quarta-feira, 16 de junho de 2010

VIAGEM A LISBOA E MADRI





Após uma semana no Velho Mundo, dedicada exclusivamente a conhecer Lisboa (v. foto) e Madri, já estamos novamente em casa, eu e Rosi.

Chegamos a Lisboa no dia 10 de maio de 2010, à tarde, após atraso de duas horas na partida do aeroporto de Madri, escala obrigatória no voo da Iberia que nos levaria à capital portuguesa. O motivo alegado foi a troca da aeronave, troca essa certamente relacionada ao problema que as cinzas do vulcão da Islândia trouxe aos voos na Europa (a viagem posterior, de Lisboa a Madri, sofreria um atraso maior, de umas três horas).

Deixamos as malas no hotel Eduardo VII e, sem disposição para descansar, partimos imediatamente para conhecer a cidade, agitada pela iminência da chegada de Bento XVI (havia nas ruas que percorremos faixas e outdoors dando-lhe as boas vindas). Iniciamos a visita pela famosa Praça do Comércio junto ao rio Tejo. Lá, homens trabalhavam preparando o local para a missa que o Papa rezaria no dia seguinte. Dessa praça saem várias ruas que levam à Baixa (o centro da cidade). Numa delas, que faz esquina com a praça do Comércio, funciona o famoso café Martinho da Arcada, frequentado por Fernando Pessoa (no local há várias fotos dele, e também de celebridades ainda vivas como o cineasta Manoel de Oliveira e o escritor José Saramago, que tem ali mesas cativas). Visitamos também outro café frequentado pelo poeta dos heterônimos, o “A Brasileira” do Chiado, região da cidade contígua à Baixa.

Subimos a pé por aquelas ruas, Augusta ou do Ouro, observando as lojinhas de comércio e os edifícios antigos, até o Elevador de Santa Justa, um dos cartões postais de Lisboa, que liga a Baixa ao Rossio. Depois, descemos pela rua do Carmo e caminhamos até a praça Luís de Camões pela rua Garret, onde se localiza o mencionado café ‘A Brasileira”, na frente do qual há uma estátua do poeta, sentado junto às mesas da calçada, como se fosse um turista a mais, bebericando.

Nas livrarias das imediações comprei “Breve História de Portugal” de A.H. de Oliveira Marques e o volume II da “História de António Vieira” de J. Lúcio de Azevedo (cujo volume I eu já possuía, adquirido num sebo de Joinville).

Próximo dessa área vi a chegada do eléctrico 28 a um ponto de parada. Logo corremos para apanhá-lo, pois eu sabia que esse bondinho faz um percurso interessante pelas áreas tradicionais da cidade, inclusive pelo seu bairro mais antigo e pitoresco, o de Alfama. Este bairro, visitamos mais demoradamente no dia seguinte (terça-feira, dia 11), quanto estivemos na Feira da Ladra e, mais tarde, no famoso Castelo de São Jorge, de onde se obtém uma vista panorâmica da cidade, e também no belo largo das Portas do Sol. Observamos daí não só o casario antigo lá embaixo mas também o Tejo. Percebemos a presença por ali (e também em outro locais) de muitos turistas alemães.

Depois disso, meu interesse era visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, para ver lá a tela de Bosch “As tentações de Santo Antão”, além naturalmente dos artistas portugueses, como Nuno Gonçalves, autor de um políptico muito reproduzido nos livros de História (aquele em que aparece o infante D.Henrique). Mas o trânsito para a sua região estava todo impedido, devido à visita do papa, de modo que só visitaríamos esse museu no dia seguinte, dia 12, ao retornar de Cascais. Assim, mudamos os planos e fomos mais para o norte da cidade, nas proximidades do nosso hotel, região em que se localiza o museu da Fundação Calouste Gulbenkian, que visitamos, assim como a filial portuguesa de El Corte Inglês-- uma cadeia de loja de departamentos espanhola—onde jantamos. Do museu, a tela que gostei mais foi a de Rubens “Os amores dos centauros”. Mas havia também outras, de Franz Hals, dos impressionistas franceses etc
No dia 12 visitamos o imponente Mosteiro dos Jerônimos, onde estão os túmulos de Camões, Vasco da Gama e muitas outras figuras importante da história de Portugal. Para lá também foram transferidos, no cinquentenário da morte do poeta (1985), os restos mortais de Fernando Pessoa. No bloco de quatro faces que assinala o seu túmulo constam versos dele mesmo e de seus heterônimos. Os de Ricardo Reis são os seguintes:

Para ser grande, sê inteiro; nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Nessa ocasião visitamos também o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém, situados no local de onde partiam os navegadores portugueses. Um pouco adiante, na estação de Algés, pegamos o trem que nos levou à acolhedora Cascais (onde almoçamos e eu comprei, na livraria Galileu, um “Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português”, recentemente lançado). Na viagem de ida a Cascais avistamos do trem o Cassino do Estoril.

A impressão que nos ficou do povo de Lisboa, cujos representantes contatamos (transeuntes, para pedir informações, motoristas de táxi, garçons, recepcionistas de hotel etc) foi a de gente sóbria, pouco extrovertida, prestativa, mas um pouco fria, emocionalmente...(ao contrário dos habitantes de Madri). Duas pessoas me causaram má impressão: um motorista de táxi salazarista, sarcástico, que criticou a democracia porque é dominada por políticos ladrões. Mas esse mesmo sujeito, quando lhe paguei a corrida, me roubou no troco, dando-me um euro a menos... A outra pessoa foi uma mulher negra (aliás, em Lisboa, assim como em Madri, não se veem mulatos, e sim pretos retintos). Ela estava sentada num banquinho, à espera do trem para Cascais, e nós também. Quando quisemos ver, enternecidos, o rosto do bebê no colo dela, cuja cabeça estava coberta por uma manta, ela rispidamente nos proibiu: “Não se pode ver!...” O que será que se passava na mente daquela mulher? Medo de “mau olhado”?

Lisboa é uma cidade limpa, e aparentemente sem mendigos ou crianças de rua... O sistema de bondes, na região mais antiga, é pitoresco e lhe dá um ar peculiar. O tradicional coexiste com o moderno, pois os automóveis também circulam por aquelas ruas de Alfama, onde a impressão que a gente tem é que a cada momento vai acontecer um acidente... E podem também ocorrer ali cenas curiosas como aquela que aconteceu com o eléctrico que nos transportava... ele parou quando outro se aproximava em sentido contrário. Então o motorista desceu do bonde com uma espécie de alavanca nas mãos e usando-a na engrenagem fez com que o nosso bonde retrocedesse por um certo trecho, até ultrapassar um desvio que permitiria a passagem do outro bonde...

No dia 13 de maio, quinta-feira, enquanto o papa cumpria sua programação no santuário de Fátima, partimos de Lisboa, chegando a Madri por volta das 17 horas.

Na capital espanhola, instalamo-nos no hotel NH Zurbano. Logo em seguida, como em Lisboa, partimos para conhecer o centro da cidade. Tomamos o metrô próximo ao hotel e fomos sair em plena Puerta del Sol, cheia de gente fazendo festa, com muitos torcedores do Atlético de Madri comemorando a vitória do time (soubemos depois que ele ganhara a Copa da Europa). Predominava assim em toda parte a cor vermelha do time. Circulamos pelas imediações. Entramos em El Corte Ingles para avaliar os preços das encomendas que nos fizeram. Na livraria dessa loja de departamentos comprei “La España de los Austrias “ (1516 e 1700), de Bartolomé Bennasar, sobre os reis espanhóis da dinastia de Habsburgo aos quais se subordinaram Portugal e suas colônias. O livro me interessou por relacionar-se a um tema que venho estudando há algum tempo, o do “Paraná espanhol”. Como se sabe, Portugal (e também o Brasil) caiu sob o domínio de Felipe II, rei da Espanha, em 1580, e tal subordinação perdurou até 1640, sob Felipe III e IV. Mas a presença espanhola já se impusera no Estado do Paraná bem antes, desde meados do século XVI, no final do período de Carlos V...

Como em Madri escurecia tarde nessa época (lá pelas 21:30) tivemos bastante tempo para caminhar por toda aquela região, indo até a Plaza Mayor, cheia de gente sentada às mesas ao ar livre ou caminhando pela praça, circundada por edifícios de alguns andares apenas, como a Praça do Comércio em Lisboa, característica aliás dessas cidades, em que não se veem arranha-céus do estilo norte-americano. No centro da Plaza Mayor está uma estátua equestre de Felipe III (e no Museu do Prado, que visitaríamos no dia seguinte, 14 de maio, há diversas telas retratando Felipe IV pintadas por Velazquez). Li que no passado em tal praça havia touradas, julgamentos da Inquisição e execuções... Ao percorrer as lojinhas, restaurantes etc que existem ao longo dos quatro lados da praça deparamos com a saída repentina do que deveria ser um cartório de duas mulheres vestidas de branco, recém-casadas, sobre as quais um grupo de amigos jogava arroz e saudava com gritos entusiásticos... Jantamos no Museo del Jamón, um daqueles estabelecimentos típicos dessa área central da cidade, consumindo vinho da casa e um prato de “calamares” (lula frita), camarão, pata de caranguejo, peixe etc. É o que eles chamam de “tapas”. Subimos ao primeiro andar, onde se podia sentar, mas no térreo havia muita gente em pé, no balcão, tomando vinho ou uma “caña” (cerveja) com esses “tapas”, algo que vimos se repetir em diversos outros estabelecimentos.

Na manhã do dia seguinte, decidimos visitar o Museu do Prado. Para tanto tomamos um ônibus perto do hotel. Ônibus de boa qualidade, novo, com pouca gente. Junto ao ponto de parada havia indicação de quanto tempo faltava para ele chegar: um minuto. Chegou antes disso... Com ônibus desse tipo você troca facilmente o carro particular pelo transporte coletivo! É exemplo para as cidades brasileiras... (todavia, o trânsito em Madrid, especialmente nas horas de pico, não deve ser fácil, como percebemos ao chegar, fazendo o trajeto do aeroporto de Barajas até a Calle Zurbano...)

Descemos pelo Paseo de la Castellana, uma ampla avenida, passamos pela Plaza de Colón, Biblioteca Nacional e Plaza de la Cibeles até chegarmos ao ponto em que deveríamos saltar.
Para entrar no maravilhoso Museu do Prado, tivemos que pagar 8 euros por pessoa. Mesmo sendo dia de semana, há fila para entrar, formada em sua maior parte por turistas, como se percebia facilmente. De todo o acervo, o que mais curti foram as telas de Velazquez e Goya, além naturalmente as de Bosch Nos quadros mais famosos, há aglomeração de gente em frente a eles, o que dificulta um pouco a nossa curtição. Na saída do museu, é possível comprar-se livros de arte, e reproduções das telas em tamanho grande (comprei uma do “Jardim das Delícias” de Bosch, e outra, de “O guarda-sol” de Goya, além de um livro de interpretação sobre o simbolismo do primeiro quadro).

Saindo do Museu, caminhamos pelo Paseo del Prado até a Plaza de Cibeles, cujo monumento que mostra a deusa romana conduzindo um carro puxado por dois leões é também cartão postal da cidade, e dali seguimos em frente pela Calle de Alcalá, onde fizemos uma refeição, até reencontrarmos no final da caminhada a Puerta del Sol e a Plaza Mayor.

No dia 15, sábado, decidimos ir até o Museu Reina Sofía para ver quadros de Dali e a “Guernica” de Picasso. Já sabíamos o caminho, pois fica próximo ao Museu do Prado. Descemos do ônibus um pouco mais adiante, para ver a estação ferroviária de Atocha, um prédio antigo que curiosamente abriga um jardim de inverno em seu interior. Mas não conseguimos entrar no museu, pois estava fechado. Um dos poucos dias que fecha, durante o ano, é justamente 15 de maio, dia de San Isidro, o padroeiro de Madri. Devia ser por isso que vimos em vários lugares pessoas jovens e velhas com trajes típicos, que certamente participavam das festividades alusivas à data. Na Puerta del Sol encontramos um desses grupos, composto por gente de meia idade, cantando e dançando, em volta do qual se aglomeravam os transeuntes.

Como não pudemos visitar o Reina Sofía, decidimos tentar outro museu, localizado também nessa região, o Thyssen-Bornemisza, que felizmente estava aberto. Conta com um amplo acervo, desde artistas muito antigos até os mais modernos, e mesmo vanguardistas, como Kandinski e Braque. O que mais me impressionou ali foi um autorretrato de Rembrandt. Mas havia muita coisa interessante...

Na sequência queríamos visitar o Palácio Real. Pegamos um táxi e para lá nos dirigimos, pedindo para o motorista nos deixar em algum lugar, próximo ao Palácio, a fim de comermos alguma coisa. Tomamos uma “caña” e comemos uns salgados no balcão, ao estilo espanhol (ao nosso lado havia uma família, com avós, pais e filhos, em situação semelhante). Devido ao feriado de San Isidro, também não pudemos entrar no Palácio, só o observando por fora. Passeamos pelas suas imediações, observando na Plaza de Oriente a longa série de estátuas dos antigos reis espanhóis.

Saímos dali, e passeamos pelas ruas próximas, onde parte do comércio já estava fechado, por ser sábado à tarde. Acabamos assim retornando à região central.

Depois disso, entramos num estabelecimento da Plaza Mayor para jantar. Pedimos uma paella de frutos do mar. Em seguida retornamos de táxi para o hotel. A TV local mostrava artistas se apresentando num palco montado na Gran Vía, em comemoração ao centenário dessa avenida. No dia anterior havíamos estado ali e percebemos pela agitação que algum evento estava sendo preparado no local. Mais um motivo para festa desse povo alegre, que sabe viver, que faz a siesta depois do almoço e cujo comércio só reabre às 17 horas.... que a ditadura sangrenta de Franco não conseguiu tornar triste e desfibrado (nesses dias vimos manifestação dos trabalhadores numa praça de Madri em protesto contra o pacote de medidas adotado por Zapatero para combater a crise). Essa Gran Vía situa-se acima da Calle de Alcalá. Por ela também caminhamos um pouco, observando as pessoas e os prédios, vivenciando enfim a cidade...

Logo de manhã, 16 de maio, partimos para o aeroporto de Barajas, a fim de enfrentar as onze horas de viagem correspondente ao voo Madri-São Paulo. O voo iniciou na hora prevista, 12:15 em Madri, ou seja 7:15 da manhã no Brasil, já que há uma diferença aqui de cinco horas a menos no fuso horário.

JULIETA SOARES GOMES







Ela nasceu em 1866 na província de Santa Catarina, provavelmente naquela mesma Desterro, atual Florianópolis, onde seus pais se casaram em 20 de outubro de 1864.

O pai era um comerciante português chamado Manoel Soares Gomes, nascido no Porto em 1829. Ele contava, portanto, 37 anos quando Julieta nasceu. Já havia morado antes no Paraná, em Antonina, pois foi ali que nasceu, em 1854, seu filho Teófilo, fruto do primeiro casamento, com Maria Gonçalves Moraes, também nascida em Santa Catarina.

Teófilo destacou-se na nossa história política. Foi prefeito de Antonina, deputado estadual várias vezes e chegou a ser aclamado governador do Estado em Paranaguá, quando os federalistas ocuparam a cidade em 1894. Eles o libertaram da prisão (estava preso por ter liderado o movimento em terra, pouco antes da chegada da esquadra do almirante Custódio de Melo).

Além disso, ocupa um papel importante na história do teatro paranaense. Foi considerado por Tasso da Silveira o “fundador da literatura dramática no Paraná”. Como autor dramático, suas peças foram elogiadas pelo Conservatório Dramático Brasileiro, do Rio de Janeiro.

Era também industrial, proprietário de um engenho que beneficiava arroz em Antonina.

Quando Teófilo, meio-irmão de Julieta, nasceu, o pai deles, Manoel, contava 25 anos de idade. Não sei com que idade emigrou para o Brasil, mas seguramente foi mais um dos portugueses jovens que vieram para cá em meados do século 19 a fim de “fazer a América”...

A mãe de Julieta chamava-se Rita Adelaide Coutinho e era também natural de Santa Catarina, onde nasceu em 1838. Casou-se com Manoel Soares Gomes aos 26 anos. Coutinho é nome de antiga família portuguesa, e os genealogistas constatam a sua presença no Rio de Janeiro já nos séculos XVI e XVII. Porém, as origens dessa família na Ilha de Santa Catarina podem estar também relacionadas à vinda dos imigrantes açorianos, ocorrida no século XVIII.

O nome dado à única filha do casal (que teria ainda dois filhos homens -- Franklin e Edmundo) revela bom gosto literário por parte de quem o escolheu pois é imediatamente associado à peça de Shakespeare – “Romeu e Julieta”. Manoel, apesar de homem de negócios, poderia ser um interessado em arte, gosto que teria transmitido ao filho Teófilo, dramaturgo. Além disso, sabe-se que Julieta gostava de ler romances e estudou canto lírico. E Franklin, seu irmão, nascido no Rio de Janeiro em 1872, dedicar-se-ia profissionalmente à fotografia.

A informação sobre a cidade natal de Franklin nos indica que Manoel, nos primeiros anos da sua (segunda) vida de casado, deve ter se mudado com a família para o Rio, a fim de explorar as potencialidades comerciais da capital do Império, cidade que já devia conhecer, pois certamente entrou no Brasil pelo Rio de Janeiro. Mais tarde, contudo, ele se estabeleceria definitivamente em Curitiba. Em 1879, já o encontramos aqui como comerciante de farinha de trigo. Ele se tornaria um dos principais comerciantes da Curitiba do final do século 19, conforme atestam algumas fontes que consultei. Em 1889 sua casa comercial, localizada na praça Tiradentes, lidava com produtos importados dos Estados Unidos (máquinas à vapor, instrumentos de lavoura, artigos de ferragem, máquinas de costura, mobílias, louça, porcelanas, cristais etc). Naturalmente, sua importância econômica é relativa, pois está condicionada à realidade da época em que viveu. Curitiba, em 1890, possuía apenas 25 mil habitantes...

Pelo que foi dito antes, em 1879 a família de Manoel já residia em Curitiba. Julieta tinha então 13 anos de idade. Sua meninice, ela a passara em Santa Catarina e no Rio de Janeiro (Ilha do Governador, segundo uma parente). Saberemos algum dia quais as experiências de vida que mais a marcaram nesse período? Os fatos exteriores da vida de uma pessoa são mais fáceis de conhecer; agora, os outros...

A família morava bem no centro de Curitiba, próximo à Catedral, onde o monsenhor Celso Itiberê da Cunha era o vigário desde 1901.

Nada sei sobre a educação de Julieta. Mas, seguramente, ela deve ter recebido a educação da época para as moças de sua classe social.

Em algum momento, por essa época, ela conheceu Florêncio, um dos dez filhos do primeiro casamento do Coronel Caetano José Munhoz, pessoa de destaque na sociedade paranaense de então.

Caetano foi um dos primeiros a instalar engenho de erva-mate em Curitiba -- o engenho da Glória -- que daria nome ao bairro (Alto da Glória). Quando Zacarias de Góes e Vasconcelos assumiu a presidência da recém-instalada província do Paraná, em 1853, ele lhe ofereceu recepção em sua casa, conforme relata Alcides Munhoz em “Folhas Cadentes”. Caetano faleceu em 1877. Quando Julieta conheceu Florêncio, provavelmente o pai deste não mais vivia (a mãe já havia morrido em 1861).

A história de sua união com Florêncio tem as características dos romances que ela gostava de ler. Havia oposição de seus pais a essa união (por qual motivo?). Mesmo assim ela se casaria, em segredo, aos 14 anos (ele com 22), em 11 de outubro de 1880, na capela de N.Sra do Rosário, conforme registrou, um ano e meio depois, no livro próprio, o padre Júlio Ribeiro de Campos, muito amigo de Florêncio (a quem este assistiria, mais tarde, no leito de morte).

Há uma menção a Florêncio naquele livro de Alcides Munhoz: sabemos dessa fonte que em 1887 ele era funcionário da Tesouraria da Fazenda, em Curitiba (o prédio da delegacia fiscal do tesouro federal localizava-se então na atual rua São Francisco, esquina com a Barão do Serro Azul). Florêncio foi um dos que assinaram a carta em que os funcionários de Alfredo Munhoz (seu irmão mais velho) o cumprimentavam pelo aniversário. Certamente Alfredo, que galgara todos os postos da carreira fazendária auxiliara o irmão mais novo a iniciar nessa mesma carreira, que também já fora seguida por Caetano Alberto, um outro irmão. Depois de Curitiba, Florêncio atuaria na alfândega de Paranaguá, em Alagoas e terminaria seus dias como guarda-mor da alfândega de Santos, em 1909 (“guarda-mor”, segundo os dicionários, era o representante do fisco a bordo dos navios, ou o título oficial do chefe da alfândega nos portos).

Sabe-se que o casal Julieta-Florêncio se separou. Segundo a versão que ouvi em casa, a separação teria sido encorajada pela mãe de Julieta, Rita. Por essa época, Manoel já havia falecido (faleceu em 1891).

Supondo que a separação ocorreu no ano de nascimento do último filho de Julieta, ou após, então ela não deve ter ocorrido antes de 1895. Pelo que se depreende da inscrição no verso de uma foto no álbum da família, datada de 28 de abril de 1895, ele já morava em Paranaguá nessa época. Na realidade, ele foi transferido para a Alfândega de Paranaguá em agosto de 1890. Mas seus filhos todos nasceram em Curitiba. Em 1899 ele continua residindo em Paranaguá, pois seu nome consta como um dos 1ºs. escriturários da Alfândega dessa cidade, segundo o “Almanach Paranaense para 1900” (p.146). Não sei se Julieta mudou-se com ele para Paranaguá, mas não deve tê-lo acompanhado a Alagoas, já que nada ficou, na memória da família, relativamente a alguma lembrança dela associada a esse Estado da federação.

Em 1894 Curitiba foi invadida e ocupada pelos federalistas, após tomarem Paranaguá. A eles se juntam as forças de Gumercindo Saraiva, que avançara desde o sul e derrotara a resistência de Tijucas. Devido ao papel ativo desempenhado por Teófilo em Paranaguá, todo o clã dos Soares Gomes – vale dizer, a viúva de Manoel e seus filhos – devia ser partidário dos federalistas, ainda mais pelas suas fortes vinculações com Santa Catarina. Como se sabe, a revolta da Armada escolhera Desterro, a capital da província, para sede do Governo Provisório da república antiflorianista.

A família Munhoz, por outro lado, situava-se politicamente em campo oposto, pelo menos Caetano Alberto, irmão de Florêncio, que era membro do governo de então, pois ocupava o elevado cargo de Secretário do Interior, Instrução Pública e Justiça (Caetano Alberto, que também fizera carreira fazendária, se aposentara há pouco). A tradicional família Munhoz pertencia à “fração hegemônica da classe dominante paranaense”, a dos ervateiros. Assim, tal família devia apoiar as forças da ordem, legalistas, do Marechal Floriano Peixoto. Todavia, a separação do casal não deve ter sido causada pelas divergências políticas entre as duas famílias, pois Florêncio tomou o partido dos maragatos, i.e. dos Soares Gomes, antiflorianistas, chegando por isso a ser demitido da Alfândega de Paranaguá em 1894 (seria mais tarde reintegrado às suas funções).



Quando as forças federalistas invadiram Curitiba, a cidade estava acéfala. O governador em exercício, Vicente Machado, havia fugido para o interior. O Barão do Serro Azul, na condição de líder empresarial mais importante, procurava negociar com os revoltosos para evitar saques e outras manifestações de violência. Imagino a apreensão dos moradores da cidade ante tais fatos, em particular dos membros da família de Julieta, então com 28 anos, de sua mãe e dos filhos (Hermínia nessa época tinha 11 anos e Arabela, minha avó, apenas 4). As ameaças vinham num primeiro momento dos revolucionários, famosos pelas suas crueldades (degolamentos). Depois, quando a situação política reverteu em favor dos florianistas, as ameaças vinham das perseguições destes aos revoltosos. Antes, Teófilo estivera na iminência de ser fuzilado em Paranaguá. Isso agora viria a ocorrer com o Barão do Serro Azul e seus companheiros no km 65 da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, acusados de colaborarem com os federalistas.

Julieta faleceu em 1919, aos 53 anos. Quando pesquisei, a respeito dela, nos registros do Cemitério Municipal S.Francisco de Paula, em Curitiba, fiquei surpreso ao constatar que a causa da morte fora a tuberculose. Nunca ouvira falar, em conversas de família, nessa doença associada a ela. Esconderam esse fato por considerá-lo vergonhoso? Que choque deve ter sido para a família constatar essa doença, numa época em que ela era mortal! Como teriam reagido seus filhos? Arabela uma vez me contou que chorava escondido, pedindo a Deus que a doença passasse para ela, poupando assim a sua mãe...

Quando e onde ela teria contraído a doença? Em Paranaguá (cidade sabidamente menos salubre que Curitiba), onde poderia ter vivido algum tempo? Foi essa a verdadeira causa da separação do casal?

Julieta chegou a ser internada em algum sanatório, ou foi um caso de “tuberculose galopante”? Chegou a mudar-se para outro lugar, em busca de “ares” mais saudáveis, como ocorria normalmente com pessoas acometidas por essa doença? De qualquer forma, a doença deve ser a principal explicação para o fato de Arabela ter sido “criada pela avó” Ritinha, de quem, aliás, ela gostava muito, e a quem ela auxiliava nos cálculos, pois era “boa em matemática”...

Quando Dona Ritinha morreu, o nome de Julieta não constou, ao lado dos irmãos, no convite para a missa de 7º dia publicado no “Diário da Tarde” de 12 de dezembro de 1911. Que motivo explicaria essa omissão, reveladora da atitude da família perante ela? A doença a teria expulsado da sociedade e do mundo dos vivos? Ou seria simplesmente para não constar o sobrenome Munhoz ao lado do seu, que ela excluiu após a separação?


Das lembranças de Julieta que ficaram no âmbito familiar, uma me foi transmitida pelo meu pai: ele se lembrava de uma vez, quando menino, em que ela descrevia a ação de um romance que lera, no qual um dos personagens atirava em outro. E imitava o som da arma disparando: pam... pam...pam... (aliás, esse gosto por ler romances ela legou também às suas filhas, o que, segundo ainda o meu pai, era objeto de amável admoestação do monsenhor Celso a Dona Ritinha, por causa da leitura, pelas jovens em formação, de obras com possível conteúdo pernicioso...)

Outra lembrança de Julieta relaciona-se ao canto lírico. Arabela contava, emocionada, que na visita que fez à sua mãe, já bem doente, ela lhe cantou "Musica Proibita”(*). Quando Arabela, que tinha então 29 anos, retornava para o interior (onde seu marido era delegado de polícia), a mãe faleceu.

A partir de agora, um dos meus poemas preferidos de Cruz e Souza—“Tuberculosa” -- estará para sempre associado a essa mulher sensível, sonhadora, que viveu muito tempo antes de eu nascer. Mais do que referir-se a um personagem romântico, o poema expressa a verdade de uma experiência de vida dolorosa, numa determinada época histórica, felizmente superada, em que a medicina não contava ainda com os meios de vencer essa terrível doença.

Cruz e Souza, como Julieta, também nasceu em Santa Catarina. Nasceu no Desterro cinco anos antes dela. E morreria da mesma doença em 1898.

(*)"Musica Proibita" pode ser ouvida em:
http://www.youtube.com/watch?v=qMioj51LlEw&feature=related

terça-feira, 15 de junho de 2010

EMILIANO PERNETA É UM GRANDE POETA?



A edição fac-similar de “Joaquim”, lançada, há alguns anos, pela Imprensa Oficial do Estado, permite-nos a leitura do famoso artigo de Dalton Trevisan (então com 21 anos e diretor-proprietário daquela revista), intitulado “Emiliano, poeta medíocre”, em que nega qualquer valor à poesia de EP (1866-1921), contestando frontalmente a opinião consensual do meio literário paranaense da época.


O artigo, que apareceu no número 3 da revista, em junho de 1946, reagia ao movimento em curso naqueles anos, promovido pelos admiradores de EP, destinado a revalorizá-lo e projetá-lo nacionalmente. Em 1945 publicam-se os dois volumes das “Poesias Completas” pelo editor Zélio Valverde, do Rio de Janeiro, e em Curitiba Gerpa-Grupo Editor Renascimento do Paraná publica um refinado ensaio de Erasmo Pilotto sobre o poeta, além da “Prosa” de EP, compilada pelo mesmo Erasmo, que aliás colaborava com Dalton na direção de “Joaquim”.


Erasmo, em seu estudo, considera EP “um poeta imenso”. Para ele, após o lançamento de “Ilusão” (1911), EP “é um poeta novo dentro do Brasil, uma nova vibração”. O livro continha “uma poesia que ainda não se tinha ouvido entre nós, assim tão clara, tão dionisíaca, tão luminosa, tão intensa, tão fresca e tão alada”.


O artigo de Dalton foi republicado, com alterações, cinco anos mais tarde na “Gazeta do Povo”, edição de 17 de junho de 1951, com o título “Emiliano, poeta perneta”, de onde extraio as citações abaixo (as alterações realizadas revelam uma opinião mais desfavorável com relação ao poeta). Para Dalton, a “mística de Emiliano” aqui existente era um equívoco. E a geração daqueles moços de então não queria nutrir-se de equívocos que a afastassem “da rua dos homens”. Para ele, a poesia de EP é artificial, falsa, “uma poesia de casinha de chocolate, onde quem passa a língua sente o gosto amargo da mentira”. Em sua opinião, Emiliano não fez “poesia essencial”. Situa-se “nos antípodas da verdadeira poesia e cujos versos chinfrins mais nos distanciam do coração quente da vida. Os seus temas, sem nenhum sentido ecumênico, são artificiais como florinhas coloridas de papel/.../ Em outro passagem, Dalton fala das suas “imagens do dicionário grego-latino”. Para ele, EP era homem ressentido que “escreveu versos não para trazer uma nova luz ao coração dos homens” e sim para se vingar do mundo./.../ De uma inspiração rasa como capim /.../ quando ia atrás da luz do sol fechava as janelas e acendia um fósforo. Falta céu e amor na sua poesia” etc


À parte os possíveis méritos que a atitude do jovem iconoclasta poderia conter, rompendo com o passado para dar lugar à modernidade na literatura paranaense, ela teve pelo menos uma conseqüência negativa: a de levar as novas gerações a menosprezar a obra de um poeta que vale a pena ser lido e estudado, não só por ser nosso, refletindo, à sua maneira, o modo de pensar e de sentir do nosso meio social, mas por ter composto alguns poemas realmente notáveis, tais como “Salomão”, “Vencidos”, “Nox”, “Baucis e Filemon”, “Azar”, “Cavaleiro” e “Última volúpia”, além daqueles citados ao longo deste artigo.


Trevisan, com o passar do tempo, tornou-se um escritor de prestígio nacional, e devido à opinião crítica dele -- embora meramente impressionista -- muitos devem ter descartado “in limine” a obra de EP, dando por resolvida uma questão sobre a qual não há consenso entre os nossos melhores escritores. Afinal, Emiliano Perneta é, ou não é, um grande poeta?


Além de Dalton, cuja opinião é analisada mais adiante, também se manifestaram contra ela Manuel Bandeira, que na introdução à “Antologia da Poesia Brasileira- Fase Simbolista”, considerou a poesia de EP prejudicada pelo nefelibatismo da escola (mas Bandeira só considerou o EP “simbolista”, coerente com o seu propósito de preparar aquela Antologia, e sabemos que apenas uns vinte poemas dos cento e tantos de “Ilusão” são “cabalmente simbolistas”, como afirmou Andrade Muricy, reconhecida autoridade no assunto. “Ilusão”, que abrange poemas elaborados, em sua maioria, entre 1897 e 1911, é esteticamente eclético, e reflete a evolução por que passou a sensibilidade do poeta). Otto Maria Carpeaux (que foi colaborador de “Joaquim”) afirma, na “Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira”, 1a. ed.,1949, que EP “não conseguiu vencer os preconceitos parnasianos. Mas os esforços de reabilitação, da parte de seus conterrâneos paranaenses, tampouco convenceram até hoje os de fora”.


Do lado das opiniões favoráveis, Péricles Eugênio da Silva Ramos acha que ele pode “figurar, sem favor, entre os nossos mais típicos e notáveis decadentes e simbolistas”. Massaud Moisés afirma que EP “conseguiu criar poesia de superior beleza, dentre as mais bem acabadas de todo o nosso movimento simbolista”. Alfredo Bosi contradiz Manuel Bandeira ao afirmar que “Os sestros da escola, apesar de numerosos, não abafaram em Emiliano Perneta a nota pessoal, expressionista/.../ Para Bosi, a poesia de EP, “lida e valorizada por poucos, espera um estudo analítico à sua altura”. Wilson Martins considera o poema “Para que todos que eu amo sejam felizes” “um dos mais belos de nossa literatura, e poucos haverá mais belos, de mais pungente e harmoniosa beleza do que ‘Sombra’ ” (poemas esses, aliás, que nada têm do nefelibatismo simbolista...). E na opinião de José Guilherme Merquior, EP, com B.Lopes, é um dos dois principais decadentes “de real interesse” da literatura brasileira. Ademais, refere-se elogiosamente à sua poesia, conforme citação abaixo. Dispenso-me de citar opiniões de Andrade Muricy e Tasso da Silveira, altamente elogiosas, porque seriam consideradas suspeitas, haja vista a afeição quase filial que os unia a EP.


Concentrando-me agora na crítica de Dalton -- porque é aí onde a opinião contrária à poesia de EP se encontra exposta de forma mais sistematizada --,em primeiro lugar ela é condenada porque seria desligada da vida, “da rua dos homens”, distante do “coração quente da vida”. Ela seria elitista, “torre de marfim”, anti-humanista, em suma. EP, de fato, se orgulha em buscar isolar-se da “multidão”, i.e. dos “bárbaros” -- habitantes de Curitiba, de Minas Gerais (onde morou por um certo tempo) ou de qualquer outro lugar. E quem são os “bárbaros” para ele? São os indivíduos não movidos pelo ideal, pela busca do bem e do belo, objetivo único do cavaleiro-artista empenhado no “bom combate”... Não será então uma atitude humanista criticar tais indivíduos, que vivem em condição degradada, aquém do seu potencial humano, chafurdando no “lodo” da vida mesquinha (voltada para a busca do dinheiro e do poder), sem aspirar às “estrelas”...? E o fato de EP demonstrar a maior simpatia pelas pessoas humildes, elogiando a vida simples da aldeia “(cf. “Solidão” I a V), e o trabalho do lavrador (na serena “Oração da noite”, que Brasílio Itiberê II musicou, ou no belo poema “Setembro”), não o aproxima do “coração dos homens”?


Relativamente ao artificialismo de sua poesia, a questão se relaciona à concepção estética adotada. Para EP (em seu livro “Alegoria”, de 1903), o ideal “é que a beleza fosse, mas como um astro, que vivesse da sua própria luz. Assim, uma estátua nunca era bela, porque se parecesse com Laís, mas Laís é que poderia ser bela, por parecer-se com uma estátua”. O artista, para EP, deve buscar conscientemente o artifício (“Ars artificium est”). Ele busca a Beleza, que “não é mais do que uma Ilusão!”. O objeto de sua atividade criadora é produzir, com as palavras, determinados efeitos na sensibilidade do ouvinte/leitor, assim como o mágico (o ilusionista) visa a produzir no seu espectador. Em decorrência dessa concepção, ou filtrada por ela, a paisagem e o homem da nossa terra não aparecem explicitamente nos poemas (com a única exceção do soneto “Iguaçu”). Aparecem transfigurados, transpostos para outra realidade, normalmente a da mitologia greco-latina ou a dos tempos bíblicos... O fato de ser artificial não exclui a verdade, na poesia. É o que ocorre quando EP usa o artifício da mitologia. Quando aborda, com muita vivacidade, os temas e personagens mitológicos (sem nada de “ranço clássico”, como assinalou Péricles Eugênio da Silva Ramos), ele está incorporando, em sua poesia, a verdade que o mito encerra. De qualquer forma, se considerarmos a cronologia dos poemas, como quer Cassiana Lacerda, verificaremos uma evolução no sentido do maior despojamento formal, e do menor artifício, à medida que o tempo passa...embora se acentue o caráter religioso, ou cristão, dessa poesia, o que também contribui para a sua rejeição, por parte de quem não compartilha da visão de mundo idealista de seu autor. Mas se isso for motivo para desqualificar um poeta, Dante – o maior de todos --, também o seria...


É falso dizer que a poesia de EP é sombria, que o poeta é um ressentido contra o mundo e não oferece perspectivas ao leitor, especialmente aos jovens, os quais “em vez de trilhar seu caminho fechado” deveriam tomar “as estradas alegradas de sol”. Também Bosi refere-se ao “cupio dissolvi” de EP, para ele um poeta tomado pelo desejo intenso de conhecer o próprio fim (mas o desejo intenso de EP não é o de morrer, e sim, como o de todo espiritualista, o de integrar-se ao “outro mundo”, que seria a “pátria verdadeira” para o exilado neste mundo. Como disse Tasso da Silveira, EP é “poeta de evasão”, mas não “de consumpção”...).


É verdade que o “tédio” está presente nos poemas, decorrência do descontentamento com a realidade dominada pelos bárbaros e da ânsia pela “pátria verdadeira”. Mas o poeta indica, como saídas para superar tal condição (ou meios de evasão), “o sonho” (da arte, do ideal), as festas, as viagens (no limite, a morte, a viagem final) e, “last but not the least”, a mulher, ou o amor sensual. Se acrescentarmos a Natureza e a religião ou o amor espiritual (cristão), essas são as principais áreas temáticas da poesia de EP.


Assim, não procede a afirmativa de que “Falta céu e amor na sua poesia”. Alguns de seus melhores poemas (“Versículos de Sulamita”, “Esse perfume”) e versos (“Tarde de olhos azuis e de seios morenos”- cf. a sinestesia) são justamente os que envolvem a sensualidade amorosa. J.G. Merquior, por isso, afirmou que “Perneta é antes de tudo um bom lírico erótico”. Se isso for verdade, como aceitar que falta vida à poesia de EP? O que há de mais vital do que o amor e o sexo? Aliás, Nestor Vítor – o crítico do Simbolismo brasileiro – já salientara esse aspecto da poesia do autor de “Ilusão”. Nesse particular, ele se distinguiria de seu (nosso) amado Baudelaire, que muito o influenciou, pelo caráter ardente e tropical – bem brasileiro portanto – de seus versos lírico-eróticos. Assim, pelo menos esse tipo de abordagem EP acrescentou ao simbolismo francês ... ao contrário do que afirma Dalton, para quem foi nula a contribuição de EP ao simbolismo, “apenas transportando para a nossa língua o figurino da escola”.


Para concluir, devo dizer que a crítica de Dalton dá pouca importância ao modo como EP se expressa nos poemas. Para alguns, como Paulo Leminski, essa questão é fundamental. Lembremo-nos da sua definição de poesia: “a liberdade da minha linguagem” (aliás, não conheço nenhuma declaração de Leminski sobre EP. Dentre os nossos poetas do passado, foi Dario Vellozo quem despertou nele maior interesse).


E como é a linguagem de EP? Ela pode apresentar-se como simbolista/nefelibata ou linguagem que usa um português arcaico ou linguagem direta, espontânea (chegando a ser até coloquial, algumas vezes) ou linguagem religiosa, semelhante à de uma ladainha. Apesar de usar as formas fixas e os versos metrificados e rimados (mas adotando liberdades formais, para adequar-se às suas necessidades estéticas), é uma linguagem musical, que prefere a eufonia a ajustar-se rigidamente aos padrões da versificação. Não faz somente o uso instrumental das palavras, para expressar as suas metáforas e comparações. Faz também uso estético dos fonemas que compõem as palavras, como é o caso do uso dos sons sibilantes em “Solidão”. Além disso, emprega freqüentemente a sinestesia (evocação de impressões sensoriais), o que contribui para dar aos seus versos um caráter bastante pessoal. Dalton, embora reconheça a “suficiência de sua expressão melódica”, critica a sua inspiração. De fato, muitas vezes ele explora imagens convencionais, como por exemplo a oposição estrelas/lama, a associação de “embarcar” com a viagem final (a morte) ou a identificação da luz com o plano superior do espírito. Mas deve-se entender isso apenas como um ponto de partida. É no desenvolvimento do poema que se encontrará a sua contribuição mais significativa, como se nota em “Versos para embarcar” ou “Sol”, duas das melhores realizações dessa poesia.

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