uma surra. Se os prussianos vencerem, a centralização do poder de estado será benéfica para a centralização da classe trabalhadora alemã. A predominância germânica também deslocará o centro de gravidade do movimento dos trabalhadores na Europa ocidental, da França para Alemanha, e se apenas compararmos os movimentos nos dois países, de 1866 até agora, se verá que a classe trabalhadora alemã é superior à francesa, tanto no aspecto teórico quanto em organização.”
“A luta dos beduínos era uma luta inútil e, apesar da maneira com que soldados brutais, como Bugeaud, conduziram a guerra seja extremamente condenável, a conquista da Argélia é um fato importante e auspicioso para o progresso da civilização. [...] E se talvez lamentamos que a liberdade dos beduínos do deserto tenha sido suprimida, não podemos nos esquecer de que estes mesmos beduínos eram uma nação de ladrões.”
“Fomos espectadores da conquista do México e nos regozijamos com ela. [...] É do interesse de seu próprio desenvolvimento que ele seja, no futuro, colocado sob a tutela dos Estados Unidos. É do interesse de toda a América que os Estados Unidos, graças à conquista da Califórnia, assumissem o domínio sobre o Oceano Pacífico.”
“É lamentável que a maravilhosa Califórnia tenha sido arrancada dos preguiçosos mexicanos, que não sabiam o que fazer com ela? Todas as nações impotentes devem, em última análise, ser gratas àqueles que, cumprindo necessidades históricas, as anexam a um grande império, permitindo, assim, sua participação em um desenvolvimento histórico que, de outra maneira, seria ignorado a eles. É evidente que tal resultado não poderia ser obtido sem esmagar algumas belas florzinhas. Sem violência, nada pode ser realizado na história.”
“A Inglaterra tem que cumprir uma dupla missão na Índia: uma destruidora, outra reguladora — a aniquilação da velha sociedade asiática e o lançamento das bases materiais da sociedade ocidental na Ásia.”
“Não devemos nos esquecer de que esta vida sem dignidade, estagnada e vegetativa, este tipo de existência passiva invocou, por outro lado, em contrapartida, forças de destruição selvagens, sem objetivo, sem fim, e tornou o próprio assassinato um rito religioso no hinduísmo.”
Chega? O leitor já deve estar com o estômago embrulhado. Quem disse tais barbaridades? Hitler? Algum reacionário qualquer? Nada disso. Todas as citações são de Marx ou Engels, compiladas no livro “O marxismo e a questão racial”, do cubano Carlos Moore, um negro exilado pelas críticas de racismo feitas ao regime castrista.
O autor comprova que não se trata de afirmações fora de contexto; ao contrário: Marx e Engels defenderam em várias ocasiões esta visão imperialista ariana e racista. Era parte essencial de sua ideologia.
Ambos beberam da mesma fonte, Hegel, que disse: “O que nós propriamente entendemos por África é o Não Histórico, Não Desenvolvido Espírito, ainda envolvido na condição de mera natureza, e que foi apresentado aqui somente como soleira da História mundial.”
O problema é que nossos marxistas não leram Marx. Nelson Rodrigues, que anda sendo citado por Dilma, escreveu: “E, por todas as cartas de Marx, não há um vislumbre de amor e só o ódio, o puro ódio. Para ele, há ‘povos piolhentos’, ‘povos de suínos’, ‘povos de bandidos’, que devem ser exterminados.”


Duro é aturar a esquerda radical acusando os liberais e conservadores de “imperialistas”, “racistas”, “fascistas” ou algo do tipo. Seria cômico, não fosse trágico...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014





 A PROPÓSITO DO "INFERNO", DE DAN BROWN

1. Do que trata?

O enredo de “Inferno” pode ser assim sintetizado. O geneticista Bertrand Zobrist, obcecado com o problema da superpopulação mundial  que cresce exponencialmente (v. abaixo, item 2), criou um vírus especial destinado a reduzir drasticamente a população do planeta, como consequência da sua propagação epidêmica pelo ar. É um “vírus-vetor”, que “insere informações genéticas na célula que está atacando e tem o poder de modificar o DNA humano”.

O cientista milionário contratou os serviços de uma organização secreta chamada Consórcio para lhe garantir privacidade absoluta em suas pesquisas, desenvolvidas particularmente, com o objetivo de criar aquele vírus. Somos alertados, nas páginas iniciais do livro, que essa organização secreta realmente existe, mas com outro nome, e tem escritórios em sete países...Também as informações relativas a arte,  ciência, história etc apresentadas ao longo do trabalho não são ficcionais.   

Zobrist é um aficcionado da “Divina Comédia”, que conhece profundamente. Seu laboratório, não por acaso, localiza-se em Florença, a cidade natal de Dante. Ele forneceu, antes de aí suicidar-se (acreditando-se um benfeitor da humanidade), uma série de pistas inspiradas na obra do poeta florentino sobre o local em que depositou o material que originará a epidemia em questão, pistas essas encaminhadas ironicamente à OMS- Organização Mundial de Saúde.  Essa entidade é muito criticada por ele e os adeptos de seu movimento transumanista pela sua omissão relativamente ao rápido crescimento populacional do mundo, do qual dependem todas as grandes questões ambientais do planeta. O agravamento desses problemas levará à extinção da espécie humana, antes que ela possa se aperfeiçoar pelas novas tecnologias da engenharia genética que já se vislumbram no horizonte da ciência. A ação do vírus de Zobrist  reduzirá a população mundial em mais ou menos um terço  (proporção verificada quando ocorreu na Europa medieval  a Peste Negra, no século XIV), o que daria tempo para que a humanidade se beneficiasse das novas tecnologias, que visariam o aperfeiçoamento da raça humana, objetivo do transumanismo. Essa é a justificativa para o procedimento de Zobrist, que não conta com o apoio da comunidade científica. Mas para ele o caminho que adotou é o mal menor entre as duas situações...

Por causa daquelas mensagens cifradas, a Dra. Elisabeth Sinskey, diretora da OMS, pede a cooperação de Robert Langdon, professor de Arte e Simbologia da universidade de Harvard, no que é atendida. Ele é o protagonista desse romance de suspense, e sua movimentação,  ao avançar na decifração das mensagens, premido pelo tempo, consiste no fio condutor da obra, cheia de reviravoltas e surpresas.

O livro inicia com Langdon  voltando a si num hospital de Florença, ferido e sem lembrar de nada do que aconteceu, sob os cuidados de uma jovem médica chamada Sienna Brooks. Mais tarde se verificará que tudo foi uma encenação (o atentado de que foi vítima, o assassínio do Dr. Marconi, colega de Sienna etc). Na realidade, ele está nas mãos dos partidários de Zobrist, ou especificamente, da Dra. Sienna Brooks, que contou com o apoio do Consórcio para concretizar aquela encenação. Assim, subentende-se que Langdon, após transferir-se para Florença a fim de auxiliar a OMS, foi sequestrado, para que não contribuísse com esta organização, considerada pouco confiável por Sienna, que quer localizar o material patogênico antes dela, a fim de destruí-lo, pois embora concorde com as ideias de  Zobrist discorda de seus métodos pouco ortodoxos...  Langdon passará o tempo todo na busca desse material e fugindo dos homens do agente Brüder, chefe da força de segurança a serviço da OMS, que na verdade não queria lhe fazer mal mas estava à sua procura para resgatá-lo de Sienna e do Consórcio e colocá-lo de novo a serviço da Dra. Elisabeth Sinskey... No final, dada a gravidade da situação, o próprio Consórcio muda de lado e passa a colaborar com a OMS.  Langdon juntamente com Brüder chegam ao local onde está o material patogênico na antiga basílica de Santa Sofia em Istambul praticamente ao mesmo tempo que Sienna Brooks, que adota outro caminho para ali chegar (após Langdon ser resgatado por Brüder, ele se separa de sua amiga, e é informado sobre quem é ela de fato...). Todos percebem que chegaram tarde demais. Há uma semana, o vírus vem sendo disseminado nos subterrâneos daquele edifício, numa caverna (ideal para a sua propagação) onde se realiza diariamente um concerto gratuito (patrocinado por Zobrist) para os inúmeros turistas de todas as partes do mundo que visitam Santa Sofia...  O programa único do concerto é a  “Sinfonia Dante”, de Franz Liszt... Há uma revelação quanto a esse vírus, que provocará no leitor a surpresa final, dentre as muitas surpresas que o livro contêm.  

2. O problema da superpopulação mundial

Conforme dados citados na p. 101-2 da edição brasileira de “Inferno”, a população do planeta evolui em progressão geométrica: durante toda a história da humanidade, só chegou a 1 bilhão de pessoas em 1800;  na década de 1920, passou para 2 bilhões; nos anos de 1970, passou para 4 bilhões. Em meados deste século, deverá atingir 9 bilhões. Para o livro, a superpopulação mundial fará com que vejamos o Inferno de Dante em nossas cidades. A população ideal, “para assegurar a sobrevivência a longo prazo da humanidade”, seria em torno de 4 bilhões;  já estamos em 7 bilhões (p. 105)

Para Zobrist, todos os grandes problemas ambientais contemporâneos são função de uma variável única: a população global do mundo. São estes os problemas citados:  demanda por água potável, aquecimento global, destruição da camada de ozônio, esgotamento de recursos oceânicos, extinção de espécies, concentração de gás carbônico, desmatamento e elevação do nível do mar  (p. 135-6)


3. Personagens principais:

-Robert Langdon- professor de História da Arte e Simbologia em Harvard
-Bertrand Zobrist- milionário, cientista, dono da máscara mortuária de Dante, que colocou à disposição do público no museu do Duomo, em Florença     
-Dra. Sienna Brooks- médica, tem 30 e pouco anos, é bonita, mas careca (pelo stress), usa peruca; tem uma personalidade problemática, alto QI, foi discípula e ex-amante de Zobrist;  demonstra afeição por Langdon, que chega a beijar na boca no final do livro
-Dra. Elisabeth Sinskey- médica, diretora da OMS; tem 61 anos, cabelos prateados; era estéril, quando jovem
-O diretor do Consórcio- seu nome não é citado
-Vayentha: mulher vestida de couro preto, ágil, corpo bem torneado, cabelos negros espetados, a serviço do Consórcio: é uma assassina que não era assassina, de fato, atirava com bala de festim
-Brüder e seus homens- integram uma força subordinada ao Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças; é uma equipe da SWAT “encarregada de conter graves riscos de saúde em larga escala”

3. Locais em que se desenvolve a narrativa: 

Florença, Veneza e Istambul. 
A ação inicia em Florença. Depois, à medida que a mensagem enigmática escrita no verso da máscara mortuária de Dante vai sendo decifrada por Langdon, a ação se transfere para Veneza e conclui em Istambul.  A menção a essas cidades dá oportunidade ao autor para fornecer informações interessantes sobre elas. Assim, são explorados aspectos de Florença, principalmente os relacionados à vida de Dante, que aí viveu até ser exilado.  São citados o Duomo (a catedral de Santa Maria del Fiore, onde está o afresco de Michelino que mostra Dante com a “Comédia”, tendo ao fundo imagens do Inferno, Purgatório e Paraíso), o Campanário de Giotto, o Batistério de San Giovanni (onde Dante foi batizado)  etc.  Langdon explica, en passant,  porque os batistérios são sempre octógonos...

Posteriormente, a ação se transfere para Veneza (o navio “Mendacium”, QG do Consórcio, navega em sua costa, no mar Adriático). Langdon se desloca para aí porque vai em busca do doge “que cortou cabeças de cavalos”, conforma a mensagem cifrada.  Mas acaba por constatar que não se trata de cavalos vivos e sim os da fachada da catedral de São Marcos, cujas cabeças foram cortadas para serem transportadas de Constantinopla para Veneza. Foi isso que determinou o  “traiçoeiro doge de Veneza”, i.e.  Enrico Dandolo, que conquistou a cidade em 1204 com a Quarta Cruzada.  E Langdon descobre então que o túmulo desse doge – referência para a localização do material patogênico -- não está em Veneza mas em Istambul, na antiga basílica de Santa Sofia, hoje um museu. O que provoca o deslocamento de Langdon para essa cidade, situada no entroncamento entre dois mundos, o europeu e o asiático. Descreve-se a  arquitetura desse edifício monumental, menciona-se o imenso Bazar das Especiarias, onde ocorre a perseguição de Sienna por Langdon etc   

4. Características da obra:

Trata-se de um thriller, de uma novela de suspense, este causado principalmente pela premência do tempo pois a solução do enigma proposto deve ocorrer antes que chegue uma data fatal e a epidemia se espalhe pelo mundo. Assim, a decifração desses enigmas, inspirados em Dante e sua “Comédia”, ocorre pouco a pouco, e isso mantém o interesse do leitor. Há muita semelhança aqui com o timing das realizações cinematográficas de Hollywood, sem a maestria de um Hitchcock, que, em vez de acumular reviravoltas e surpresas, dosava-as, na medida certa...  

O sentido mais profundo da associação do livro à primeira parte do poema de Dante é naturalmente metafórico. Dan Brown atualiza o inferno dantesco, associando-o ao caos previsível do mundo no futuro próximo, aos seus desastres imagináveis, todos causados pelo excesso de gente no planeta pressionando uma base limitada de recursos.  Uma população mundial que cresce num ritmo insustentável a longo prazo...  

O poema em si é lembrado pela citação de alguns versos ou por certas situações. E a vida de Dante, por alguns fatos, quando o protagonista visita determinados edifícios de Florença (o Batistério com sua imagem de satã que inspirou a do poema, a Igreja onde está o túmulo de Beatriz, a Casa de Dante etc). 

Características positivas:
A obra mantém permanentemente o interesse do leitor. De leitura fácil,  fornece muitas informações úteis (e verdadeiras, como é dito em suas páginas iniciais)
no campo das artes (literatura, pintura, escultura e arquitetura) e da história -- suscitadas pelas três cidades em que o enredo se desdobra -- e também, last but not the least, no campo das ciências, particularmente em genética humana...  Assim, alia ficção e realidade, uma característica marcante do autor (como o demonstram outros livros seus).

Características negativas:
Em primeiro lugar, devo destacar o artificialismo excessivo do enredo, destinado a prender o interesse do leitor mediano a todo custo, a exemplo do que ocorre com os filmes de muita ação e pouca reflexão. É verdade que “Inferno” tem o mérito de ser mais do que isso, pois ajuda aquele leitor a refletir sobre certas questões cruciais para o futuro do planeta. Mas alguém menos sensível ao suspense pode se perguntar: se o objetivo de Zobrist era disseminar o vírus na população, por que simplesmente não faz isso e depois comunica à OMS, sem ficar dando pistas enigmáticas de decifração difícil e trabalhosa sobre a localização do material que o contém? (é claro que nesse caso não teríamos o thriller...) A decifração exige convocar um especialista em Simbologia dos EUA, o qual, na condição de protagonista do livro, investigará nas três cidades em questão, correndo de uma para outra, à medida que progride na decifração dos enigmas, com o objetivo de localizar o material procurado e evitar a disseminação do vírus, o que acabará afinal acontecendo, porque a data fatal indicada por Zobrist em suas pistas é mal interpretada por Langdon e outros...  As pistas são difíceis de entender, inclusive por Sienna, a antiga discípula e ex-amante de Zobrist... Aliás, Zobrist, antes de morrer, deixou-lhe uma carta revelando como chegou até o vírus, suas características etc, que ela posteriormente queima para que ninguém fique conhecendo essa tecnologia perigosa para a humanidade, nem mesmo a OMS...

Outra característica negativa poderia ser o fato de que o livro, às vezes, dá a impressão de guia de viagem, escorando-se, para continuar mantendo o interesse do leitor, nas informações curiosas que apresenta sobre as principais atrações turísticas das três cidades onde se desenvolve a ação. Mas,  de qualquer forma, tais informações são sempre interessantes e bem vindas...

5. Conclusão:

Acredito que o autor e sua editora tenham alcançado o objetivo a que se propuseram:  produzir um livro destinado a ser best seller,  não uma obra de ficção primorosa.

O “Inferno” de Dan Brown não é obra de grande literatura principalmente pelo artificialismo das situações que, como as novelas de TV, apresentam excessivas reviravoltas e surpresas na narrativa, todas concebidas para garantir o interesse permanente do leitor mediano. Isso compromete a verdade humana de sua narrativa. É como se não bastasse fazer uma obra de ficção bem feita, e fosse necessário recorrer a outras áreas para dar mais substância a ela.   Todavia, a incorporação de informações de outras áreas funciona bem na narrativa.  Faz com que essa obra seja, além de diversão para aquele leitor mediano, uma oportunidade dele refletir sobre questões realmente cruciais para o mundo em que vivemos.