sábado, 24 de junho de 2017


UMA SEMANA NO LESTE EUROPEU
(Memória de viagem)

2.06.17 (sexta)
No aeroporto Afonso Pena, despachamos a bagagem diretamente para Praga, o destino final de nosso voo. Às 19:00, decolamos para o Rio de Janeiro.
-No Rio, às 22:10 decolamos para Frankfurt pela Lufthansa.  O voo durou pouco mais de 11 horas. Mas foi necessário acrescentarmos mais 5 horas para sabermos a hora local, devido à diferença de fuso com o Brasil. 

3.06.17 (sábado)
-Às 14:30, chegamos em Frankfurt (hora local). Às 17:00 deveríamos decolar para Praga. Mas esse voo foi cancelado, parece que por causa do mau tempo.  Felizmente foi possível fazer o rebooking para o mesmo dia, por volta das 23 horas, depois de aguardarmos em filas quilométricas todo esse tempo. 
-Chegamos em Praga quase meia-noite. Hospedamo-nos no hotel Corinthia Prague (Kongresova, 1). Na recepção,  fomos atendidos por um jovem peruano que havia trabalhado em S.Paulo e falava bem português. Nosso quarto ficava no 17º andar de um edifício que devia ter uns vinte e poucos, o que é incomum em Praga e nas outras cidades que visitamos. O hotel situava-se um pouco mais afastado do centro, na parte mais nova dessa cidade multicentenária. 

4.06.17 (domingo)
-Em Praga.  Pela manhã, fizemos a “visita panorâmica” da cidade, com o guia da Europamundo e o guia local, um sujeito alto e magro, moreno, com uma barbicha debaixo do lábio inferior, aparentemente um costume local, pois vi vários tchecos com esse visual.
-Na visita panorâmica, subimos de ônibus até o castelo de Praga (o maior da Europa), e depois entramos a pé pelo portal dos gigantes em luta (“Pátio de Honra”) e andamos pela área externa ao Castelo mas dentro de suas muralhas, passando pela Catedral de S.Vito e Palácio Real, circulando pelo primeiro e segundo pátios. Este último foi acessado após transpormos a Porta Mathias. Não avançamos até a Viela Dourada, hoje ocupada por lojinhas de souvenires, e outras. No nº 22 morou Franz Kafka. Aliás, segundo nosso guia, essa é uma das vinte casas em que ele morou em Praga (chegamos a passar por algumas delas). 
Em seguida, descemos ainda a pé para Malá Strana (“Pequeno Quarteirão”). Andamos por suas ruas antigas, especialmente pela rua Nerudova, cujo nome homenageia o escritor tcheco Jan Neruda, do século 19, que inspirou o pseudônimo do poeta chileno. Uma curiosidade dessa região antiga (“praticamente nenhum edifício surgiu aqui depois do século 18”) é a presença de símbolos na frente das casas que serviam para identificá-las, antes de se adotar o sistema de numeração.  A Casa dos Dois Sóis, por exemplo, é a do escritor.
Prosseguindo nessa caminhada, chegamos à famosa ponte Carlos, sobre o rio Moldava, que é só para pedestres e estava atulhada de turistas. Essa ponte  é de 1357 e foi mandada construir por Carlos IV, cuja estátua vimos, ao sair dela. Aliás, ao longo da ponte há diversas outras estátuas. Carlos IV foi imperador do Sacro Império Romano de 1346 a 1378, além de rei da Boêmia.  Na condição de imperador, “declarou indissolúvel a união da Boêmia, Morávia, Silésia e a parte norte da Lusácia, e incluiu pedaços da Alemanha na Boêmia”.
Ultrapassada a ponte, entramos  na Staré Mesto (“Cidade Velha”). Passamos por uma casa, com uma placa na fachada,  em que morou o astrônomo Johannes Kepler. Logo chegamos à praça central, onde há vários edifícios antigos, e a Prefeitura da Cidade Velha, em cuja torre está o famoso Relógio  Astronômico, construído em 1490 e que “marca o tempo em três calendários: o da antiga Boêmia, o babilônico e o romano (o atual). Além disso, mostra movimento da lua e do sol por meio dos doze signos do zodíaco”. Na virada das horas, várias figuras se movimentam (alegorias da vaidade, avareza, morte e luxúria), e as que mais chamam a atenção são as dos apóstolos, na parte superior do Relógio, vistas por duas pequenas janelas, sobre as quais há um nicho com um pequeno galo de ouro.

No centro da praça da Cidade Velha há um monumento interessante. Trata-se do Memorial de Jan Hus, o reformador religioso que foi queimado vivo em 1415. O monumento é de  1915.  E pensar que ali onde nos sentávamos, nas cadeiras na calçada do restaurante, para fazer um lanche e curtir a praça e seus arredores, a plebe insensível e sadista do passado devia se acumular para ver espetáculos de execução como esse, de extrema crueldade... A propósito, nesse local, à esquerda do monumento, havia algumas pessoas debaixo de uma faixa com dizeres em inglês contra Putin e sua política com relação à Ucrânia. 

Na  frente do Relógio Astronômico, em Praga.
Perto da praça central, em Praga


No centro da praça, Memorial de Jan Huss
Como adquirimos o passeio orientado “Praga Artística”, depois do almoço encontramo-nos novamente com o mesmo guia local que já nos guiara antes na visita panorâmica da manhã. O passeio agora incluiu uma circulada (sempre a pé) pelo Bairro Judeu (“Josefov”), uma visita à parte externa da Sinagoga espanhola, uma olhada rápida em um trecho do cemitério judeu (onde Kafka está enterrado), um pequeno passeio pelo rio Moldava com vista para o conjunto do castelo de Praga, a ponte de Carlos IV e suas torres góticas. Desembarcamos em Malá Strana e visitamos depois o palácio de Wallenstein (sede do Senado tcheco), a igreja de S.Nicolas, com entrada paga  (Mozart usou o órgão dessa igreja para executar o “Réquiem”), e a igreja de N.Sra da Vitória, onde é venerado o Menino Jesus de Praga. 

5.06.17 (segunda)
Por volta das 8 horas da manhã, partimos de Praga, no ônibus da Europamundo, rumo a Budapeste. A distância entre as duas capitais é de 528 km.
Aproximadamente na metade do caminho, ainda na República Tcheca (região da Morávia), paramos para conhecer os jardins e a parte externa dos castelos de Lednice, considerado “patrimônio da humanidade” pela Unesco. Suas origens remontam ao século XIII, tendo sofrido várias reformas posteriormente. O local está situado perto da fronteira com a Áustria, a 275 km de Praga.


Na frente do Castelo de Lednice, Rep. Tcheca
Prosseguindo viagem, fizemos nova parada, agora para almoçar e conhecer o centro de Gyor, a cidade mais importante do noroeste da Hungria.


Praça em Gyor, Hungria
Chegamos a Budapeste no meio da tarde.  Registramo-nos no hotel Danubius Health SPA Resort Margitsziget, localizado na ilha Margit, no rio Danúbio, que divide Buda de Peste. Nos corredores do hotel cruzávamos frequentemente com pessoas de roupão branco, indo ou vindo dos spas (Budapeste é rica em águas termais e os “banhos turcos” – herança do tempo da dominação pelo Império Otomano – é uma tradição do lugar). Uma vez instalados no hotel, saímos novamente no ônibus à disposição do grupo, que nos levou para uma área junto ao Danúbio, turisticamente mais relevante. O ônibus estacionou na rua do Museu Nacional Húngaro, em frente a este mas do outro lado da rua. Seu prédio é de arquitetura clássica, com colunas gregas. A esse local deveríamos voltar mais tarde, em hora combinada, para retornar ao hotel. Passeamos então por essa rua (Muzeum korut) e em seu prolongamento (Vám korut), passando pelo belo prédio do Mercado Central (de 1896), que já estava fechado, caminhando até a ponte verde sobre o Danúbio (ponte Petófi). Depois, exploramos um pouco uma rua transversal (a Belgrad rakpart) e ali deparamos com um prédio onde morou até a morte, em 1971, o filósofo marxista Georg Lukacs, conforme informava uma placa em sua fachada.


Mercado Central de Budapeste
6.06.17 (terça)
Pela manhã, fizemos a “visita panorâmica” à cidade, circulando por ela no ônibus, e ouvindo explicações do guia. A primeira parada foi na Praça dos Heróis, em Peste, onde há várias estátuas de figuras importantes da história húngara. Foi aqui “o principal ponto do levante anti-soviético de 1956”. De um lado dessa praça há o Museu de Belas Artes, com um importante acervo, que eu tinha planejado visitar depois. Mas estava em reformas, por isso temporariamente fechado.


Praça dos Heróis, Budapeste
Retornando ao ônibus, cruzamos a ponte das Correntes e entramos em Buda, subindo a colina do Castelo e passeando pelos diversos edifícios do Palácio Real reconstruído, que hoje abrigam museus de arte e a igreja de S. Matias, rumando depois para uma bela igreja, conhecida pelo nome de Bastião dos Pescadores, que abrange sete torres representativas das sete tribos magiares das origens históricas do país.


Bastião dos Pescadores, Budapeste
Descemos do ônibus ali para admirar tal arquitetura, subir suas escadas e desfrutar as belas vistas de Peste que proporciona, especialmente do belíssimo Parlamento, à beira do Danúbio.  Posteriormente, retornamos para Peste passando por outras atrações turísticas (Basílica de Santo Estevão, Ópera etc) e parando no Mercado Central, já referido acima, onde descemos. Era por volta do meio-dia. Percorremos  diversos setores do Mercado, que era bem diversificado pois além de frutas, verduras, alimentos, bebidas etc, podia-se fazer ali refeições e comprar souvenires. Dentre estes, revelando um costume popular local, eram frequentes os jogos de xadrez, cujo tamanho variava bastante (comprei ali um dos pequenos). Curiosamente, um das peças do jogo, a rainha, tem um design um pouquinho diferente do tradicional, pois em sua cabeça destaca-se uma coroa feita de diversas bolinhas em círculo... Não nos animamos a almoçar ali, e sim, mais tarde, num restaurante no começo da  Váci útca (no nº 86-- “Old Street Café”). Essa é a  principal rua comercial e dos turistas, perto do Mercado, e nela passearíamos depois tomando sorvete, aliás muito consumido pela população naquele dia quente.
No final da tarde, retornamos, caminhando, ao nosso ponto de encontro, em frente ao Museu Nacional, como no dia anterior. Casualmente, encontramos diversos sebos, um ao lado do outro, nessa rua do Museu. Entrei  neles para dar uma olhada rápida nas estantes de livros (que não fossem em húngaro, naturalmente, “única língua do mundo que o diabo respeita”, segundo o “Budapeste” de Chico  Buarque...). Comprei ali “Histórias de almanaque”, de Brecht, em espanhol, e uma edição de bolso de “ À l’ombre des jeunes filles en fleurs”, de Proust.   
Após um breve descanso no hotel, saímos novamente, agora para fazer um passeio de barco pelo rio Danúbio e ver tanto Buda quanto Peste iluminadas,  à noite. É realmente um espetáculo deslumbrante ver o Parlamento e outros edifícios em ambas as margens do rio, e suas várias pontes, nessa condição.
Ao fundo, o Parlamento húngaro, às margens do rio Danúbio, em Budapeste



Na sequência, o ônibus nos levou até o topo do monte Gellért para, uma vez mais, admirarmos Budapeste à noite. No local, no topo de um obelisco, há a estátua de uma mulher segurando a palma da paz, símbolo da Liberdade, conquistada pela Hungria após a derrota do Nazismo na II Guerra. Abaixo, sobre uma coluna de menor altura, havia, segundo nossa guia, estátuas de soldados soviéticos, pois foi graças ao seu exército que aquela derrota foi possível. Mas elas foram retiradas dali, depois da mudança do regime na Hungria. Devem estar hoje no Parque das Estátuas, situado em bairro mais afastado da cidade, para onde foram encaminhadas todas aquelas que lembravam o comunismo.  O monumento à Liberdade, pela sua posição, é visto a grande distância dele, e nós o vimos, iluminado, ao passear de barco no Danúbio, à noite.   

7.06.17 (quarta)
Pela manhã, saímos de Budapeste, partindo em nosso ônibus com destino a Viena. Fizemos uma parada em Bratislava, capital da Eslováquia desde 1993, quando houve a divisão da antiga Tchecoslováquia em dois países. A cidade fica a apenas 60 km de Viena. Situa-se também às margens do Danúbio.


Em Bratislava, capital da Eslováquia
Nosso ônibus ficou estacionado perto da catedral de São Martinho. Aí foram  coroados os monarcas húngaros, inclusive a imperatriz Maria Tereza, em 1741. Bratislava (ou Presburgo, seu antigo nome) foi capital da Hungria por quase duzentos e cinquenta anos (de 1536 a 1783). Dessa igreja fui convidado a sair  porque entrei numa hora em que se celebrava missa. Mas voltei a ela depois, no horário reservado aos turistas, para admirar o seu interior, que impressiona bem mais do que a parte externa.
Caminhamos para o centro histórico e subimos as ruas Ventúrska e Michalská, vendo ao fundo a Torre de São Gabriel, o único portão que restou dessa cidade, em boa parte de caráter medieval, pois transversalmente a essas ruas havia ruelas antecedidas por arcos, com lojas e restaurantes.
Andando por aquelas ruas, passamos, conforme o guia, pelos seguintes edifícios: 1) palácio de Keglevich (onde Beethoven deu um concerto em 1796);  2) edifício da primeira universidade da Hungria, fundada em 1465; 3) palácio de Pállfyl (onde em 1762 Mozart, aos 6 anos, deu um concerto; em sua fachada há uma placa referindo-se a esse fato); 4) palácio de Pauli (em que Liszt se apresentou em público pela primeira vez, em 1820, aos 9 anos; também há aí uma placa na fachada).    
Uma curiosidade de Bratislava é a presença de algumas esculturas curiosas como a do observador do bueiro e a do soldado napoleônico apoiado num banco de praça. Aliás, Napoleão atacou a cidade duas vezes, uma em 1805 e outra em 1809. Em 1805 foi firmada aí a Paz de Presburgo, depois da batalha de Austerlitz, vencida por Napoleão, que teve lugar perto dessa localidade, “a cerca de 10 km a sudeste de Brno na Morávia, na altura uma região do Império Austríaco (atualmente República Checa)”.
Após o almoço na praça central desse centro histórico e o passeio por suas principais ruas, e praças mais afastadas, onde vimos carros vermelhos puxando vagões abertos da mesma cor, voltamos ao ônibus e retomamos viagem.  



Em Bratislava


Chegando em Viena, instalamo-nos no Exe Hotel Vienna, na rua Ottakringer, distrito 17 (a placa da rua indica a área da cidade em que a pessoa está). Foi possível ainda, nesse fim de tarde, fazer a “visita panorâmica”, tirando partido do fato de que nessas cidades do nosso itinerário anoitecia mais tarde do que aqui, na mesma época.
Palácio Schönbrunn, Viena
Circulamos em nosso ônibus por várias ruas do centro de Viena, observando certos edifícios especiais, como o Secessão (o “Repolho Dourado”), com características peculiares, que assinala uma estilo de arte austríaco, liderado por Klimt.   Mas de modo geral os edifícios apresentam uma certa uniformidade, em sua imponência e na altura, pois não ultrapassam cinco ou seis andares. Rumamos depois para o palácio Schönbrunn, longe do centro, a fim de conhecer seus belos jardins e a parte externa do palácio, que era a residência de verão da família imperial (de suas  2 mil salas só 40 podem ser visitadas).   Esse   palácio, de estilo barroco, foi concluído pela imperatriz Maria Tereza (1740-1780).     Seu descendente,  o imperador Francisco José -- que reinou de 1848 a 1916 e   casou  com   Elizabete (Sissi) -- nasceu aqui em 1830.
Nesse tour, conhecemos, também externamente, outro palácio, o Belvedere, e seus jardins planejados. No passado eram residência de verão de seus nobres proprietários e hoje abrigam coleções de artes plásticas e servem de local para exposições temporárias. Na realidade são dois palácios, o Belvedere Superior, de fachada mais elaborada, e o Inferior. Tiramos fotos junto às curiosas esfinges no jardim do Belvedere Superior.
Na conclusão do circuito vimos o rio Danúbio que em Viena não corta a cidade, como em Budapeste, mas corre em sua periferia.   

8.06.17 (quinta)
Saímos pela manhã rumo ao Hofburg, que sediou por muito tempo o império austríaco, e ao quarteirão dos museus junto a ele, em cujo centro há um monumento em que se destaca a estátua da imperatriz Maria Tereza. Pegamos o trem elétrico nº 44 que conforme informação obtida anteriormente fazia o trajeto do nosso hotel até aquele área turisticamente muito relevante. Eu já  tinha reservado no bolso as moedas para pagar o valor de 2 euros e 30 centavos por pessoa. Ocorre que ao entrar no trem não havia nenhum cobrador, e não vimos ninguém pagar a passagem. De modo que descemos do trem em nosso destino sem pagar (e repetiríamos a proeza depois, ao retornar para o hotel). Só no dia seguinte ficamos sabendo que era preciso comprar as passagens em estações do metrô, ou dentro do próprio trem, em caixas automáticas, que só aceita moedas. Nos trens há fiscais que, certamente atuando por amostragem,  poderiam ter pedido para mostrarmos os tickets da passagem. Não os tendo, teríamos problemas e sofreríamos as sanções previstas... 
O preço da passagem, convertido em nossa moeda, seria igual a pouco mais de 8 reais. Esse era o preço também, aproximadamente, de uma garrafinha de água mineral. Parece muito caro, se considerarmos só os valores absolutos, na comparação com os preços daqui.  Ocorre que, segundo nos disseram, o salário-mínimo lá equivaleria, em nossa moeda, a uns 5 mil e 500 reais. Mas, como sabemos, o que importa na comparação entre países não são os preços  nominais mas o poder aquisitivo da remuneração...


Entrada do Hofburg, em Viena

Nessa manhã visitamos o Kunsthistorisches Museum (museu de História da Arte), de rico acervo, acumulado pelos Habsburgos durante vários séculos. Deixamos de lado, não por falta de vontade de ver mas por falta de tempo, as seções de egiptologia, arte greco-romana etc, e nos concentramos nos pintores flamengos, holandeses, italianos, alemães etc Esse museu conta com a maior coleção de Peter Brueghel, o Velho, um de meus  preferidos. Há ali telas de Rembrandt (auto-retratos), Vermeer (“O Estúdio do Artista”), Bellini, Ticiano, Arcimboldo, Dürer etc   
Depois de três horas passeando pelas salas desse andar dos pintores, saímos do museu e caminhamos pelas imediações, até chegarmos próximos ao café Landtmann, frequentado por Freud. Paramos aí para descansar e fazer um lanche.



Na sequência, não por acaso, rumamos para o museu Freud, localizado a  alguns quarteirões dali, que não foi difícil encontrar (sabendo seu endereço) com um mapa da cidade nas mãos e pedindo uma ou outra informação aos transeuntes. O museu se situa no apartamento do prédio em que viveu e trabalhou o pai da Psicanálise durante 47 anos, de 1891 até 1938, quando se exilou em Londres, fugindo dos nazistas. Possui alguns móveis originais (exceto o famoso divã, que está em Londres), muitas fotos, manuscritos, alguns de seus livros, objetos pessoais etc  Numa pequena sala, há um monitor de TV que mostra filmes em que Freud aparece, e também sua filha Anna. Ela, já idosa, dá um depoimento sobre ele. 


Museu Freud, em Viena
9.06.17 (sexta)
Nosso tempo disponível nesse dia, que se estendia até às 16 h -- quando uma van viria nos buscar para o traslado até o aeroporto de Viena -- seria todo dedicado ao Hofburg, o palácio que foi sede do poder austríaco por 6 séculos. Passeamos a pé por esse complexo de edifícios, jardins e monumentos. Os edifícios abrangem, além dos aposentos reais (ocupados por Francisco José e sua esposa, a imperatriz Elisabete, ou Sissi), a Escola Espanhola de Equitação (onde cavalos de raça fazem exibições), a Biblioteca Nacional Austríaca, a Casa do Tesouro, uma capela onde se apresentam os Meninos Cantores de Viena e  uma igreja onde está o túmulo de uma filha da imperatriz Maria Teresa, que é um belo monumento de arte funerária, construído por Antonio Canova. Ao lado dessa igreja situa-se o palácio Albertina, que apresentava então uma exposição de Egon Schiele, por nós visitada. Também admiramos aí parte do acervo do museu, composto por obras de outros artistas. Desses, as telas que mais me impressionaram foram as de alguns surrealistas (Miró, Chagall, Magritte) e  Picasso.  
Na saída do Hofburg, em Viena
Uma informação interessante fornecida pelo nosso guia local: 30% das habitações em Viena são propriedade do Estado, que os aluga aos interessados.  Será que os nossos neoliberais, que demonizam a sua atuação, sabem disso?

Às 19:10 nosso avião (da Lufthansa) decolou do aeroporto de Viena, com destino ao de Frankfurt.  De lá, partimos para o Brasil.

10.06.17 (sábado)
Chegamos em S.Paulo (aeroporto de Guarulhos) aproximadamente às 5 h da manhã.  Algumas horas depois, partimos para Curitiba, chegando aqui por volta das 9:30 h.


VISTAS DE PRAGA











VISTAS DE BUDAPESTE












VISTAS DE BRATISLAVA





 VISTAS DE VIENA


 
 














segunda-feira, 4 de julho de 2016



SOBRE A DIVINA COMÉDIA- PURGATÓRIO 
enredo, linguagem, sentido


Apresentação 

            Dou prosseguimento neste trabalho ao projeto que venho executando  há alguns anos, voltado para uma leitura atenta da “Divina Comédia”, de que já resultou um primeiro volume, dedicado ao seu primeiro cântico, o “Inferno”. Divulgo agora este outro, relativo ao “Purgatório”, ao qual se seguirá um terceiro, e último, reservado ao “Paraíso”, contemplando assim as três partes (ou cânticos) que compõem  o divino poema.  

            Esses livros despretensiosos – dirigido ao leitor comum mas apoiado em obras de scholars -- foram gerados pelo meu desejo de prolongar o prazer estético obtido com a primeira leitura do poema, procurando reter os seus aspectos mais notáveis, mediante a adoção de três enfoques, tal como  indicado em seu subtítulo. Com relação a cada cântico, após o esclarecimento de dúvidas quanto às passagens de compreensão mais difícil, me concentro em cada um de seus cantos, apresentando uma síntese do enredo.  Ao mesmo tempo que o repasso, procurando explicitar o fio principal da narrativa, observo a linguagem utilizada pelo poeta para expressá-la, e destaco suas principais alegorias, metáforas, comparações (ou símiles), aliterações e outras características formais presentes nos versos (como é o caso do v.3, no canto VIII:  lo dì c’han detto ai dolci amici addio  (“no dia em que deram adeus aos amigos queridos”),  cuja bela sonoridade se apoia na  alternância de sons abertos e fechados e na incidência das consoantes  d e t ).  A dupla abordagem empreendida ao longo do trabalho -- conteudística e formal – possibilita que eu obtenha subsídios para a apreensão do sentido que os versos adquirem no canto, e este no cântico ou no poema como um todo.   

            Quanto ao sentido geral do poema, acredito que Mark Musa o expressou bem quando afirmou que Dante, em sua jornada, busca libertar-se do pecado, tanto o original quanto o atual. Busca alcançar o estado de inocência, como o de Adão antes da Queda. O peregrino  na “Comédia” persegue dois objetivos: a “felicidade nesta vida”, que alcança entrando no Paraíso terrestre, o que ocorre no final do “Purgatório”, e a “felicidade na vida eterna”, cuja busca é a matéria do terceiro cântico. O objetivo final de sua jornada é a visão de Deus (1).  

Tudo é alegórico nessa obra-prima, a partir de sua concepção inicial, relativa à viagem de um ser ainda vivo pelos três reinos do Além. Dante encontrava-se extraviado do bom caminho, após a morte de Beatriz, e por uma graça dos céus lhe foi concedido empreender essa jornada espiritual. Mas seu percurso pelo Purgatório terá também uma outra conotação, a de que ele ali é, além de visitante, um penitente semelhante àqueles dos terraços do orgulho, da ira e da luxúria, os pecados capitais de que se sente mais culpado...  

As alegorias ocorrem a todo momento no poema. Assim, por exemplo, no canto IX, o anjo guardião da entrada do Purgatório que detém as chaves de S.Pedro representa, devido a essa menção, a Igreja, mostrando que para Dante a salvação passa necessariamente por esta. E os três degraus dessa entrada são as três etapas do sacramento da penitência, a saber, a confissão, o arrependimento e a satisfação em obras, ou a penitência em si. No canto XXXI as virtudes cardeais (as virtudes clássicas pagãs) são servas de Beatriz (que representa a Fé, ou a Revelação, esta indicada pela retirada do véu nesse mesmo canto). Para o poeta a sabedoria clássica, ou a Filosofia,  se subordina à Fé na verdade revelada. E por aí vai... Mas a mais notável alegoria do cântico, e a de maior vulto, é aquela procissão, ou cortejo final, do canto XXIX, base para os cantos subsequentes, de que se tratará adiante.  

            A tradução dos versos não tem a pretensão de recriá-los poeticamente, mas tão somente tentar transmitir, de modo fiel, o que Dante quis dizer. Para tanto me apoiei não só nas paráfrases do original, em italiano moderno, mas também nas diversas traduções existentes para outras línguas (inglês , francês e espanhol), além  naturalmente do português. Todas as obras consultadas constam na Bibliografia, e as mais relevantes para cada canto, nas suas Notas. 

Comparado ao “Inferno”, o cântico do “Purgatório” tem menor apelo, é menos dramático. Também suas imagens são menos impressivas. Para T.S.Eliot, é a mais difícil das três partes da “Comédia” (2). 

            O “Purgatório” é composto por 33 cantos, contendo cada um,  aproximadamente, uma centena e meia de versos. Egressos do Inferno subterrâneo, Dante e seu guia retornam à superfície e reaparecem em uma montanha, formada pelo deslocamento de terra ocorrido quando Satanás, expulso do Paraíso, foi lançado às profundezas do globo. Foi desse modo que surgiu tal montanha-ilha no despovoado hemisfério Sul, antes só formado pela água. Toda a população terrena vive no hemisfério Norte. Nosso planeta tem, como pontos extremos opostos, Jerusalém, no hemisfério Norte, e o monte do Purgatório no hemisfério Sul. Do ponto de vista do primeiro, o ponto extremo a Leste é o rio Ganges, e a Oeste, o Estreito de Gibraltar, limite do mundo medieval. Acima da Terra estão as nove esferas celestes e o Empíreo, morada de Deus e dos bem-aventurados (3). 

Essa montanha onde se situa o Purgatório será escalada por Dante e seu guia, Virgílio. A descrição/narração da jornada em questão consiste no cântico do “Purgatório”. Dante é o autor e personagem principal de seu poema, que é narrado em primeira pessoa. A jornada tem também o sentido da ascensão espiritual do protagonista.  

À medida que avançam para o alto os peregrinos passam pelas diversas cornijas, ou terraços, da montanha, correspondentes a cada um dos sete pecados capitais, local de expiação daqueles que incorreram nesses pecados (cantos IX a XXVII). No topo localiza-se o Paraíso terrestre, de onde Adão e Eva foram expulsos (cantos XXVIII a XXXIII). Antes, porém, de ingressarem no Purgatório propriamente dito, os peregrinos têm que transpor o Antepurgatório (cantos II a IX), onde estão aqueles que se arrependeram tardiamente de seus pecados. Um canto de caráter introdutório (canto I) dá início à abordagem da jornada, que começa na manhã de um domingo de Páscoa, 10 de abril de 1300, e se estenderá até o meio-dia da quarta-feira, 13 de abril. A visita ao Inferno ocorreu nos dias anteriores a estes, da paixão e morte de Cristo. Na Páscoa os cristãos comemoram a ressurreição de Cristo. Como no Purgatório há esperança de salvação, aqueles que morreram após arrependerem-se de seus pecados e foram parar aí para expiar sua culpa, também um dia nascerão de novo, no Paraíso celeste... 

            O Purgatório abrange um ambiente surreal, onde as almas têm um corpo fictício, ou “corpo aéreo”, conforme o canto XXV, em que se diz que os penitentes ali conservam todas suas faculdades, inclusive as dos órgãos dos sentidos, têm fome e sede, dor e alegria, apresentando a inteligência, memória e vontade mais aguçadas do que em nosso mundo... Os fenômenos da natureza nesse reino têm outra explicação, como o terremoto (canto XX) que ocorre quando uma alma conclui seu período de expiação e está pronta para subir ao Paraíso -- caso do poeta latino Estácio -- ou o vento que ali sopra, causado pelo ar movido pelas esferas celestes. Estácio, um convertido ao  Cristianismo que representa no poema a Razão acrescida da Fé, substituirá  Virgílio (símbolo da Razão) mais adiante, após o 7º terraço, o qual não entrará no Paraíso terrestre com Dante.   

Logo depois de surgirem na montanha, Dante e Virgílio são orientados por Catão de Útica, guardião do Purgatório, a iniciar a jornada pela base da montanha, ou seja, pelo Antepurgatório, onde estão os que se arrependeram tardiamente (aí, junto à praia, Virgílio deverá limpar o rosto de Dante das manchas do Inferno com o orvalho, e cingi-lo com junco, que é símbolo da humildade (canto I). Na ótica de Dante, como esses espíritos fizeram Deus esperar (demoraram para se arrepender), agora eles também devem esperar para entrar no Purgatório propriamente dito, e iniciar a sua penitência.  De repente, ainda na praia, Dante vê aproximar-se um anjo resplandecente, trazendo num barco mais de cem almas para o Purgatório. Eles procedem da foz do rio Tibre, que banha Roma, o local para onde vão inicialmente as almas dos  mortos que se arrependeram em tempo. Esses espíritos cantam o salmo 133, sobre a saída dos judeus do Egito, rumo à Terra Prometida. O anjo deposita-os na praia e retorna, veloz.  Alguns deles procuram informar-se com Dante sobre o caminho para subir o monte. Percebem que Dante ainda é vivo, e se espantam com isso, provocando aglomeração. Um membro desse grupo é o músico Casella, amigo de Dante, que atende ao pedido deste e começa a cantar, o que atrai a atenção de todos que ali estão, esquecidos do propósito de sua jornada. O severo Catão os repreende, e eles rapidamente se dispersam, buscando a encosta da montanha  (canto II).    

O Antepurgatório comporta diversos estratos. De baixo para cima, ele inicia com o dos excomungados (canto III), onde está Manfredo, rei da Sicília e da Apúlia, que morreu em guerra contra um aliado do papa, e fora excomungado (mas para Dante a vontade de Deus está acima da condenação da Igreja...). Os excomungados devem permanecer ali trinta vezes o tempo que permaneceram fora da Igreja, antes de iniciar a sua purgação no Purgatório propriamente dito. Mais acima, está o estrato dos negligentes (canto IV).  Dante encontra aí seu amigo Belacqua, artesão florentino. Depois vem o dos que morreram sem os últimos sacramentos, vítimas de morte violenta, que só se arrependeram na hora final (cantos V e VI). Um deles é Sordello, trovador provençal do século XIII, que se rejubila ao encontrar aí Virgílio, também nascido em Mantua, poeta a quem muito admira. Sordello será o guia deles até a entrada no Purgatório propriamente dito. Uma dessas vítimas de morte violenta é Pia de Siena, jogada pelo marido do balcão de um castelo em Maremma. Em apenas sete versos, prodígio de concisão poética, Dante consegue contar a história dela e nos emocionar (canto V).  Ao contrário de outros penitentes, ela pensa primeiro no bem-estar de Dante, em seu repouso, e depois faz o pedido por preces, que é dirigido a ele próprio, e não a terceiros, o que indica indiretamente a sua solidão: 

“Deh, quando tu sarai tornato ao mondo
e riposato de la lunga via,”
seguitò ‘l terzo spirito al secondo, 

“ricorditi di me, che son la Pia;
Siena me fé, disfecemi Maremma:
salsi colui che ‘nnanellata pria 

disposando m’avea con la sua gemma.” (Purg. V, 130-136) 

 “Ah, quando retornares ao mundo/ e repousares desta longa jornada”, / o terceiro espírito, seguindo o segundo, disse,/ “recorda-te de mim que sou a Pia./ Siena me fez, e Maremma me desfez:/ bem o sabe aquele que me deu um dia/ o anel de esposa, com a sua gema”. 

Os versos 133 e 134 incluem-se entre as citações explícitas que T.S.Eliot introduz no seu famoso poema “The Waste Land”. 

No estrato superior seguinte estão os monarcas e príncipes, que se ocuparam com os negócios públicos ou outros assuntos, e retardaram a hora de se voltar para Deus (canto VII e VIII).   

Transposta a entrada do Purgatório propriamente dito, guardada por um anjo, os peregrinos conhecerão, passo a passo, os terraços relativos a cada um dos sete pecados capitais. A ordem dos terraços é importante pois ela mantém correspondência com a gravidade dos pecados, evoluindo (de baixo para cima) dos mais graves para os menos graves (ao contrário do que ocorre no Inferno). Assim, à medida que a montanha é escalada os peregrinos vão encontrando, sucessivamente, os orgulhosos, invejosos, coléricos, preguiçosos, avarentos/ pródigos, gulosos e luxuriosos.  

Os cantos do “Purgatório propriamente dito” (19 dos 33 cantos de todo o cântico) seguem um determinado padrão.  Este envolve a presença de anjos do Senhor, que cumprem diversas funções e tarefas. Já na entrada do Purgatório, há um anjo-guardião que inscreve com a ponta de sua espada sete P’s na testa de Dante (correspondentes aos sete pecados capitais) (canto IX). Eles vão sendo removidos um a um, à medida que Dante deixa para trás cada um dos terraços e continua a subir a montanha. Os anjos orientam os peregrinos quanto ao prosseguimento da jornada, indicando o caminho para o próximo terraço. Ao chegar nele, Dante estabelece diálogo com um dos penitentes que aí expia sua culpa, o qual fornece informações sobre si mesmo ou outros que ali estão. Os penitentes admiram-se com o fato de seu corpo fazer sombra ao Sol (a montanha só é escalada durante o dia, vale dizer, a escalada da montanha, ou a ascensão espiritual do poeta, está associada à luz do dia, ou ao Sol, i.e. a Deus).  Virgílio então é obrigado a explicar que foi concedida a Dante, pela vontade celeste, a graça de fazer essa jornada ainda vivo. O fato de que este voltará ao nosso mundo é muito importante para os penitentes. Ao saber disso, eles pedem sua ajuda no sentido de informar, aos parentes e amigos, onde estão agora e solicitar deles as preces que abreviarão o seu período de expiação. Com referência a cada terraço, os cantos citam salmos e hinos relativos ao pecado ali expiado, assim como bem-aventuranças extraídas dos Evangelhos (Sermão da Montanha). Incluem também exemplos da virtude oposta ao pecado daquele terraço (dos quais o primeiro provém da vida de Maria) ou de casos/pessoas mal sucedidos por causa dele, sempre extraídos da Bíblia, mitologia, literatura clássica ou da História antiga. Tais exemplos representam assim estímulos à virtude oposta aos pecados capitais, ou freios a estes.   

De forma semelhante ao Inferno, em cada terraço há uma pena que está sendo cumprida pelo seu habitante, e que guarda relação com o pecado cometido (lei do contrapasso). Mas a  diferença crucial é que os penitentes no Purgatório desejam cumprir a pena, expiar a sua culpa, para um dia alcançar a salvação aguardada, ao contrário dos que habitam o Inferno, desprovidos dessa esperança.  

            Apropriadamente, no canto XVII, Dante, pela boca de Virgílio, faz uma explanação sobre o amor. Está situada no meio do cântico do “Purgatório”, e também de toda a “Divina Comédia” (que conta com cem cantos), pois este é o 51º canto, se computarmos os 34 do “Inferno” (ou o 50º, se excluirmos o canto I, introdutório deste). Os seres humanos são dotados de dois tipos de amor, o “amor natural” -- da criatura pelo Criador, que é o bem primeiro -- e o “amor de ânimo”, ou de vontade, voltado para os bens secundários, que depende do livre-arbítrio e pode originar os pecados capitais. Os pecados decorrem de distorções relacionados a esse segundo tipo de amor, que 1) pode se perverter, implicando em prejuízo ao próximo, em vez de amor a ele  (caso do orgulho, inveja e ira); 2) pode ser insuficiente (caso da preguiça) ou 3) pode ser excessivo  (caso da avareza/prodigalidade, gula e luxúria). Neste último caso, não existe pecado se o amor ocorrer na justa medida. 

Para Dante, o pior de todos os pecados é o orgulho, aquele que impede o ser humano de submeter-se à vontade de Deus. Os que incorreram nele expiam sua culpa no 1º terraço da montanha (abordado nos cantos X a XII), terraço esse, como os outros, de pequena largura, uniforme, entre o precipício e a encosta de pedra. Esse terraço tem uma peculiaridade: em sua encosta alta e de mármore branco três cenas haviam sido esculpidas, com altíssima perfeição, pois o artista é o próprio Deus (presença da Arte dentro da Arte...). São três exemplos de humildade, a virtude oposta ao orgulho. O primeiro deles refere-se à Anunciação -- i.e.,  à visita do anjo a Maria para lhe dizer que seria a mãe de Cristo -- e mostra sua submissão à vontade divina. 

Os orgulhosos carregam pesadas pedras, que os obrigam a curvar-se e olhar permanentemente para o chão, em cujo pavimento estão também gravadas as imagens de treze casos de orgulho castigado, um deles o de Troia. Outros se referem a personagens bíblicos, históricos ou mitológicos (canto XII). Dante mostra sua maestria formal nos versos 25-63 do canto XII, ao apresentar esses treze casos, divididos em três grupos de quatro tercetos -- começando os do primeiro grupo por V, os do segundo por O e os do terceiro por M -- aos quais agregou mais um terceto, em que cada verso inicia, respectivamente, por V, O, M, formando a palavra UOM (uomo), “homem”, no acróstico deste terceto-síntese, que se refere justamente à orgulhosa Troia.  

No canto XI são citados três tipos de orgulho: o da linhagem ou de família, o do talento artístico e o do poder temporal (canto XI). Oderisi de Agobbio, mestre da iluminura, representa o segundo caso. O fato de Dante acompanhar por um tempo esse seu amigo, andando curvado como ele (canto XII), sugere que se considerava também pertencente a esse grupo... Ao sair desse terraço um anjo (o da humildade) apaga um dos P’s da testa de Dante. A primeira bem-aventurança (a que começa com “Bem aventurados os pobres em espírito”) é ouvida, num canto inefável, quando os peregrinos saem do terraço.  

Os invejosos estão no 2º terraço (cantos XIII e XIV). Como eles incorreram em seu pecado por ver o sucesso alheio, ou o seu infortúnio (entristecendo-se, ou rejubilando-se por isso, respectivamente) têm as pálpebras dos  olhos costuradas (inveja ou invidia deriva de vedere, ver, conforme o canto XIII). Dante se emociona ao observar um grupo deles, apoiados uns nos outros, sentados junto à encosta da montanha. No canto XIII são citados três exemplos de amor ao próximo (virtude oposta ao desamor da inveja). No XIV dois penitentes sentem a presença de Dante e este, ao ser indagado, responde que é de Florença. Seu interlocutor então (Guido del Duca, dirigente público) faz uma crítica à população desta e de outras cidades da Toscana. Também critica a Romagna, outra região italiana. No final desse canto, são lembrados dois casos de invejosos castigados (um deles o de Caim), que deviam servir de freio para a conduta dos homens.  Outro anjo (o da generosidade, ou da misericórdia), no começo do canto XV, indicará a Dante e seu guia o caminho a seguir.  Ouvem mais uma bem-aventurança do Sermão da Montanha (“Bem-aventurados os misericordiosos...) (Mateus 5:7).  

Os coléricos ocupam o 3º terraço (cantos XV a XVII), envolvidos em nuvens de fumaça negra e densa que magoam os olhos, como se fosse formada por pelos eriçados. Por isso Dante não pode abri- los (ele, por ter incorrido no pecado da ira, compartilha dessa penitência) e se apoia em Virgílio, símbolo da Razão, para avançar. Os iracundos são assim associados aos cegos, movidos pela paixão e não pela razão. Eles entoam o “Agnus Dei” da liturgia da missa, em que se pede paz e misericórdia ao Cordeiro de Deus, símbolo da mansidão. Antes de se envolver nessa fumaça negra, Dante foi arrebatado por três visões que salientam a mansidão do espírito, virtude oposta ao pecado dos coléricos deste terraço (canto XV). Marco Lombardo, com quem Dante mantém conversação, critica a decadência moral de mais uma região italiana, a Lombardia, atribuindo-a ao fato de que o papa acumula tanto o poder espiritual como o temporal. Aproxima-se depois outro anjo (o anjo da mansidão), cujo resplendor branqueia a fumaça (canto XVI). Ele lhes indica o  caminho para o 4º terraço. Dante sente que mais um P é apagado de sua testa. Virgílio faz então a exposição sobre o amor, antes referida, explicando que ele pode originar os sete pecados capitais. O canto XVII cita, apropriadamente, a bem-aventurança relativa aos pacíficos, os quais serão chamados filhos de Deus, segundo o Evangelho de Mateus (5:9).    

Os preguiçosos habitam o 4º terraço (canto XVIII). Sua penitência consiste em correr o tempo todo. Após ouvir a exposição de Virgílio sobre o amor, Dante pensa assim: se o amor é inato em nós, e nos faz buscar aquilo que nos gratifica, como diz Virgílio, podendo isso levar ao bem ou o mal, então tudo está predeterminado, e não há como se falar em mérito de conduta. Mas Virgílio lhe explica essa questão referindo-se à peculiaridade do ser humano, dentro da hierarquia tomista dos seres, que é a de possuir razão ou livre-arbítrio, o que o faz distinguir o bem do mal. Dois dos penitentes desse terraço proclamam exemplos de zelo ou diligência, a virtude oposta à preguiça. Depois, Virgílio solicita informações a um desses espíritos sobre o caminho a seguir, e ele lhe pede para acompanhá-lo, desculpando-se por não poder parar. Trata-se do abade do mosteiro de San Zeno, em Verona, que critica uma autoridade desta cidade, por colocar naquela abadia o filho dele, sem condições morais de ocupar tal cargo. Na sequência, outros penitentes citam dois exemplos de acídia punida. Um anjo (o do zelo ou da diligência) indicará posteriormente (no canto XIX) o caminho que dá acesso ao próximo terraço, apagará mais um P da testa de Dante e afirmará mais uma bem-aventurança (a dos que choram, pois serão consolados- Mat. 5:4).    

Os últimos três tipos de pecadores referem-se ao amor sem moderação por certos bens secundários, como o dinheiro, a comida/bebida e o sexo. O amor na justa medida por tais bens é aceitável.   

Os avarentos estão no 5º terraço (cantos XIX a XXI). Como são dados, excessivamente, aos bens terrenos, os avarentos jazem no chão, com mãos e pés atados, e o rosto voltado para o solo, obrigados assim a sempre olhar para este. Após um deles se manifestar, Dante lhe pergunta quem foi. O espírito revela ter sido antes um papa (identificado pelos comentadores como Adriano V) e um homem avarento, descobrindo tardiamente que a vida terrena é ilusória. Só conta com sua sobrinha Alagia para rogar por ele em nosso mundo e abreviar sua estada no Purgatório (canto XIX). Mais adiante, um outro penitente proclama três exemplos (extraídos da Bíblia, da história romana e da vida de um santo) de pessoas que demonstraram desprendimento pelos bens materiais, virtude oposta à avareza ou cobiça. Trata-se de Hugo Capeto, origem da dinastia dos reis franceses de então. Hugo critica essa sua descendência, pois a avareza/cobiça exerce atração sobre o seu sangue. Critica  especialmente os malfeitos de Charles d’Anjou que se tornou rei da Sicília e da Apúlia. E se refere às ações “futuras” (cf. artifício do poema, situado em 1300, que “prediz” fatos que na realidade já ocorreram) de um outro Charles -- Charles de Valois -- que sairá da França para interferir na política de Florença, a pedido do papa Bonifácio VIII, provocando a derrubada do partido de Dante do poder, e consequentemente o seu banimento da cidade natal. Também é criticado Felipe IV de França (Felipe o Belo), irmão de Charles de Valois, que chegou a aprisionar e maltratar o papa.   São ouvidos sete casos de avarentos malsucedidos, um deles o do rei Midas, extraído da mitologia clássica. Posteriormente, os dois poetas sentem tremer a montanha do Purgatório e ouvem as almas exclamarem “Gloria in excelsis Deo” (canto XX).  Dante, curioso para saber o motivo daquilo, prossegue no caminho, com seu guia, cuidando para não pisar nos avarentos que jazem ali. Quando se encontram com o poeta latino Estácio, em pé, este lhes explica que no Purgatório propriamente dito não ocorrem os fenômenos da natureza com a mesma explicação terrena. Assim, não vale aí a teoria de Aristóteles para explicar o terremoto. Ele ocorre na montanha do Purgatório quando uma alma, ao completar o seu período de expiação, sente-se limpa do pecado e se permite subir ao Paraíso. E o fato é seguido por aquele “Glória” entoado pelas almas do Purgatório em uníssono. Isso é o que acaba de ocorrer com relação ao próprio Estácio, depois dele jazer ali por 500 anos. Ele fala um pouco sobre suas obras e depois elogia a “Eneida” sem saber que estava na presença de seu autor. Ao saber isso, inclina-se para abraçar os pés de Virgílio mas este o impede de fazer isso, dizendo que são apenas sombras agora:  Frate,/ non far, ché tu se’ ombra e ombra vedi.” (“Irmão,/ não o faças; porque tu és sombra, e sombra vês” (Purg. XXI, 131-132). No canto XXII, Dante vai admirar-se com a revelação de Estácio de que cumpriu sua penitência neste terraço, não por avareza mas pelo seu oposto, a prodigalidade. Assim, ele fica sabendo que os pródigos expiam sua culpa no mesmo terraço dos avarentos. Estácio está agora em condições de subir ao Paraíso celeste. Assim, sua condição é diferente da de outros poetas da Antiguidade, inclusive o próprio Virgílio, que por viverem no tempo do paganismo ficaram no Limbo, no primeiro círculo do Inferno.   

Os gulosos ocupam o 6º terraço (cantos XXII a XXIV). É um anjo (o da justiça) quem indica aos três poetas o caminho para esse terraço. Após apagar mais um P da testa de Dante, ele lembra que são bem-aventurados os que têm sede e fome de justiça, pois serão saciados, uma associação ao fato de que os penitentes aí passam fome e sede. Sua penitência é não poder comer os frutos apetitosos de uma árvore de conformação estranha (que dificultava a coleta de seus frutos) existente nesse terraço; e também de não poder beber a água límpida que vem do paredão da rocha e cai sobre essa árvore frutífera. Os poetas ouvem uma voz que expressa a proibição do consumo desses frutos como alimento. Após essa advertência, a voz cita cinco exemplos de temperança. Logo depois os poetas ouvem espíritos entoarem o salmo 51 que menciona lábios e boca louvando o Senhor, um uso mais nobre desta do que fizeram os gulosos, que ora expiam sua culpa neste terraço. Uma turba deles passa pelos poetas, e estes veem então como esses penitentes estão magros, mostrando só pele e osso.Dante encontra ali seu amigo Forese Donati, de aparência também muito alterada, que ele só reconhece pela voz. Na juventude, numa disputa poética, ambos trocaram sonetos vulgares e obscenos. Dante se admira de Forese já estar ali, e não na base da montanha (considerando o tempo que levou para se arrepender de sua vida pecaminosa), pois ele morreu há apenas cinco anos. Forese lhe responde que isso ocorreu graças às preces de sua viúva Nella,  cuja virtude elogia, enquanto critica as “descaradas florentinas” de seu tempo. Forese, respondendo a uma pergunta de Dante, diz que sua irmã Piccarda está no Paraíso. E identifica alguns daquele bando de sombras, magérrimos, que olham Dante com admiração. Segue-se uma crítica de Dante a sua cidade natal, Florença, “que dia a dia se despoja do bem”, enquanto Forese “prevê” (em relação ao ano em que se passa ação do poema, 1300) a morte daquele “que é mais culpado” disso, Corso Donati, seu irmão, líder dos Guelfos Negros que dominam politicamente Florença após Charles de Valois invadir Florença a pedido do papa Bonifácio VIII. Forese afirma que Corso irá para o Inferno.  Depois, Dante se depara com uma outra árvore, carregada de frutos. E vê sombras debaixo dela, tentando colhê-los. Não conseguindo, partem desapontadas. Os poetas ouvem uma voz que os manda passar ao largo dela e informa que ela deriva de uma árvore mais ao alto (i.e. do Paraíso terrestre) que foi mordida por Eva, ou seja, trata-se da “Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal” referida na Bíblia. Os poetas obedecem à determinação dessa voz estranha, que ainda cita dois exemplos de gula punida. Depois, os três poetas ouvem outra voz e Dante estremece com o fulgor que vê. Trata-se de outro anjo (o anjo da temperança), que lhes indica o caminho para cima a seguir.   

Os luxuriosos habitam o 7º terraço (cantos XXV a XXVII). Eles, que antes ardiam de paixão, ardem agora num fogo que os purifica, mas um sacrifício que não é eterno como os do Inferno.  É andando pelo fogo, entoando um hino (em que se pede a ajuda de Deus para combater tal pecado) e lembrando exemplos de castidade que os luxuriosos se penitenciam. Antes de chegar ao 7º terraço, os poetas conversam entre si. Dante quer saber de Virgílio como é possível aqueles penitentes emagrecerem se eles não precisam alimentar-se. Virgílio repassa a palavra a Estácio para que este explique. Ele então apresenta uma explicação baseada na ciência de Aristóteles e na teologia de S.Tomás de Aquino. Refere-se ao processo de formação do ser humano, que começa adquirindo vida vegetativa (como a da planta), evoluindo depois para obter a sensitiva ou animal e, por fim, humana, quando o Motor Primeiro (Deus) “sopra novo espírito” no feto, tornando-o uma alma individual. Critica o filósofo Averroes, para quem não existia alma individual e sim somente uma alma universal compartilhada pelos seres humanos enquanto viviam. Estácio diz ainda que quando a pessoa morre a alma separa-se do corpo e leva consigo tanto as faculdades humanas (relativas à vida vegetativa e animal), que ficam “mudas”, quanto divinas (inteligência, memória e vontade) que ficam mais aguçadas do que antes. E a alma já sabe qual é o seu destino, caindo  em uma de duas margens, ou a do rio Aqueronte, que leva ao Inferno, ou a do rio Tibre (em Roma), que leva ao Purgatório. A alma toma nesse lugar a forma de um corpo aéreo, que conta com todas faculdades, inclusive a dos órgãos dos sentidos (canto XXV). Os três poetas continuam a jornada, andando um atrás do outro por uma estreita faixa na cornija da montanha, entre o fogo, que purifica os luxuriosos, e o precipício.  Na área do fogo, dois grupos de penitentes, que se movem em sentido contrário, se encontram, cumprimentam-se e seguem adiante. Os membros de um grupo gritam “Sodoma e Gomorra” -- cidades bíblicas de costumes sexuais pervertidos -- e os do outro, em alta voz, lembram Pasífae, esposa do rei de Creta, que se relacionou com um touro, daí gerando o Minotauro. O primeiro grupo é de sodomitas, gente que incorreu no pecado de Júlio César, e o outro, de heterossexuais, mas que adotaram práticas sexuais condenáveis, bestiais. Dante encontra nesse terraço dois poetas que admira, Guido Guinizzelli, criador do dolce stil nuovo (que pertence ao segundo grupo), e o trovador provençal  Arnaut Daniel, il miglior fabbro (“o melhor artífice”). T.S.Eliot usa essa expressão, referindo-se a Ezra Pound, na dedicatória de “The Waste Land”. E no corpo do poema  faz outra citação do “Purgatório”: transcreve parte da fala de Arnaut Daniel em sua própria língua, tal como ocorre no final do canto XXVI. Dante fecha esse canto referindo-se à saída de cena dele: Poi s’ascose nel foco che gli affina (Depois, escondeu-se no fogo que os purifica”) (Purg. XXVI, 148).  Posteriormente, surge ali um anjo (o anjo da castidade) que entoa mais uma das bem-aventuranças, aquela que bendiz os “puros de coração”. Esse anjo manda os três poetas passarem pela barreira de fogo, para prosseguir a viagem, o que faz Dante ficar aterrorizado. Virgílio o encoraja a fazer isso, afirmando que entre Beatriz e ele agora só há este muro. Dante sente a intensidade do calor ao atravessá-lo. Ele serve não só para a purificação dos luxuriosos mas também para barrar o acesso ao Purgatório terrestre, localizado, como se disse, no topo da montanha do Purgatório. Para Dante a travessia representava também expiação de um dos três pecados capitais (juntamente com o orgulho e a ira) de que ele se sentia culpado.  Os três transpõem o fogo e se veem ao pé de uma escada. Ouvem então um outro anjo, o anjo-guardião do Paraíso terrestre, que pronuncia as palavras de boas-vindas que Cristo proferirá aos justos no Dia do Juízo Final segundo o Evangelho de S. Mateus (canto XXVII). 

Nos cantos finais do Purgatório (cantos XXVIII ao XXXIII) Dante e seus acompanhantes estão no Paraíso terrestre. Tem-se aqui um outro padrão de abordagem, diferente do adotado antes, relativamente aos sete terraços.  Aliás, para o citado T. S. Eliot, nesses últimos cantos do “Purgatório”  já estamos no mundo da terceira parte da “Divina Comédia”, do cântico do “Paraíso”. Para o poeta anglo-americano, esses últimos cantos têm a qualidade do “Paraíso” e nos preparam para ele (4). Está presente aí uma grande alegoria (dentro de um poema essencialmente alegórico, em que elas são muito frequentes) apresentada a seguir. É formada pelos elementos integrantes de uma procissão extraordinária apresentada do canto XXIX, na qual vai se apoiar o desenvolvimento dos cantos subsequentes, até o final do cântico.    

Vencidos todos os sete terraços dos penitentes, Dante aproxima-se de um rio, que saberemos depois tratar-se do Letes, o rio do esquecimento (no caso, da memória do pecado).  E observa essa estranha procissão na outra margem dele.   

Na frente, vêm sete candelabros (interpretados como os sete dons do Espírito Santo: sabedoria, discernimento, prudência, força, conhecimento, piedade e temor de Deus), cujas chamas das velas deixam atrás de si um  rastro no ar, sete listras nas cores do arco-íris e do halo da Lua. Atrás dos candelabros vêm vinte e quatro anciãos, vestidos de branco, que representam os vinte e quatro livros do Velho Testamento. Eles são seguidos por quatro animais, coroados por verdes folhas (o verde da esperança) e providos de seis asas, cujas plumas continham olhos, “como os de Argus” (personagem mitológico com cem olhos). Eles simbolizam os quatro Evangelhos, conforme uma representação tradicional. O espaço entre os quatro animais contém um carro, puxado pelo colo de um grifo, a figura mitológica com cabeça e asas de águia e corpo de leão. A parte de ave era de ouro, enquanto o restante do corpo do grifo era branco e vermelho. As asas do grifo se erguiam a perder de vista e se encaixavam entre as sete listras coloridas de luz mencionadas antes. O carro situado entre os quatro Evangelhos representa a Igreja, e o grifo, Cristo, com sua dupla natureza, divina e humana. Junto à roda direita do carro, três damas avançavam dançando. São interpretadas como as virtudes teologais -- Fé, Esperança e Caridade – associadas respectivamente ao branco, à esmeralda e ao vermelho. Esta última impunha o ritmo da dança às outras damas, demonstrando a primazia do amor frente às outras virtudes.  Ao lado da roda esquerda do carro quatro outras damas dançavam. São as virtudes cardeais -- Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza -- e vestem a púrpura imperial, pois representam as virtudes clássicas, pagãs. Seguem a cadência da Prudência. Na sequência vêm sete velhos, que representam os livros restantes do Novo Testamento. Inicialmente, Dante vê dois deles (“Atos”, cujo autor é S.Lucas, e  “Epístolas” de S.Paulo), em seguida quatro outros velhos (Epístolas menores de Tiago, Pedro, João e Judas) e por fim um velho sozinho, como que adormecido, de expressão arguta (o “Apocalipse” de S.João). Esses sete anciãos também se vestiam de branco (associado à Fé), como os primeiros vinte e quatro antes referidos. Diferentemente destes, porém, não estavam coroados de lírios mas de flores vermelhas, cor associada à Caridade. Ainda conforme a interpretação dos comentadores, o Novo Testamento, embora conserve o branco da Fé, difere do Velho Testamento por dar maior ênfase à Caridade.   

            Pelo parágrafo anterior pode-se bem avaliar a importância que assume o simbolismo das cores no poema. Não só a cor está presente mas também o som, melodioso, dada a frequência das menções a salmos e hinos cantados,  referências a Te Deum, Hosana etc   

Nos cantos XXX e XXXI  dá-se o encontro tão aguardado de Dante com Beatriz. No canto XXX, Dante, antes de atravessar o rio Letes, observa na outra margem o cortejo parar. Os 24 anciãos se voltam para o carro (a Igreja) e um deles convoca, por três vezes, a vinda da “esposa do Líbano”, uma citação bíblica, que no caso significa convocar a vinda de Beatriz (que encarna, como se disse, a Fé na Verdade revelada). Na sequência, cem anjos alçam voo sobre o carro e, bendizendo a vinda dela, jogam flores para cima e em torno do carro. Dante então a vê (depois de dez anos, pois ela faleceu em 1290) nessa “nuvem de flores”, de véu branco, coroada de oliva, em vestes verdes e vermelhas, com as cores assim das três virtudes teologais mencionadas antes. Quando Dante se volta para a esquerda, para expressar sua emoção a Virgílio, este não está mais ali. Percebe que ele já partiu, e isso o leva às lágrimas. Beatriz chama Dante pelo nome (a única vez em que é referido na “Comédia”) e diz que ele deve chorar por outro motivo, a saber, pelos seus pecados. Dante então é tomado de vergonha ao lembrar deles. Não suporta ver sua imagem refletida no rio.  Na sequência, anjos cantam um salmo que afirma a esperança do pecador na misericórdia de Deus. Ao perceber que os anjos se compadeciam dele, frente à severidade de Beatriz, Dante chora e suspira. Beatriz diz aos anjos que Dante se afastou do bom caminho depois que ela faleceu. Visando corrigir isso, foi preciso mostrar-lhe a gente condenada. Para tanto, ela contou com a ajuda de Virgílio.  Conclui o canto XXX afirmando que para passar pelo Letes, e provar sua água, é necessário que o arrependimento faça verter lágrimas. Beatriz induz Dante a fazer sua confissão, perguntando a ele, na outra margem do rio Letes, se não é verdade o que ela disse sobre a vida pecaminosa que ele levou após o seu falecimento.  Dante, emocionado, quase não consegue dizer o “sim” que reconhece isso. E acrescenta, chorando, que de fato buscou o falso prazer das coisas terrenas após a morte dela.  Beatriz afirma que a lembrança de sua “carne sepulta”, ou de seu belo corpo enterrado, deve fazer com que ele não se iluda mais “ouvindo as sereias” quando retornar ao nosso mundo, pois tudo aí é efêmero, desviando-o do caminho do bem. Posteriormente ela retira o veu de seu rosto, o que está associado à ideia da Revelação. 

A confissão e o arrependimento de Dante são indispensáveis para o prosseguimento da sua jornada. Ele se emociona tanto com isso que chega a desmaiar. Quando volta a si, está sendo puxado por Matilda -- uma jovem que vira antes colhendo flores, e com quem dialogara -- dentro do Letes, para a outra margem do rio.  Ela o faz engolir um pouco da água deste. É só assim, sem a memória do pecado, que ele pode ingressar no Paraíso terrestre, a morada concebida por Deus para ser habitada pelos homens, rejeitada por Adão e Eva...   

Digno de nota é a identificação do Paraíso terrestre, onde é sempre primavera, com o Parnaso dos poetas antigos (canto XXVIII). O Parnaso, segundo a mitologia clássica, era a montanha na Grécia consagrada às Musas e a Apolo. Dante faz aqui, assim, uma associação interessante entre um mito religioso e um mito literário, coerente com sua predisposição permanente de explorar tanto a mitologia judaico-cristã como a greco-romana... A propósito, não é preciso que o leitor acredite nos dogmas do catolicismo ou seja religioso para gostar da “Divina Comédia”. Basta que ele suspenda a sua descrença (como disse T.S.Eliot) (5) e aceite a verdade desse mundo fictício se está interessado em  desfrutar de sua poesia... 

No canto XXXII, o cortejo alegórico se põe em marcha, detendo-se junto a uma árvore, identificada como a do Conhecimento do Bem e do Mal (que representa a lei divina) referida na Bíblia, de cujo fruto não se podia comer. A desobediência dessa proibição motivou a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. O grifo puxa o carro para junto da árvore e une a esta o timão daquele, união que provoca uma transformação imediata da árvore, que adquire uma cor púrpura e cujos ramos, antes despojados, se renovam como na primavera. Então, um hino é cantado e Dante adormece. Acorda-o Matilda, a quem Dante pergunta por Beatriz. Ele a vê debaixo daquela árvore singular, sentada sobre sua raiz. É circundada pelas sete Virtudes (cardeais e teologais) com os candelabros nas mãos. Os outros integrantes do cortejo já deixaram o local (subiram ao céu). Beatriz permanece ali, junto à árvore, ao qual está atado o carro, pois ela é a guardiã deste (a Fé zela pela correção da Igreja). Beatriz  pede para Dante prestar atenção no que verá em seguida, e que registre isso por escrito mais tarde, quando voltar ao nosso mundo. Segue-se uma sucessão de sete quadros vivos, alegóricos, que resumem a história e as vicissitudes da Igreja Católica desde os seus primórdios. São estes: 1) uma águia cai sobre a árvore violentamente, rompendo a casca, folhas e flores, e fere o carro  (representa as perseguições do Império Romano ao cristianismo e à igreja); 2) uma raposa magra, de “ossos descarnados”,  lança-se para dentro do carro em busca de pasto, mas Beatriz a escorraça (raposa = heresias); 3) a águia retorna, pela via da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, porém sem danificar esta, deixando plumas no fundo do carro (refere-se às boas intenções do imperador Constantino, que apoiou a Igreja dotando-a de poder temporal); 4) a terra se abre entre ambas as rodas do carro e dali emerge um dragão (= Satanás), que crava no carro sua cauda venenosa, e depois leva consigo uma parte do fundo do carro (refere-se aos cismas da Igreja); 5) todo o restante do carro se recobre de plumas (simboliza a ampliação do poder temporal da Igreja mediante outras doações, além da de Constantino); 6) em consequência disso, o carro vira um monstro de sete cabeças e dez chifres, inspirado no Apocalipse (representa o desvirtuamento da Igreja; as cabeças são os pecados capitais; três dessas cabeças tem dois chifres: são os pecados mais graves, a saber orgulho, inveja e ira); 7) Dante vê, sentada no monstro, uma prostituta (= a Igreja corrompida da época) tendo ao lado seu amante, um gigante (= o rei de França). Ambos se beijam. Por causa dos olhares maliciosos que ela lança ao poeta, o gigante a maltrata (quer dizer, se a Igreja se afasta do rei francês e se volta para seus fieis é castigada por ele; referência a certos fatos históricos ocorridos). Por fim, o gigante irado desata o monstro (ou o carro da Igreja) da árvore e o leva para dentro da floresta (isso é interpretado como a transferência da sede do papado para Avignon feita pelo rei francês Felipe IV no ano de 1305).  

O último canto (canto XXXIII) refere-se ao lamento das sete damas (as virtudes), motivado pelo desvirtuamento da Igreja, significado essencial de toda essa alegoria que vem sendo descrita.  Beatriz também fica pesarosa ao ouvi-las entoar o salmo 79 no qual se fala da ocupação do templo e destruição de Jerusalém pelos pagãos. Depois, ergue-se da raiz da árvore em que estava sentada e pronuncia palavras em latim, extraídas do evangelho de S. João, interpretadas como relativas à restauração futura da Igreja. Na sequência, ela se põe em marcha no Paraíso, com as sete damas na frente e seguida por Dante, Matilda e Estácio. Dante ouve Beatriz discorrer extensamente sobre essa alegoria, numa linguagem profética e obscura. Sua fala, interpretada, diz que essa não é mais a Igreja de Deus e que os culpados por isso serão punidos. Prevê a vinda de um “quinhentos dez e cinco” (DVX ou líder, guia) que matará a rameira (a Cúria romana) e o gigante (rei de França), colocando a Igreja novamente no bom caminho. Esse guia poderia ser Henrique VII, o herdeiro do Império Romano -- em quem Dante-autor depositou suas esperanças -- ou algum outro líder que assumiria o poder temporal, deixando a Igreja exercer apenas aquele que lhe cabe, i.e. o poder espiritual.  Beatriz afirma que sua narração é obscura mas que logo os fatos se encarregarão de esclarecer tudo. E incumbe Dante de registrar as palavras dela para mostrá-las aos vivos, quando retornar ao nosso mundo.  Ele deverá relatar que a planta (a árvore da Ciência do Bem e do Mal, ou a lei divina) do Paraíso terrestre foi despojada duas vezes, uma pela desobediência de Adão e outra pelo desvio histórico da Igreja, que a levou à precária situação de então. Dante lhe diz que seu cérebro está marcado pelas palavras dela como o sinete marca a cera e pergunta porque tais palavras estão tão acima de seu entendimento. Beatriz aqui implicitamente critica a filosofia, à qual Dante dedicou muito tempo de sua vida, indicando que ela é insuficiente para a compreensão das verdades reveladas.  Ao meio-dia as sete damas se detêm numa região de sombra, no Paraíso ensolarado, e ali Dante vê dois rios saírem de uma mesma nascente e depois se afastarem entre si. São o Letes (o rio que apaga a memória do pecado, que Dante tomou da mitologia clássica) e o Eunoe (que reaviva a memória do bem praticado, invenção de Dante). Beatriz incumbe Matilda de levar Dante até o Eunoe. Então ela o leva até esse rio, acompanhado por Estácio, que atende ao chamado desta para também ir até lá. Dante diz que retorna dessa “santíssima água” renovado e pronto para “subir às estrelas”:  puro e disposto a salire a le stelle  (“puro e disposto a subir às estrelas”) (Purg. XXXIII, 145).  O “Purgatório” conclui assim do mesmo modo que os outros dois cânticos, com o último verso referindo-se às estrelas. 

            Antes de concluir, vale a pena lembrar a importância da crítica social também no “Purgatório”, o que já ocorrera, de modo mais acentuado, no “Inferno”. Acabamos de ver, nos cantos finais do “Purgatório”, a crítica feroz que Dante faz à Igreja católica de seu tempo. Ele se antecipa, em duzentos anos, à justa crítica de Lutero. Mas não só a Igreja é criticada, também os costumes da Itália de seu tempo, nomeadamente as regiões da Toscana,   Romagna (canto XIV) e Lombardia (canto XVI), além da sua cidade natal, Florença (canto VI, XVIII).  A critica social é um aspecto tão importante no poema que levou Erich Auerbach a considerar Dante “poeta do mundo secular”:  

“(...) a Comédia é, na verdade, um retrato fiel da vida terrena. O mundo dos homens está, em toda a sua complexidade, reunido na estrutura da vida futura, no Além: completo, autêntico, inserido numa ordem eterna” (6) 


NOTAS 

(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985- p. XIII, XVIII e XX.   

(2) ELIOT, T.S.- “Dante”. London and Faber, 1966- p.29 

 (3) Cf diagramas em MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p. 314-5. 
Para uma visualização da estrutura do cântico como um todo, consultar o excelente quadro-resumo contido em SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p. 202-3 

(4) ELIOT, T.S.- “Dante”, op cit, p. 34 e 41.  

(5) Id. ib,, p. 36 e 52.  

(6) AUERBACH, Erich- “Dante- poeta do mundo secular”. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997,  p.165
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