sábado, 29 de agosto de 2009

SOBRE A POESIA DE "BRISAIS"


Não é todos os dias que surge, no horizonte das letras, um livro de poemas como “Brisais”, de Jaques Brand (Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, 1997). Há muito o autor devia essa estréia-em-livro aos seus amigos/admiradores, que já o conheciam dos jornais literários, e publicações esparsas. Tem-se agora a oportunidade de avaliar, de forma mais sistemática, uma produção poética de alto nível, cujas características essenciais tentarei apontar neste rápido comentário.
A primeira delas, e mais evidente, diz respeito à poesia encarada como atividade lúdica. O poeta constantemente brinca com as palavras, explorando todo o potencial sonoro oferecido por elas, e suas variantes. Explora não só o recurso lúdico tradicional da rima, esporadicamente, mas também as aliterações, assonâncias e repetições. Vale-se do trocadilho (“Un coup de dendê/ jamais n’abolira/ Eleazar”, p.74, uma brincadeira com Mallarmé e os baianos Caetano e Gil), dos jogos sonoros (“Almas gêmeas/ algemas/ alfazemas”, p.50 ), da fusão de palavras, criando outras, inexistentes ( v. Leminski, p.75: “Samurandarim, mandamurai!”), do palíndromo (“Alessos”, p.81, uma brincadeira com o nome do poeta Sossela), da tradução “só dos sons” de alguns versos de Homero, Poe e Dante, criando novos poemas, mas equivalentes no ritmo. Ver por exemplo este, apoiado no primeiro verso da “Divina Comédia”: “o vezo carmesim da ostra esquiva/ nel mezzo del cammin di nostra vita” (p.82). A tradição poética deixa de ser alguma coisa distante e acadêmica, para ser íntima e contemporânea, na informalidade com que é tratada.
Mas a poesia de “Brisais” também pode ser utilitária, interessada, quando exerce a reflexão crítica sobre a realidade. Isso ocorre quando critica a dependência da nossa economia à soja (“A soja de porto afora”, p.35), a situação política (“ Os regimes no Brasil”, p.41) ou as igrejinhas literárias (“Guinski”, p.78), revelando uma outra maneira de fazer poesia. Nela, a intenção crítica predomina sobre o impulso lúdico.
Em “Brisais” todos os assuntos são temas para a poesia. Não há temas mais “poéticos”, ou menos. Embora haja temas tradicionais, como o do “Soneto à maneira do décimo sétimo século” (p.63), eles geralmente referem-se ao quotidiano do poeta, que não teme mesmo aqueles corriqueiros, ou banais (v. “Soneto para Otávio Duarte”, p.23, “Libador”, p. 67). A rigor, apenas um tipo de tema está excluído, os metafísicos, o que é explicado em “Franciscos”, p. 70: “Mas se é do campo a graça,/ a fermosura,/ pra quê me procurar/ vida segura?”. Só interessa ao poeta o mundo fisico, não o metafísico. Nele, a fruição amorosa é um aspecto preponderante (como também o era para Vinicius de Moraes). Permanentemente, o poeta “aos domos altos da cidade fria,/ aos domos sobe onde os pomos tem” (p. 59). “Brisais” , na realidade, é um volume formado por cinco livros, que agrupam: 1) poemas que se voltam para a própria criação poética (como o belo “Meu lado alado”, p. 21); 2) aqueles em que sopram as “brisas do Brasil”; 3) os que tratam do desfrute amoroso; 4) os poemas de circunstância, ou inspirados pelas passagens mais vivas dos clássicos (“glosas, mantras e chicletes”); e 5) aqueles traduzidos, ou melhor, recriados.
Uma outra particularidade dessa produção poética é o seu caráter textual, gráfico.“Brisais” revela não só uma obsessão sonora mas também gráfica, como se verifica na auto-definição étnica do poeta (e nossa): “afro indo pindo europ’ eu” (p. 31), constituindo esse “eu” o segundo, e último, verso. A mesma preocupação pode ser constatada em “Latifúndio” (p.37), em que os dois pontos sugerem cabeças de boi no pasto ermo. Também está presente no experimentalismo de “Cem empregos amorosos” (p. 60), onde não há versos propriamente, mas sugestões propiciadas por fragmentos das palavras-título, no concretismo de “Jornada” (p.36), na singularidade de “Proporção” ( no qual a associação de uma propriedade matemática ao X dos remos cruzados é suficiente para constituir o seu conteúdo!), em “A vaca diagramada”, p.20, e na escrita peculiar de o viñ e a liñ, na tradução de Ben Jonson, p. 103.
Muito da poesia de “Brisais” é conscientemente resultante da poesia de outrem. O real é intermediado, com frequência, por sua expressão literária, nos momentos mais vivos e requintados das obras clássicas. E alguns poemas elaboram essas passagens privilegiadas, transformando-as em composições novas e pessoais (v. “Algum lugar em Shakespeare”, p.57, a partir de uma passagem do “Coriolanus”, “A rã de Bashô”, p.73, resultante do “hai cai” famoso do poeta japonês, e “Inferno, I, 1-3”, p.85, pois Dante é presença obrigatória no mantra recorrente entoado pelo poeta curitibano. Constata-se aqui até mesmo uma colagem, “Franciscos”, que é composta pela junção de dois versos, provenientes de dois sonetos seiscentistas, um de Francisco Rodrigues Lobo e outro de Francisco Manoel de Mello, do que se origina um novo poema. Capítulo à parte, nesse aspecto, refere-se às traduções, muito livres, pois o compromisso maior do poeta não é o de traduzir fielmente o original, mas o de exprimir a sua reação pessoal frente a ele.
Nos poemas, não há a opção por uma determinada linguagem. Todas elas são usadas, desde o português castiço (“Teu estro alado/ empece que pasça ao prado (...)”, p.21 ) até a linguagem coloquial quotidiana (incluindo termos de gíria ou vulgares) e palavras estrangeiras, empregadas com frequência, que se integram naturalmente na composição (v. “Anabasis, Xenofonte”, p.68, cujo primeiro verso é formado apenas pela palavra “thálassa!”(mar, em grego), repetida uma vez). Também os neologismos ocorrem, já no próprio título do volume, respondendo às exigências fonéticas dos poemas, o que explica também o livre emprego dos termos estrangeiros. Tudo é válido, desde que funcional para a linguagem da poesia, que se materializa em sons, palavras e signos gráficos.
Do mesmo modo, não há uma única forma adotada. Todas elas são empregadas, desde o soneto clássico até a crônica memorialista ( “Essas neblinas”, p.42). Predominam todavia os poemas breves, de grande economia verbal, embora isso também seja colocado em xeque pela presença de “À guisa de depoimento”(p. 45) no volume, uma experiência de colocar em tercetos um depoimento de Juarez Távora, que poderá constituir-se em um poema longo, no futuro. Assim, no livro, como na vida, o que vale é a multiplicidade das experiências.
A poesia de “Brisais” é alegre, não se encontram nela as queixas habituais dos poetas relativamente à precariedade da condição humana, à passagem do tempo, à morte. Há a presença do humor em “Texturaria Bom Pastor”, p.22 (uma sátira à atividade do poeta como redator “free lance” de textos publicitários, trocadilhando com “tinturaria”), no “Soneto para Otávio Duarte”, em “The raven”, tradução, “só dos sons”, de uma estrofe inicial do “Corvo” de Poe, em que o protagonista é ameaçado pelas sombras das sogras, mãe de suas “vítimas”, e em “Compromissos” (p.44), no qual afima, após declarar seu compromisso prioritário com a vida: “Prefiro, menestrel/ de beira & borda,/ roer, como um de Roma/ rato, a Corda.” “Roer a Corda” é um coloquialismo a mais no livro, e Corda, com letra maiúscula, adquire a condição de símbolo, modo de grafar que também ocorre com outras palavras, em outros poemas.
A poesia de “Brisais”, que tem um lado utilitário, se apresenta contraditoriamente (dialeticamente) “sem mensagens”. Descreve-se uma situação, fixa-se um instantâneo da vida, sem se extrair a “moral da história”. Ver por exemplo “The Opium War” (p.34) ou “Treva leva” (p.61). Na concepção do autor, os poemas são “obra aberta”, repercutindo diversamente nos leitores (“Onde tanjo um Sol/ ouvem lá que é um Fá/ e se solo um Lá/ falam só que é um Si”, p.18), produzindo neles impressões diferentes, que variam de pessoa a pessoa, como quando se observam as nuvens do céu (p.18,II).
Em suma, a poesia de “Brisais” é sinônimo de vida. É um exercício lúdico, sem deixar de ser utilitário. Experimenta todos os temas, todas as formas, todas as linguagens. Experimenta não só os sons, mas também os signos gráficos. É original, mas também é de outrem. Expressa uma disposição alegre de espírito, que também é esperança. Por tudo isso, na calmaria presente, essas brisas são muito bem-vindas.
(Publicado na "Gazeta do Povo" de 16.02.1998- Caderno G, p.2)

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