quarta-feira, 16 de junho de 2010

VIAGEM A LISBOA E MADRI





Após uma semana no Velho Mundo, dedicada exclusivamente a conhecer Lisboa (v. foto) e Madri, já estamos novamente em casa, eu e Rosi.

Chegamos a Lisboa no dia 10 de maio de 2010, à tarde, após atraso de duas horas na partida do aeroporto de Madri, escala obrigatória no voo da Iberia que nos levaria à capital portuguesa. O motivo alegado foi a troca da aeronave, troca essa certamente relacionada ao problema que as cinzas do vulcão da Islândia trouxe aos voos na Europa (a viagem posterior, de Lisboa a Madri, sofreria um atraso maior, de umas três horas).

Deixamos as malas no hotel Eduardo VII e, sem disposição para descansar, partimos imediatamente para conhecer a cidade, agitada pela iminência da chegada de Bento XVI (havia nas ruas que percorremos faixas e outdoors dando-lhe as boas vindas). Iniciamos a visita pela famosa Praça do Comércio junto ao rio Tejo. Lá, homens trabalhavam preparando o local para a missa que o Papa rezaria no dia seguinte. Dessa praça saem várias ruas que levam à Baixa (o centro da cidade). Numa delas, que faz esquina com a praça do Comércio, funciona o famoso café Martinho da Arcada, frequentado por Fernando Pessoa (no local há várias fotos dele, e também de celebridades ainda vivas como o cineasta Manoel de Oliveira e o escritor José Saramago, que tem ali mesas cativas). Visitamos também outro café frequentado pelo poeta dos heterônimos, o “A Brasileira” do Chiado, região da cidade contígua à Baixa.

Subimos a pé por aquelas ruas, Augusta ou do Ouro, observando as lojinhas de comércio e os edifícios antigos, até o Elevador de Santa Justa, um dos cartões postais de Lisboa, que liga a Baixa ao Rossio. Depois, descemos pela rua do Carmo e caminhamos até a praça Luís de Camões pela rua Garret, onde se localiza o mencionado café ‘A Brasileira”, na frente do qual há uma estátua do poeta, sentado junto às mesas da calçada, como se fosse um turista a mais, bebericando.

Nas livrarias das imediações comprei “Breve História de Portugal” de A.H. de Oliveira Marques e o volume II da “História de António Vieira” de J. Lúcio de Azevedo (cujo volume I eu já possuía, adquirido num sebo de Joinville).

Próximo dessa área vi a chegada do eléctrico 28 a um ponto de parada. Logo corremos para apanhá-lo, pois eu sabia que esse bondinho faz um percurso interessante pelas áreas tradicionais da cidade, inclusive pelo seu bairro mais antigo e pitoresco, o de Alfama. Este bairro, visitamos mais demoradamente no dia seguinte (terça-feira, dia 11), quanto estivemos na Feira da Ladra e, mais tarde, no famoso Castelo de São Jorge, de onde se obtém uma vista panorâmica da cidade, e também no belo largo das Portas do Sol. Observamos daí não só o casario antigo lá embaixo mas também o Tejo. Percebemos a presença por ali (e também em outro locais) de muitos turistas alemães.

Depois disso, meu interesse era visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, para ver lá a tela de Bosch “As tentações de Santo Antão”, além naturalmente dos artistas portugueses, como Nuno Gonçalves, autor de um políptico muito reproduzido nos livros de História (aquele em que aparece o infante D.Henrique). Mas o trânsito para a sua região estava todo impedido, devido à visita do papa, de modo que só visitaríamos esse museu no dia seguinte, dia 12, ao retornar de Cascais. Assim, mudamos os planos e fomos mais para o norte da cidade, nas proximidades do nosso hotel, região em que se localiza o museu da Fundação Calouste Gulbenkian, que visitamos, assim como a filial portuguesa de El Corte Inglês-- uma cadeia de loja de departamentos espanhola—onde jantamos. Do museu, a tela que gostei mais foi a de Rubens “Os amores dos centauros”. Mas havia também outras, de Franz Hals, dos impressionistas franceses etc
No dia 12 visitamos o imponente Mosteiro dos Jerônimos, onde estão os túmulos de Camões, Vasco da Gama e muitas outras figuras importante da história de Portugal. Para lá também foram transferidos, no cinquentenário da morte do poeta (1985), os restos mortais de Fernando Pessoa. No bloco de quatro faces que assinala o seu túmulo constam versos dele mesmo e de seus heterônimos. Os de Ricardo Reis são os seguintes:

Para ser grande, sê inteiro; nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Nessa ocasião visitamos também o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém, situados no local de onde partiam os navegadores portugueses. Um pouco adiante, na estação de Algés, pegamos o trem que nos levou à acolhedora Cascais (onde almoçamos e eu comprei, na livraria Galileu, um “Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português”, recentemente lançado). Na viagem de ida a Cascais avistamos do trem o Cassino do Estoril.

A impressão que nos ficou do povo de Lisboa, cujos representantes contatamos (transeuntes, para pedir informações, motoristas de táxi, garçons, recepcionistas de hotel etc) foi a de gente sóbria, pouco extrovertida, prestativa, mas um pouco fria, emocionalmente...(ao contrário dos habitantes de Madri). Duas pessoas me causaram má impressão: um motorista de táxi salazarista, sarcástico, que criticou a democracia porque é dominada por políticos ladrões. Mas esse mesmo sujeito, quando lhe paguei a corrida, me roubou no troco, dando-me um euro a menos... A outra pessoa foi uma mulher negra (aliás, em Lisboa, assim como em Madri, não se veem mulatos, e sim pretos retintos). Ela estava sentada num banquinho, à espera do trem para Cascais, e nós também. Quando quisemos ver, enternecidos, o rosto do bebê no colo dela, cuja cabeça estava coberta por uma manta, ela rispidamente nos proibiu: “Não se pode ver!...” O que será que se passava na mente daquela mulher? Medo de “mau olhado”?

Lisboa é uma cidade limpa, e aparentemente sem mendigos ou crianças de rua... O sistema de bondes, na região mais antiga, é pitoresco e lhe dá um ar peculiar. O tradicional coexiste com o moderno, pois os automóveis também circulam por aquelas ruas de Alfama, onde a impressão que a gente tem é que a cada momento vai acontecer um acidente... E podem também ocorrer ali cenas curiosas como aquela que aconteceu com o eléctrico que nos transportava... ele parou quando outro se aproximava em sentido contrário. Então o motorista desceu do bonde com uma espécie de alavanca nas mãos e usando-a na engrenagem fez com que o nosso bonde retrocedesse por um certo trecho, até ultrapassar um desvio que permitiria a passagem do outro bonde...

No dia 13 de maio, quinta-feira, enquanto o papa cumpria sua programação no santuário de Fátima, partimos de Lisboa, chegando a Madri por volta das 17 horas.

Na capital espanhola, instalamo-nos no hotel NH Zurbano. Logo em seguida, como em Lisboa, partimos para conhecer o centro da cidade. Tomamos o metrô próximo ao hotel e fomos sair em plena Puerta del Sol, cheia de gente fazendo festa, com muitos torcedores do Atlético de Madri comemorando a vitória do time (soubemos depois que ele ganhara a Copa da Europa). Predominava assim em toda parte a cor vermelha do time. Circulamos pelas imediações. Entramos em El Corte Ingles para avaliar os preços das encomendas que nos fizeram. Na livraria dessa loja de departamentos comprei “La España de los Austrias “ (1516 e 1700), de Bartolomé Bennasar, sobre os reis espanhóis da dinastia de Habsburgo aos quais se subordinaram Portugal e suas colônias. O livro me interessou por relacionar-se a um tema que venho estudando há algum tempo, o do “Paraná espanhol”. Como se sabe, Portugal (e também o Brasil) caiu sob o domínio de Felipe II, rei da Espanha, em 1580, e tal subordinação perdurou até 1640, sob Felipe III e IV. Mas a presença espanhola já se impusera no Estado do Paraná bem antes, desde meados do século XVI, no final do período de Carlos V...

Como em Madri escurecia tarde nessa época (lá pelas 21:30) tivemos bastante tempo para caminhar por toda aquela região, indo até a Plaza Mayor, cheia de gente sentada às mesas ao ar livre ou caminhando pela praça, circundada por edifícios de alguns andares apenas, como a Praça do Comércio em Lisboa, característica aliás dessas cidades, em que não se veem arranha-céus do estilo norte-americano. No centro da Plaza Mayor está uma estátua equestre de Felipe III (e no Museu do Prado, que visitaríamos no dia seguinte, 14 de maio, há diversas telas retratando Felipe IV pintadas por Velazquez). Li que no passado em tal praça havia touradas, julgamentos da Inquisição e execuções... Ao percorrer as lojinhas, restaurantes etc que existem ao longo dos quatro lados da praça deparamos com a saída repentina do que deveria ser um cartório de duas mulheres vestidas de branco, recém-casadas, sobre as quais um grupo de amigos jogava arroz e saudava com gritos entusiásticos... Jantamos no Museo del Jamón, um daqueles estabelecimentos típicos dessa área central da cidade, consumindo vinho da casa e um prato de “calamares” (lula frita), camarão, pata de caranguejo, peixe etc. É o que eles chamam de “tapas”. Subimos ao primeiro andar, onde se podia sentar, mas no térreo havia muita gente em pé, no balcão, tomando vinho ou uma “caña” (cerveja) com esses “tapas”, algo que vimos se repetir em diversos outros estabelecimentos.

Na manhã do dia seguinte, decidimos visitar o Museu do Prado. Para tanto tomamos um ônibus perto do hotel. Ônibus de boa qualidade, novo, com pouca gente. Junto ao ponto de parada havia indicação de quanto tempo faltava para ele chegar: um minuto. Chegou antes disso... Com ônibus desse tipo você troca facilmente o carro particular pelo transporte coletivo! É exemplo para as cidades brasileiras... (todavia, o trânsito em Madrid, especialmente nas horas de pico, não deve ser fácil, como percebemos ao chegar, fazendo o trajeto do aeroporto de Barajas até a Calle Zurbano...)

Descemos pelo Paseo de la Castellana, uma ampla avenida, passamos pela Plaza de Colón, Biblioteca Nacional e Plaza de la Cibeles até chegarmos ao ponto em que deveríamos saltar.
Para entrar no maravilhoso Museu do Prado, tivemos que pagar 8 euros por pessoa. Mesmo sendo dia de semana, há fila para entrar, formada em sua maior parte por turistas, como se percebia facilmente. De todo o acervo, o que mais curti foram as telas de Velazquez e Goya, além naturalmente as de Bosch Nos quadros mais famosos, há aglomeração de gente em frente a eles, o que dificulta um pouco a nossa curtição. Na saída do museu, é possível comprar-se livros de arte, e reproduções das telas em tamanho grande (comprei uma do “Jardim das Delícias” de Bosch, e outra, de “O guarda-sol” de Goya, além de um livro de interpretação sobre o simbolismo do primeiro quadro).

Saindo do Museu, caminhamos pelo Paseo del Prado até a Plaza de Cibeles, cujo monumento que mostra a deusa romana conduzindo um carro puxado por dois leões é também cartão postal da cidade, e dali seguimos em frente pela Calle de Alcalá, onde fizemos uma refeição, até reencontrarmos no final da caminhada a Puerta del Sol e a Plaza Mayor.

No dia 15, sábado, decidimos ir até o Museu Reina Sofía para ver quadros de Dali e a “Guernica” de Picasso. Já sabíamos o caminho, pois fica próximo ao Museu do Prado. Descemos do ônibus um pouco mais adiante, para ver a estação ferroviária de Atocha, um prédio antigo que curiosamente abriga um jardim de inverno em seu interior. Mas não conseguimos entrar no museu, pois estava fechado. Um dos poucos dias que fecha, durante o ano, é justamente 15 de maio, dia de San Isidro, o padroeiro de Madri. Devia ser por isso que vimos em vários lugares pessoas jovens e velhas com trajes típicos, que certamente participavam das festividades alusivas à data. Na Puerta del Sol encontramos um desses grupos, composto por gente de meia idade, cantando e dançando, em volta do qual se aglomeravam os transeuntes.

Como não pudemos visitar o Reina Sofía, decidimos tentar outro museu, localizado também nessa região, o Thyssen-Bornemisza, que felizmente estava aberto. Conta com um amplo acervo, desde artistas muito antigos até os mais modernos, e mesmo vanguardistas, como Kandinski e Braque. O que mais me impressionou ali foi um autorretrato de Rembrandt. Mas havia muita coisa interessante...

Na sequência queríamos visitar o Palácio Real. Pegamos um táxi e para lá nos dirigimos, pedindo para o motorista nos deixar em algum lugar, próximo ao Palácio, a fim de comermos alguma coisa. Tomamos uma “caña” e comemos uns salgados no balcão, ao estilo espanhol (ao nosso lado havia uma família, com avós, pais e filhos, em situação semelhante). Devido ao feriado de San Isidro, também não pudemos entrar no Palácio, só o observando por fora. Passeamos pelas suas imediações, observando na Plaza de Oriente a longa série de estátuas dos antigos reis espanhóis.

Saímos dali, e passeamos pelas ruas próximas, onde parte do comércio já estava fechado, por ser sábado à tarde. Acabamos assim retornando à região central.

Depois disso, entramos num estabelecimento da Plaza Mayor para jantar. Pedimos uma paella de frutos do mar. Em seguida retornamos de táxi para o hotel. A TV local mostrava artistas se apresentando num palco montado na Gran Vía, em comemoração ao centenário dessa avenida. No dia anterior havíamos estado ali e percebemos pela agitação que algum evento estava sendo preparado no local. Mais um motivo para festa desse povo alegre, que sabe viver, que faz a siesta depois do almoço e cujo comércio só reabre às 17 horas.... que a ditadura sangrenta de Franco não conseguiu tornar triste e desfibrado (nesses dias vimos manifestação dos trabalhadores numa praça de Madri em protesto contra o pacote de medidas adotado por Zapatero para combater a crise). Essa Gran Vía situa-se acima da Calle de Alcalá. Por ela também caminhamos um pouco, observando as pessoas e os prédios, vivenciando enfim a cidade...

Logo de manhã, 16 de maio, partimos para o aeroporto de Barajas, a fim de enfrentar as onze horas de viagem correspondente ao voo Madri-São Paulo. O voo iniciou na hora prevista, 12:15 em Madri, ou seja 7:15 da manhã no Brasil, já que há uma diferença aqui de cinco horas a menos no fuso horário.

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