quarta-feira, 19 de março de 2014






OBSERVAÇÕES SOBRE UM ARTIGO CURIOSO

No artigo abaixo transcrito (*),  publicado em “O Globo” de 18.03.2014, o autor (Rodrigo Constantino) sai em defesa dos liberais e conservadores, que não gostam de ser chamados (pela “esquerda radical”) de imperialistas, racistas, fascistas etc. Para se contrapor a esses esquerdistas, arrola uma série de citações de Marx e Engels extraídas do livro “O marxismo e a questão racial”, do cubano (exilado) Carlos Moore (onde, suponho, estão citadas as fontes originais dessas citações) que comprovariam a sua “visão imperialista ariana e racista” ...

 Supondo que sejam fidedignas as citações, é necessário situá-las dentro do devido contexto histórico e da perspectiva geral adotada por Marx e Engels, que é a da defesa do maior desenvolvimento do capitalismo e da luta de classes que lhe é inerente. Eles elogiam o capitalismo, na medida em que esse modo de produção representa um avanço brutal com relação ao feudalismo, e aos modos de produção anteriores. Representa um estágio superior de desenvolvimento das forças produtivas. O capitalismo é superior a todos os outros modos de produção que o antecederam. Mas ele também está condenado a desaparecer, em sua visão, substituído por um modo de produção mais avançado, que seria o socialista/ comunista, sobre o qual, aliás, Marx escreveu pouquíssimo, ao contrário do que muita gente pensa. “O Capital” propõe-se a fazer a “anatomia da sociedade burguesa”, isto é, a anatomia do  capitalismo. Essa lacuna em seu pensamento deu margem a que fosse utilizado, no século XX, de múltiplas, distorcidas e até criminosas maneiras na prática pelos que procuraram fazer o seu desdobramento ...  O desejado desenvolvimento do capitalismo explica, nas citações arroladas, o elogio à expansão imperialista dos EUA sobre o México, a defesa do papel econômico progressista da Inglaterra (então o país capitalista mais desenvolvido) na Índia, a conquista da Argélia etc.  Para Marx e Engels, o avanço do capitalismo, ao mesmo tempo que requer a destruição de estruturas atrasadas, lança as bases materiais da sociedade moderna em outras regiões do planeta (a tradição marxiana sempre viu o mundo de forma globalizada).  Trata-se, sim, de uma visão pró imperialista, na medida em que desejam que o capitalismo se expanda nessas regiões mais atrasadas, o que significaria para estas também um avanço, face à sua situação feudal ou de outra natureza. Querem que o capitalismo desenvolva todas as suas potencialidades, visando a sua substituição futura por um modo de produção mais avançado, de caráter socialista/ comunista. 

 A luta de classes, para eles, era inerente ao processo histórico. Ocorrera em todos os modos de produção. No capitalismo, a luta era entre a burguesia e a classe trabalhadora. E politicamente optaram por esta última, que, vitoriosa, levaria ao advento da nova sociedade. Assim, analisaram sempre as circunstâncias objetivas da Europa sob a ótica da classe trabalhadora. Entende-se assim a citação relativa ao posicionamento antifrancês na guerra franco-prussiana. Acharam que seria melhor para o movimento operário a vitória germânica, uma vez que a classe trabalhadora alemã estava mais organizada e conscientizada do que a francesa...   

 Quanto à escravidão, a julgar pelas citações, julgam-na como “uma categoria econômica de fundamental importância”. E a elogiam, pela sua contribuição ao progresso econômico da América do Norte. Embora reconheçam que ela tem um lado “mau”, veem a instituição da escravidão friamente, no que ela contribui para o desenvolvimento do capital. Sua visão, no caso, é a do economista clássico (lembremo-nos da definição de Carlyle, de que a economia é a “dismal science”, a ciência lúgubre ou sombria...). Enfatizam o lado “bom” da escravidão, quer dizer, era boa para o processo de acumulação do capital global, com base no comércio de escravos-mercadorias, sendo que a burguesia da época (cristã, naturalmente) considerou-a muito conveniente e a empregou extensamente na economia açucareira e cafeeira do Brasil, na  economia algodoeira do sul dos EUA, nas Antilhas e em outras regiões (a escravidão era vista então com naturalidade, e até a Igreja, as irmandades católicas, entidades filantrópicas etc possuíam escravos...)

 Quanto à citação em que afirmam “a superioridade dos arianos e semitas”, aqui, mais do que em outros lugares, é preciso analisar o devido contexto. Superioridade em quê? Não se trata certamente da superioridade absoluta, como queriam os nazistas, pois afirmam uma superioridade devida à alimentação (referem-se ao consumo de carne e leite), o que nos leva a um ponto de vista meramente físico, fisiológico... Uma “raça” mais bem alimentada certamente tem melhores condições físicas do que uma subnutrida, é “superior” a esta...  Mas é possível que haja racismo em seus textos. Afinal, eles são autores do século XIX!. E de lá para cá muita coisa evoluiu no campo do conhecimento relativo a essa questão, principalmente depois da tempestade nazista...

IMPERIALISTAS, ARIANOS E RACISTAS

Rodrigo Constantino

“Sem escravidão, a América do Norte, a nação mais progressista, ter-se-ia transformado em um país patriarcal. Apenas apague a América do Norte do mapa e você conseguirá anarquia, a deterioração completa do comércio e da civilização moderna.”
“A escravidão é uma categoria econômica como qualquer outra. Portanto, possui seus dois lados. Deixemos o lado mau e falemos do lado bom da escravidão, esclarecendo que se trata da escravidão direta, a dos negros do Suriname, no Brasil, nas regiões meridionais da América do Norte. [...] A escravidão valorizou as colônias, as colônias criaram o comércio universal, o comércio que é a condição da grande indústria. Por isso, a escravidão é uma categoria econômica da mais alta importância.”
“Talvez a evolução superior dos arianos e dos semitas se deva à abundância de carne e leite em sua alimentação.”
“Sendo que, comparado ao resto de nós, um nigger (crioulo) é o que há de mais perto do reino animal, ele é, sem nenhuma dúvida, o representante mais adequado para este distrito.”
“Os franceses precisam de uma surra. Se os prussianos vencerem, a centralização do poder de estado será benéfica para a centralização da classe trabalhadora alemã. A predominância germânica também deslocará o centro de gravidade do movimento dos trabalhadores na Europa ocidental, da França para Alemanha, e se apenas compararmos os movimentos nos dois países, de 1866 até agora, se verá que a classe trabalhadora alemã é superior à francesa, tanto no aspecto teórico quanto em organização.”
“A luta dos beduínos era uma luta inútil e, apesar da maneira com que soldados brutais, como Bugeaud, conduziram a guerra seja extremamente condenável, a conquista da Argélia é um fato importante e auspicioso para o progresso da civilização. [...] E se talvez lamentamos que a liberdade dos beduínos do deserto tenha sido suprimida, não podemos nos esquecer de que estes mesmos beduínos eram uma nação de ladrões.”
“Fomos espectadores da conquista do México e nos regozijamos com ela. [...] É do interesse de seu próprio desenvolvimento que ele seja, no futuro, colocado sob a tutela dos Estados Unidos. É do interesse de toda a América que os Estados Unidos, graças à conquista da Califórnia, assumissem o domínio sobre o Oceano Pacífico.”
“É lamentável que a maravilhosa Califórnia tenha sido arrancada dos preguiçosos mexicanos, que não sabiam o que fazer com ela? Todas as nações impotentes devem, em última análise, ser gratas àqueles que, cumprindo necessidades históricas, as anexam a um grande império, permitindo, assim, sua participação em um desenvolvimento histórico que, de outra maneira, seria ignorado a eles. É evidente que tal resultado não poderia ser obtido sem esmagar algumas belas florzinhas. Sem violência, nada pode ser realizado na história.”
“A Inglaterra tem que cumprir uma dupla missão na Índia: uma destruidora, outra reguladora — a aniquilação da velha sociedade asiática e o lançamento das bases materiais da sociedade ocidental na Ásia.”
“Não devemos nos esquecer de que esta vida sem dignidade, estagnada e vegetativa, este tipo de existência passiva invocou, por outro lado, em contrapartida, forças de destruição selvagens, sem objetivo, sem fim, e tornou o próprio assassinato um rito religioso no hinduísmo.”
Chega? O leitor já deve estar com o estômago embrulhado. Quem disse tais barbaridades? Hitler? Algum reacionário qualquer? Nada disso. Todas as citações são de Marx ou Engels, compiladas no livro “O marxismo e a questão racial”, do cubano Carlos Moore, um negro exilado pelas críticas de racismo feitas ao regime castrista.
O autor comprova que não se trata de afirmações fora de contexto; ao contrário: Marx e Engels defenderam em várias ocasiões esta visão imperialista ariana e racista. Era parte essencial de sua ideologia.
Ambos beberam da mesma fonte, Hegel, que disse: “O que nós propriamente entendemos por África é o Não Histórico, Não Desenvolvido Espírito, ainda envolvido na condição de mera natureza, e que foi apresentado aqui somente como soleira da História mundial.”
O problema é que nossos marxistas não leram Marx. Nelson Rodrigues, que anda sendo citado por Dilma, escreveu: “E, por todas as cartas de Marx, não há um vislumbre de amor e só o ódio, o puro ódio. Para ele, há ‘povos piolhentos’, ‘povos de suínos’, ‘povos de bandidos’, que devem ser exterminados.”


Duro é aturar a esquerda radical acusando os liberais e conservadores de “imperialistas”, “racistas”, “fascistas” ou algo do tipo. Seria cômico, não fosse trágico...

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