sexta-feira, 20 de março de 2026

NOEL ROSA, poeta popular

Neste texto procuro apontar algumas características marcantes das letras das canções de Noel Rosa, o grande compositor da música popular brasileira de sua época e que até hoje é ouvido com prazer, especialmente quanto às suas melhores realizações. Noel nasceu em 11 de dezembro de 1910 no Rio de Janeiro (no bairro da Vila Isabel) e faleceu em 4 de maio de 1937, aos 26 anos, de tuberculose, dada a sua vida boêmia. Era filho de Manuel de Medeiros Rosa, que foi guarda-livros e trabalhou no comércio, e de dona Marta, professora. O pai de Noel se suicidou em 1935, o que já havia ocorrido com a mãe dele, avó do compositor (“Vó Bela”). (1) O músico frequentou durante algum tempo curso de Medicina. Não chegou a completá-lo, prevalecendo a sua extraordinária vocação para a música. Seu único irmão, Hélio, mais novo que ele, tornou-se médico, seguindo a profissão do avô materno. (2) A atuação profissional de Noel como violonista e compositor se resume a pouco mais de sete anos, de 1930 a 1937. Logo no início de sua carreira, há um fato marcante que interessa a nós, paranaenses, natos ou por adoção. O conjunto “Azes do Samba”, integrado por Noel, excursionou para o Sul do país em 1932, e chegou a visitar Curitiba nessa ocasião. O “Diário da Tarde” de Curitiba, edição de 10 de junho de 1932, traz matéria sobre o “estupendo sucesso” da estreia “ontem”, no Theatro Avenida do magnífico conjunto “Azes do Samba”. Afirma a nota: “Francisco Alves, dr. Mário Reis, Noel Rosa, Pery da Cunha e Nonô proporcionaram ao nosso público uma oportunidade grandiosa, constituindo o seu espetáculo uma noitada de encantos”. (3) Mas o objetivo deste artigo não é relatar as viagens e outros aspectos da carreira profissional de Noel e sim concentrar a atenção sobre a sua notável produção artística. Tomei para estudo aqui as 86 letras que constam do volume dedicado a ele da série “Literatura Comentada” publicado pela Abril Educação em 1982 com notas biográficas e comentários a cargo do escritor João Antônio. Acredito que 86 letras representam uma boa amostra das 259 composições (segundo a Wikipedia) de Noel (Isso significa uma média de 32 composições por ano, o que demonstra ser ele bastante produtivo). Vadico, “pianista, músico com estudo”, foi um grande parceiro de Noel : 11 parcerias. Dentre elas, incluem-se algumas das suas melhores canções, tais como “Feitio de oração”, “Pra que mentir?”, “Conversa de botequim” e “Feitiço da Vila”. (4) As características que mais se destacam, após uma leitura atenta dessas 86 letras, estão listadas na sequência. Mas antes disso, gostaria de avaliar a linguagem utilizada e extrair algumas conclusões a respeito dela. A linguagem de Noel, empregada nas suas composições, é de caráter coloquial, com o uso frequente de termos de gíria, ditados populares etc. Ele certamente foi influenciado pelas ideias da Semana de Arte Moderna de 1922 e quer usar a língua “brasileira”, não a portuguesa, ou seja, quer usar a língua efetivamente falada pelo povo. Nesse sentido, é muito frequente, nas letras do poeta de Vila Isabel, o uso de termos de gíria. Estes são alguns exemplos: ir “lamber sabão” (= ir às favas), “pendurar” a despesa (=postergar o pagamento), colocar no “prego” (= penhorar), dar um “beiço” (= calote), “pronto”, “prontidão” (= estar sem dinheiro), “filar” (= ganhar) um cigarro, “filar a boia”, amar “pra chuchu” (= demasiado), “vil metal” (= dinheiro), rapaz “folgado” (= abusado, sem noção), “tudo o que te der na veneta” (= tudo o que ela quiser fazer), chatô (= casa, território), andar de tanga (= estar na miséria), “morder” (= pedir dinheiro) etc. Muitas dessas expressões já estão em desuso. Por exemplo: “De lutas não entendo abacate” em “Tarzan, o filho do Alfaiate”; “tintureiro” = viatura policial em “Mulato bamba” (ou “Mulato forte”), “carro de praça” = táxi (em “Cor de cinza”). Também ocorrem nas letras do poeta ditados populares. Exs: “Eu devo, não quero negar/ mas te pagarei, quando puder” em “Malandro medroso”. “Você criou fama/ Deitou-se na cama” em “Vitória”. “Não sei nem quero saber,/ Tenho raiva de quem sabe/ O seu modo de viver” em “Tenho raiva de quem sabe”. Ele pode inclusive brincar com tais ditados: “Acabou-se o que era doce,/ Quem comeu arregalou-se,/ Quem não comeu suicidou-se” (em “No baile da Flor-de-Lis”). O tema da canção pode ser a própria linguagem. Em “Até amanhã” o poeta se despede da amada. Não quer dizer “Adeus” porque “é pra quem deixa a vida” e sim “Até amanhã, até já, até logo”. A linguagem utilizada pode inclusive abranger a personalização das coisas. Em “Estamos esperando” ocorre a personalização do violão, de suas cordas. Em “Coisas nossas” o protagonista queria ser pandeiro para sentir a mão dela na sua pele a batucar... Um aspecto notável, na linguagem do poeta, é a sua grande facilidade em rimar. Em “Maria Fumaça”, por exemplo, ele usa 14 rimas em “aça” num total de 31 versos. Em “Você só...mente”, poema com 23 versos, ele usa 12 rimas em “mente”. Noel faz questão de usar a língua “brasileira” pois, como ele diz em “Não tem tradução” (ou “Cinema falado”), “Tudo aquilo que o malandro pronuncia /.../ É brasileiro: já passou de português”. Ele pode usar inclusive a linguagem “errada” do povo, não flexionando as palavras para formar o plural delas (cf. “Mulata fuzarqueira”). Também a linguagem pode assumir um caráter sombrio quando se refere às morenas formosas que “A terra um dia vai comer” (“Fita amarela”). * Quanto às suas letras, podemos enquadrá-las conforme as seguintes características: 1) Presença do humor, inclusive negro; surrealismo 2) Versos líricos 4) Crônica da vida cotidiana 5) Crítica social Deve-se salientar, contudo, que isso envolve uma certa dose de arbitrariedade, pois frequentemente a canção pode ser classificada em mais de uma dessas características. 1) Presença do humor, inclusive negro; surrealismo Noel compôs canções famosas pelo humor como “Tarzan, o filho do Alfaiate” e “Gago apaixonado”. Na primeira, a fraqueza de Tarzan é escondida pela roupa; mas quando ele subiu num tablado, e tirou o roupão, a luta foi cancelada “pra evitar assassinato”... Na outra composição, a gagueira do sujeito é imitada. Ele critica a falsidade da amada e deseja o mal para ela, diz que ela vai ficar corcunda. Há a presença de humor também em outras canções: em “Mulher indigesta”, que “Merece um tijolo na testa”. Em “Por causa da hora” o protagonista brinca com um decreto governamental de 1931 que adiantou o horário brasileiro em uma hora. Ele se alegra porque terá mais uma hora para descansar... “Cordiais saudações” tem por subtítulo “samba-epistolar”. Destaca-se por sua originalidade, pois é redigido em forma de carta dirigida a um amigo, cujo último verso é assim: “Rio, 7 de setembro de 31”. Ele afirma que sente saudades “Daqueles dez mil-réis que te emprestei”. Como está em dificuldades (empenhado “Nas mãos de um judeu”: atenção para a linguagem politicamente incorreta!), sem vintém, pede para lhe enviar “algum”. Antes disso, manda ”Um chute na empregada/ Porque já se acabou o meu carinho!.” Em suas canções também está presente o humor negro, como em “Pesado 13”, em que o turco Rachid, “Pro caixão ser pequeno/ Morreu bem decidido/ De cócoras, encolhido”. Outros nomes desse turco são Farid e Abdula. Uma vez, ao abrir a porta de casa para um amigo, este viu, horrorizado, sobre a cama, “O terno de Farid/ E viu dependurado/ Abdula num cabide”. Já em “Seu Jacinto”, o sonho do protagonista “É morrer esmigalhado por um carro cadilaque”. As letras também podem conter passagens surrealistas, além daquela mencionada no parágrafo anterior. Por exemplo, em “De babado” o poeta pescou um bicho “Que comeu a embarcação!/ Não era peixe: era dragão!”. E em “Feitiço da Vila” (ou “Feitiço sem farofa”), o samba “faz dançar/ Os galhos do arvoredo/ E faz a Lua nascer mais cedo”, imagem também presente em “Palpite infeliz” (“Ao som do samba dança até o arvoredo”), composta por ocasião da polêmica com Wilson Batista. Em “Palpite”, alguém tocou no pandeiro o “Guarani” e vendeu “o carro pra comprar a gasolina”. Em “Pulo da hora” (ou “Que horas são?)”, o relógio de ouro da senhora “trabalha bem sem a corda,/ Sem ter vidro nem ponteiro”. Em “Meu barracão”, o protagonista afirma que faz quase um ano que não visita seu barracão na Penha. E hoje lhe deram a notícia de que ele, “cansado de esperar”, saiu do lugar. O poeta desconfia “Que ele foi me procurar”. 2) Versos líricos Inclui-se aqui “Três apitos”, uma das mais belas canções de Noel Rosa pela descrição realista da situação apresentada e pela sinceridade dos versos É sobre a operária de uma fábrica de tecidos de quem ele gosta mas que o ignora. A gravação despojada de Maria Bethânia é digna de admiração. Está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=SaoHGbN9RY0 Na bela canção “Último desejo”, que alguns consideram a obra-prima do poeta (5) (embora para mim a obra-prima seja “Três apitos”), Noel afirma que o amor deles, iniciado numa festa de São João, morreu naquele dia. Depois, formula seu último desejo: às pessoas suas amigas deve dizer que ela o adora e que lamenta a separação, mas às pessoas que o poeta detesta deve dizer que ele não presta e que arruinou a sua vida. Em “Pastorinhas” (ou “Linda pequena”), quem fala é um sujeito que declara amar uma morena, “da cor de Madalena”. Isso é dito após uns versos descritivos, que se referem às “pastorinhas” cantando na rua versos de amor, quando desponta a “estrela d’alva”. A letra desta bela marcha (que é de Noel e João de Barro) pode ser criticada pela repetição do adjetivo “tonto(a)”. Inicialmente, consta que “a lua anda tonta”, mais abaixo, ele, o enamorado, vive “tonto” com o olhar dela... Em “Pela primeira vez” ele confessa estar amando uma mulher, o que não havia ocorrido antes. Na hora da partida do trem, ambos choraram. A canção tem um final um tanto dúbio: se ela não regressar, ele vai tomar um outro trem. E nunca mais vai assistir uma partida. “Dama do cabaré”, outra famosa e sensível canção, foi inspirada em Ceci, uma jovem que trabalhava num cabaré da Lapa, e por quem Noel se apaixonou (“foram felizes por seis meses” (6), depois ela o deixaria por outro). A letra diz que dançaram e conversaram por muito tempo. No dia seguinte, ele recebeu carta dela dizendo que “Quem é da boemia/ Usa e abusa da diplomacia,/ Mas... não gosta de ninguém”. “Só pode ser você” (ou “Ilustre visita”) trata da visita de uma pessoa que na realidade só queria saber o dia em que ele “deixaria de viver”. Pelas informações obtidas, ele deduziu que só poderia ser “ela” (Ceci), a “Pessoa mais fingida” que existe nesta vida (7). A falsidade da amada é comum a várias canções: está presente em “Silêncio de um minuto”, “Você...só mente”, “Retiro da saudade”, “Quantos beijos”, “Pra esquecer” e “Pra que mentir”. “Silêncio de um minuto” (título da canção) é o que o poeta pede para o caso de seu amor vencido. O seu samba “está de luto”, seu “violão vai soluçar”. Você só...mente” já foi mencionada acima pelo seu número elevado de rimas em “mente”. Noel explora aqui a ambiguidade desse título da canção: ela mente, ela somente. Em “Retiro da saudade” a saudade encontra o seu retiro no coração do poeta. Mas no coração dela “Só existe falsidade”. “Quantos beijos”, título do samba, é a expressão usada três vezes para referir-se ao que ela lhe dava quando ele tinha dinheiro e “satisfazia os seus desejos”. Mas tratava-se de hipocrisia, pois ela traía o amor fiel dele. “Pra esquecer” afirma inicialmente que ele “vivia como um nobre” e era gastador. Ela, atendendo à sua vontade, foi para a cidade também, fugindo da pobreza. Agora, que ele ficou pobre, ela fugiu com o primeiro que apareceu. Hoje ele está decadente (bebe cachaça e fila cigarro de um ex-amigo). “Pra que mentir?”, título da canção, é a pergunta feita várias vezes pelo poeta. Pra que mentir se ela não tem ainda “A malícia de toda mulher”, se ele sabe que ela gosta de outro que não a quer, se ele já sabe que ela não gosta dele (embora ele goste dela)? Na bem concebida “Estamos esperando” os admiradores dela aguardam que venha ouvir o samba que fizeram para lhe dar. Ela é a própria materialização da música: a melodia alguém tirou de sua voz, a harmonia do seu olhar e a cadência do seu modo de andar...O violão é personalizado: “está gemendo” e suas cordas “dizem” que o samba é só dela. “Queixumes” (ou “Meu sofrer”) é uma canção de amor em que o poeta elogia os “lindos olhos” dela. Seus queixumes são os ciúmes que ele tem do seu olhar. Afirma querê-la sempre junto dele. “O teu olhar traz alegria/ Mas também traz o amargor,/Sem ele então não viveria,/ Vida não há sem dor”. Em “Cansei de pedir” ele a ama e não é correspondido: “Amar sem ter amor é um suplício”. Já cansou de pedir para que ela o deixe. “Cor de cinza” associa amor e morte, na melhor tradição romântica. Depois que ela partiu, ele encontrou uma luva de pelica sua, prova do esquecimento “Daquela que me esqueceu”. Mais tarde, ao ver um carro com a cruz vermelha na porta, ele foge impressionado sem ter perguntado “Se ela estava viva ou morta”. Em “Você, por exemplo” o poeta apresenta algumas características da amada: ela se atrasa, é uma santa fora do templo... No final, afirma que, ao contrário de gente que não tem um pulmão (ou um dos pulmões), ela não tem coração. Em “Prazer em conhecê-lo” ele encontra numa festa uma mulher acompanhada. Ela fez parte de “Um passado que tanto nos fez sofrer”. De repente, ficaram frente a frente: os dois homens foram apresentados e tiveram de trocar um aperto de mãos. “Tenho raiva de quem sabe” expressa o sentimento dele com relação ao modo como vive a ex-amada. Não quer saber mais dela, “Depois de tanta briga”. Rasgou o seu retrato, queimou as suas cartas. Implora a ela, quando encontrar com ele, “Simular que não me vê”. Em “Eu sei sofrer” o poeta pergunta quem é que já sofreu mais do que ele. Afirma que sabe “sofrer sem reclamar”. Declara que “Saber sofrer é uma arte” e, “pondo a modéstia de parte” (cf a ironia!... ), ele pode dizer que sabe sofrer. Conclui afirmando que já foi amado e enganado, desprezado... “Nuvem que passou” é composto por várias estrofes. Numa delas os versos têm uma conclusão inesperada: “O amor é um pecado/ Mas quem não ama é pecador”. 3) Crônica da vida cotidiana Um bom exemplo da canção como crônica da vida cotidiana é “Conversa de botequim”. Toda a letra consiste na fala do cliente habitual dirigida ao garçom do estabelecimento. Ele lhe pede uma média, um pão com manteiga, fechar a porta, um cinzeiro e um isqueiro, o resultado do futebol, trazer palito, um cigarro etc etc Refletindo sua época, a condição de mulher é de dependência do homem. Em “Cem mil-réis”, ele deve lhe dar dinheiro, atendendo ao seu pedido, “Pra comprar um ‘soirée’/ E um tamborim.” Ela afirma ainda: “O organdi está barato pra cachorro/ E um gato lá no morro,/ Não é tão caro assim”. Note-se aqui a maestria da linguagem utilizada, opondo o cachorro (da expressão de gíria) ao gato, cujo pelo é desejado para fazer tamborim... As amadas por Noel frequentemente são mulheres falsas, interesseiras. como vimos (cf. também “Pela décima vez” ,”Pra esquecer”, “Vai haver barulho no chatô” etc). Em “Nunca...jamais!”, ela conquista os homens, mas não os ama. E aquele que a ama, rancoroso, fala mal dela. Em “Vou te ripá” ele não a ama, só a critica, e ainda ameaça bater nela (!), conforme o título e o primeiro verso. Mas também pode ocorrer que os dois namorados (que são amigos), sabendo da falsidade da mulher, a manipulem, marcando encontros em dias alternados (cf. “Amor de parceria”). A famosa “Fita amarela” fala sobre o dia da morte do poeta, referida de forma debochada. Ele “queria que a mulata/ Sapateasse no (seu) meu caixão”. E logo adiante afirma não querer flores, só o choro (musical) “de flauta/ Violão e cavaquinho”. Consola-se por saber que as morenas formosas “A terra um dia vai comer”, contrastando assim o humor/ a serenidade da situação anterior com o horror desta outra situação. Na conhecida “Feitio de oração”, o poeta vai mandar sua morena à Penha (à sua festa religiosa) para cantar seu samba elaborado como uma oração. Na não menos conhecida “O ‘x’ do problema” quem fala é uma sambista, diretora da escola do Estácio de Sá. Ela já foi convidada para ser estrela do nosso cinema. Ser estrela é fácil, diz ela, “Sair do Estácio é que é o ‘x’ do problema”. Em “Pela décima vez”, título do samba, ele jurou não mais amá-la. E “Pela décima vez” ela alega inocência quando é presa (os personagens das canções de Noel frequentemente fazem parte das classes mais humildes, ou mesmo da marginalidade). “Triste cuíca” trata de um triângulo amoroso, envolvendo Laurindo e duas mulheres (Zizica e Conceição). Estes versos finais sugerem o assassinato de Laurindo: “A Zizica está sorrindo,/ Esconderam o Laurindo/ Mas não se sabe onde foi.” “Quando o samba acabou” conta uma história com final trágico. No morro da Mangueira, uma bela cabrocha chamada Rosinha “olhou a sorrir” para dois malandros. Depois, os dois a disputam na improvisação da batucada. Um deles sai perdendo. Este se afasta e fica horas meditando...Quando o Sol raiou foi encontrado morto, com um punhal no coração. “Mentir” (ou “Mentira necessária”) faz o elogio de um certo tipo de mentira (pois a moral não é absoluta mas relativa, para Noel e para mim). Os versos citam vários casos de mentiras justificáveis, como para esconder a própria mágoa, para fazer alguém feliz ou para não ferir alguém com a franqueza. Em “Coração”, num contexto surreal, Noel usa a imaginação e a fantasia. É mais uma canção satírica dele. Conta uma pequena história sobre um sujeito convencido “Com mania de grandeza/ E instinto de nobreza” que procurava alguém para encher suas veias “Com azul de metileno/ Pra ficar com o sangue azul”. Como se sabe, há nas canções de Noel referência a vários bairros do Rio de Janeiro (Catumbi, Gamboa, Cascadura, Penha, Lapa, Estácio de Sá etc) mas ele destaca sempre a sua Vila Isabel. A esta prestou quatro homenagens musicais: “Eu vou pra Vila”, “Feitiço da Vila”, “Palpite infeliz” e “Bom elemento”. (8) 4) Crítica social A crítica social ocorre frequentemente nas composições de Noel. Vamos citar algumas canções em que ela é mais evidente. Em “Quem ri melhor” o poeta afirma: “Felicidade/ É o vil metal quem dá!/ Honestidade/ Ninguém sabe onde está”. Retoma essa postura em “Onde está a honestidade” em que uma mulher ”Sem ter nenhuma herança nem parente” tem palacete, joias, criados etc. E o poeta faz a pergunta--- titulo da canção --- repetidas vezes. Em “Disse-me-disse” Noel critica quem só faz “trancinha” (trança, na gíria, significa mexerico), o que também ocorre em “Mentiras de mulher”. Em “Voltaste” (ou “Voltaste pro subúrbio”), ela voltou para o subúrbio, voltou “para fabricar defunto”, supostamente pela sua beleza. Ela voltou confessando que quer viver presa a ele, mas este não pretende mais lhe dar o seu afeto. Na conhecida “Com que roupa?” ele se pergunta como irá ao samba para o qual a amada o convidou. Além de responder com essa pergunta (que é também uma expressão de gíria) faz uma referência curiosa envolvendo animais: “Eu hoje estou pulando como sapo/ Pra ver se escapo/ Dessa praga de urubu”. Em “O orvalho vem caindo” --- outra composição bem conhecida e amada pelo público --- é um vagabundo quem fala, descrevendo a sua situação precária: a cama dele “é uma folha de jornal” e o cortinado “é o vasto céu de anil”. Interessante que, ao se referir ao guarda-civil, que é o “despertador” do malandro, Noel se solidariza com o guarda, pois afirma que ele ainda não viu o seu salário, numa postura que sugere a união desejada dos pequenos assalariados com os desempregados, ambos vítimas de um sistema injusto. A crítica ao trabalho é frequente, pois Noel faz muitas vezes elogio da malandragem ou da vagabundagem mesmo. Trata-se de postura desafiadora à ideologia do capitalismo. Significa recusa à vida normal do homem comum, assalariado, submetido à exploração cotidiana no processo produtivo: cf “Capricho de rapaz solteiro”, os versos iniciais de “Mentiras de mulher”, “João Ninguém” (que “Não trabalha um só minuto/ Mas joga sem ter vintém/ E vive a fumar charuto”) etc. As canções às vezes destacam costumes bem brasileiros. É o caso de “Coisas nossas” (ou “São coisas nossas”) que menciona o violão, a palhoça, “O samba, a prontidão e outras bossas”, “Prestamista e vigarista”, “o bonde que parece uma carroça”, “Menina que namora rapaz casado (“com dez filhos, sem tostão”) etc. As canções também retratam, com simpatia, tipos populares bem humildes como “Maria Fumaça”, que “Fumava cachimbo/ Bebia cachaça.... E Fazia arruaça”. “No século do progresso” conta que à noite estrelada, quando o samba já havia começado, ali bem perto “Morria de um tiro certo/ Um valente (...)”. Conclui afirmando que nesse século do título “O revólver teve ingresso/ Pra acabar com a valentia”, o que é uma compensação para os fracotes como Noel... O interesse em fazer dinheiro do turco Seu Jorge é salientado, com humor, em “Negócio de turco”, em disputa com o português Seu “Manueli” pelo amor de uma mulata (aquele roubou a mulata deste). O português quer resolver o caso “a cachações” mas o turco “Só aceita a luta em doze prestações” “pra vender entrada aos assistentes”... Noel critica alguém que bebe demais em “É bom parar”. Se for por causa de mulher, ele deve parar, “Porque nenhuma delas sabe amar”. Se não for, também deve. Em “Filosofia” quem fala é o poeta, criticado socialmente (pelo “mundo”). Mas ele é auxiliado pela filosofia, que o torna indiferente a isso, e à sua pobreza. Ele vive escravo do seu samba, mas “ela”, que é da aristocracia com dinheiro e sem alegria, também é escrava, só que dessa gente hipócrita, afirma ele. Em “Quem dá mais?” (ou “Leilão do Brasil”), o leiloeiro “em três lotes vendeu o Brasil inteiro”. Esses três lotes incluíram: 1) o leilão de uma mulata (o Vasco da Gama a arrebata por um conto de réis e a oferece ao seu jogador Russinho, em agradecimento pelo desempenho deste no campo de futebol) (9); 2) o leilão de um violão “Que só não tem braço, fundo e cavalete” (a ironia, sempre presente...) mas tem valor histórico pois pertenceu a D. Pedro. Um judeu o arremata por cinquenta mil-réis “Para vendê-lo pelo dobro ao museu” (antissemitismo de Noel?) e 3) o leilão de um samba “Sem introdução e sem segunda parte/ Só tem estribilho /.../)”. “Quem é que dá mais de um conto de réis?” (por esse samba incompleto). O machismo de Noel está presente em “Você vai se quiser” (“Todo cargo masculino /.../ Hoje em dia é pra mulher...” e mais adiante: “Ela esquece que tem braços:/ Nem cozinhar ela quer...”). Em “O maior castigo que te dou”, Noel afirma o absurdo de que mulher gosta de apanhar, revelando toda a visão distorcida dele e de sua época. Curiosamente Noel também pode adotar o ponto-de-vista feminino, como em “Esquina da vida” (ou “Na esquina da vida”), samba crítico do machismo. Nele, quem fala é uma mulher. Ela observa “o valor que a mulher/ Dá ao homem e ao amor”. Por isso, ele “Zomba da gente/ Sempre cheio de razão”. Noel foi acusado de antissemitismo. Vejam as citações aos judeus em “Quem dá mais?” e “Cordiais saudações” Na primeira canção, referida acima, note-se o comportamento do judeu. Na outra, o protagonista anda empenhado “nas mãos de um judeu”... (10) Mas seguramente ele não é contra negros, ou mulatos (cf elogios à beleza da mulata), embora tenha sido acusado de racismo por causa destes versos de “Feitiço da Vila”: “A Vila tem um feitiço sem farofa/ Sem vela e sem vintém” etc.. Ele estaria aqui, com seu viés branco e de classe média, depreciando as crenças de negros dos morros cariocas... (11) Noel também não é homofóbico, como se pode deduzir de “Mulato bamba” (ou “Mulato forte”), que seria inspirado em Madame Satã, conhecido personagem homossexual da boemia carioca. Um de seus versos diz “que ele não quer/ Se apaixonar por mulher” e mais adiante que “ele não quer saber de fita/ Nem com mulher bonita”. Como se vê, embora Noel possa ser criticado por machismo e antissemitismo, não é racista nem homofóbico... NOTAS (1) “Literatura Comentada”. São Paulo: Abril Educação, 1982. Notas de João Antônio, pp. 6 e 12. (2) “Noel Rosa” por Jorge Caldeira. Brasiliense, 1982, p. 9 (3) Fonte: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=800074&pesq=noel+rosa&pagfis=37842 (4) “Noel Rosa” (col. Folha Raízes)- pp. 21 e 22. (5) Id. ib., p. 26 (6 ) Id. ib., p.25. (7) “Literatura Comentada”, op cit, p. 88, nota 125. (8) “Noel Rosa” (col. Folha Raízes)- p. 7 (9) “Literatura Comentada”, op. cit., p. 47, nota 56 (10) “Noel Rosa” (col. Folha Raízes)- op cit, pp. 36-37 (11) Id. ib., pp. 39-40 --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- NOEL PELA PRIMEIRA VEZ Coletânea com 7 volumes duplos, reunindo 229 composições de Noel Rosa em suas versões originais. https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-01 https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-02 https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-03 https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-04 https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-05 https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-06 https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/noel-pela-primeira-vez-vol-07

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